Capítulo 4 - Indeterminado
Ponto de vista de Margot
— Mas eu tenho uma pergunta pra você... — limpo a garganta, enquanto as sobrancelhas de Laura se erguem, expectantes.
— A gente tem que morar sozinha? — perguntei depressa, a ideia me atingindo com mais força agora. — Eu poderia pelo menos ficar alojada com a minha amiga? Porque, quero dizer, este lugar com certeza é grande o bastante pra duas, né? — digo, olhando ao redor para os tetos altos e o quarto espaçoso, como ênfase.
A expressão dela suavizou ao ver a súplica nos meus olhos. Quase... com cara de culpa agora?
— Bem, ah... eu posso perguntar — disse ela com gentileza, dando de ombros de leve. — Talvez, nem que seja só por esta noite?
A esperança explodiu no meu peito tão rápido que quase doeu.
— Você faria isso? — perguntei, de repente esperançosa, inclinando-me um pouco para a frente.
Ansiosa demais.
Desesperada demais.
Mas eu nem me importei, porque eu sabia que, se tinha uma coisa que poderia chegar perto de me fazer sentir melhor, seria ter Cara de volta comigo.
— Claro — ela sorriu. — Qual é o nome dela?
— Cara Owens — falei rápido. — Deixaram ela em algum lugar aqui perto... ela não pode estar muito longe... ela foi a última a sair antes de mim!
— Certo — Laura assentiu. — Deixa eu ver o que eu consigo fazer... — concordou, e eu de repente me senti um pouco esperançosa.
Será que eu tinha julgado essa mulher cedo demais? Será que ela não era ruim afinal? Será que as intenções dela de “nos dar as boas-vindas” à cidade eram realmente puras?
Mas eu ainda não conseguia afastar a sensação persistente de que havia algo mais sinistro acontecendo nos bastidores deste lugar. Alguma coisa simplesmente não parecia totalmente certa em nada...
Talvez essa mulher só fosse excepcionalmente boa em interpretar o papel dela? E, por isso, eu não podia me permitir confiar em ninguém cedo demais... apesar da gentileza.
Afinal, pra ela, sem dúvida eu estava sendo vista como uma suspeita perigosa. Ela provavelmente acha que eu poderia ter tido participação no que diabos aconteceu lá na prisão e que fez todo mundo vir parar aqui!
E ainda me incomodava o fato de que eles também não revelavam nada disso pra gente...
Que loucura é essa, né? Ah, vamos tirar vocês todos da ilha, algemar, levar pra um lugar desconhecido e trancar numa cidadezinha perfeita até a gente “resolver” algumas coisas?
Era a coisa mais absurda que eu já tinha ouvido!
Essa palhaçada supera a ideia do projeto da prisão por completo, porque agora eles realmente viraram a gente do avesso e fizeram de nós — os prisioneiros! — voluntários.
— Laura, o tempo acabou. Vamos em frente. — Minha postura ficou rígida ao ouvir o tom do soldado me arrancar dos pensamentos; a cabeça dele apareceu na porta enquanto ele encarava a esposa.
Ela se levantou depressa, sacudindo a roupa, me lançando mais um sorriso de um bilhão de dólares com um suspiro que parecia querer me acalmar...
— Bem, Margot, foi um prazer conhecer você! Vou ver o que eu consigo fazer pela sua amiguinha — disse ela, já recuando em direção à porta. — Sua comida deve chegar logo também, e amanhã de manhã outra pessoa vem explicar o que acontece a seguir. Mas, até lá, por favor, aproveite ao máximo tudo o que foi fornecido pra você aqui — é tudo seu! — ela canta, animada, me fazendo sentir como se eu tivesse acabado de ser recebida num maldito resort de férias por uma semana!
Eu não agradeci por nada...
Ainda não.
Porque eu não confiava em nada disso.
Não confiava totalmente nela.
Só devolvi um sorriso de lábios cerrados e observei enquanto ela saía, as botas do marido batendo forte pelo corredor, seguidas pelo som mais suave dos chinelos dela correndo atrás dele.
A porta se abriu e, em seguida, se fechou, me deixando mais uma vez num silêncio mortal.
“Porra!”, soltei, de repente precisando daquela expiração dramática.
Agora, toda a visita de Laura e do marido dela parecia que nem tinha acontecido. Como se fosse só coisa da minha cabeça.
Balancei a cabeça, torcendo para que ela cumprisse a palavra e pelo menos conseguisse trazer Cara para cá passar a noite…
Assim, a gente poderia conversar direito, sem ninguém escutando…
Tentar processar juntas o quão horrível tinha sido o dia inteiro…
Puxei o ar pelo nariz, fungando para conter a emoção, sentindo que já tinha chorado o suficiente por hoje, e fui para a cozinha — explorando tudo com mais atenção desta vez.
Abri a geladeira de novo, peguei uma segunda garrafa de água e, em seguida, destampei e comecei a beber.
Acho que isso podia ser uma coisa boa deste lugar: a água gelada que eles tinham deixado na geladeira…
Suspirei de leve, meus olhos percorrendo o ambiente com cuidado desta vez, enquanto eu abria gavetas e armários para achar talheres, pratos e outras coisas básicas de cozinha…
Depois fui até a grande ilha da cozinha, apoiei a garrafa e me encostei no tampo de mármore, soltando um gemido.
Meu corpo inteiro doía agora que a adrenalina tinha passado. Meu olho latejava sem parar. Meus pulsos ainda estavam doloridos por causa das algemas.
Mas o que mais doía era o meu peito…
Porque cada segundo de silêncio naquele lugar só me fazia pensar mais nele.
Coban.
O que ele estava fazendo agora?
Ele tinha surtado completamente quando disseram que a gente não ia voltar?
Um nó subiu dolorido na minha garganta.
Eu conseguia praticamente ver a cena.
A fúria.
Os gritos.
A violência.
Porque não tinha como ele ter aceitado isso em silêncio.
De jeito nenhum.
Ainda mais depois da semana incrível que a gente tinha acabado de ter…
Do jeito que as coisas finalmente tinham começado a parecer… reais entre nós.
Apertei os olhos com força.
Para!
Pensar nele só estava tornando tudo mais difícil…
Puxei um fôlego lento e me endireitei de novo, andando sem rumo pela cozinha.
Então—
Ding, dong!
Congelei na hora.
A garrafa quase escorregou dos meus dedos.
Outra batida veio logo em seguida.
Mais alta desta vez.
Encarei o corredor, cada músculo do meu corpo se retesando enquanto o silêncio voltava a tomar conta da casa.
Através do vidro fosco ao lado da porta da frente, eu conseguia distinguir uma silhueta grande.
Definitivamente masculina.
Outro soldado…
Por um segundo horrível, eu esperei que a porta simplesmente se abrisse de novo. Que eles entrassem como se fossem donos do lugar, como Laura e Tyler tinham feito…
Mas não abriram.
Em vez disso—
BAM. BAM. BAM.
Uma batida mais agressiva ecoou pela casa.
“Senhorita Belle, abra!”
A voz grave latiu através da madeira, me fazendo pular.
Fiquei olhando para o corredor por um segundo a mais do que devia, o estômago se revirando de nervoso.
Talvez fosse só o jantar que a Laura tinha mencionado?
“Margot Belle!”, a voz gritou meu nome de novo, mais impaciente desta vez, enquanto mais batidas vinham — martelando a porta.
Eu me obriguei a me mexer naquele instante.
Rápido.
Sem querer testar ainda mais a paciência dele.
O chão frio pressionou a sola dos meus pés descalços quando saí da cozinha e entrei no corredor, meu coração martelando mais alto a cada passo em direção à porta.
Cheguei devagar.
Hesitei.
Então destranquei com cuidado e puxei a porta para abrir…
