Capítulo 6 - Um bom dia?

Ponto de vista de Margot

Por alguns segundos abençoados depois de acordar, eu esqueci onde estava.

Esqueci dos soldados.

Esqueci dos caminhões.

Esqueci da prisão.

Esqueci dele...

Mantive os olhos fechados enquanto me mexia sob os lençóis macios, o corpo pesado de exaustão, até que a realidade foi voltando e desabando sobre mim de novo, devagar.

A casa.

A cidade.

A investigação.

Ir embora de Coban...

Meu peito se apertou dolorosamente ao pensar nele enquanto eu piscava e despertava aos poucos.

O silêncio me recebeu.

Silêncio demais.

Franzi levemente as sobrancelhas ao virar a cabeça para o outro lado da cama.

Vazio.

O cobertor ao meu lado estava amassado e largado, e Cara não estava em lugar nenhum.

Na mesma hora, meu estômago se contraiu.

Sentei-me depressa, fazendo uma careta quando uma dor atravessou meu corpo por causa da viagem interminável de ontem e do estresse. Minhas pernas latejavam quando as joguei para fora do colchão, os pés descalços afundando no carpete grosso.

— Cara? — minha voz saiu áspera de sono.

Nenhuma resposta.

O pânico ameaçou subir por um segundo, até que—

O som de água correndo chegou até mim do outro lado do corredor.

O chuveiro...

O alívio afrouxou alguma coisa apertada no meu peito.

Ah...

Ela estava bem.

Ainda aqui.

Soltei o ar, trêmula, passando a mão pelo cabelo embaraçado antes de me levantar devagar.

O quarto parecia ainda mais ridículo à luz do dia.

Enorme.

Mais como uma suíte de hotel de luxo do que um lugar onde supostamente estávamos sendo mantidas contra a nossa vontade...

Caminhei até a janela devagar, ainda enrolada em uma das camisas brancas enormes que encontramos nas gavetas ontem à noite, depois de finalmente desistirmos dos colapsos emocionais e da exaustão que estavam consumindo nós duas.

O jantar tinha sido... estranho.

Pizza simples de queijo.

Mas irritantemente boa.

A gente tinha sentado lá embaixo, na mesa de jantar, comendo fatias gordurosas enquanto lágrimas escorriam aleatoriamente pelo nosso rosto a cada poucos minutos sempre que uma de nós mencionava qualquer coisa...

A prisão...

Os homens...

Ou que diabos estava acontecendo com a gente agora...

A comida tinha vindo com batata frita, anéis de cebola, refrigerante, molho de alho e até barras de chocolate depois, como se a gente estivesse numa maldita festa do pijama em vez de presas dentro de uma cidade controlada pelo exército.

A culpa por ter gostado de qualquer coisa daquilo pesou no meu estômago a noite inteira.

Porque nada disso deveria ter parecido confortável.

Não depois de tudo.

Não depois de deixar eles para trás.

Principalmente ele.

Engoli em seco ao pensar nisso quando alcancei as cortinas e as puxei de uma vez.

A luz do sol explodiu dentro do quarto na hora.

Soltei um chiado baixo, semicerrando os olhos.

— Jesus...

O céu lá fora estava de um azul doloroso.

Pássaros cantavam em algum lugar perto.

Parecia...

Pacífico.

Jardineiros ali perto...

Jardineiros de verdade...

Dois homens mais velhos aparando arbustos e moldando cercas-vivas como se aquilo fosse algum bairro suburbano dos sonhos.

Flores regadas.

Árvores podadas.

Casinhas perfeitas em tons pastel brilhando sob o sol.

Era horrível.

Como ver alguém polir um caixão.

Então eu os vi...

Soldados!

Duplas patrulhando tranquilamente pelas calçadas, com armas penduradas nas mãos, rindo juntos como se fosse só mais uma manhã normal de trabalho.

Como se não houvesse dezenas de garotas apavoradas presas dentro daquelas casas.

Meu peito se apertou.

A gente estava mesmo presa aqui.

Completamente encurraladas dentro desse pesadelo perfeito de cartão-postal...

— Esse banho foi até bem gostoso...

Eu praticamente gritei, o corpo inteiro dando um solavanco violento quando me virei, agarrando o peito.

Cara estava atrás de mim, segurando uma toalha numa mão, me encarando como se eu tivesse enlouquecido.

— Meu Deus! — eu ofeguei.

As sobrancelhas dela se ergueram antes de ela cair na risada.

Risada de verdade.

— Jesus Cristo, Margot — ela resfolegou. — Se acalma! Você não me ouviu saindo?

— Eu estava distraída! — me defendi, sem fôlego, pressionando a palma da mão com mais força contra o coração disparado.

Mas então eu realmente olhei para ela.

E pisquei.

Porque ela estava...

Diferente.

Mais luminosa.

Mais limpa.

O cabelo úmido caía solto pelos ombros, e ela tinha trocado de roupa, vestindo um dos vestidos do guarda-roupa de cima.

Amarelo-claro.

Um tecido macio que marcava a cintura perfeitamente antes de cair solto ao redor das pernas.

Ficou lindo nela.

E, de algum jeito, isso me fez odiar ainda mais este lugar.

— Você parece bem mais... iluminada hoje — admiti, cautelosa.

Cara deu de ombros, sem jeito, olhando para si mesma.

— Eu só... precisava me sentir humana de novo — disse baixo. — O banho ajudou. Roupa limpa ajudou.

Os dedos dela roçaram de leve no tecido do vestido.

— E, sinceramente? — ela suspirou. — Eu já estava cansada de feder a criminosa.

Aquilo me atingiu mais do que eu esperava.

Porque ela não estava errada.

— Seu roxo também não está tão feio hoje — ela acrescentou depois de analisar meu rosto.

Franzi um pouco a testa antes de ir até o espelho da penteadeira. Meu reflexo me encarou de volta — cabelo loiro bagunçado, olhos inchados e o hematoma ao redor do olho já começando a desaparecer.

Ela tinha razão.

Podia ter sido muito pior.

Porque eu com certeza já tive pior...

— Então aquele soldado bate que nem uma putinha — resmunguei, seca.

Cara soltou outra risada.

Uma de verdade, dessa vez.

E por um segundo?

Quase pareceu normal.

Quase...

Mas então o silêncio se instalou de novo.

Pesado.

A realidade voltando aos poucos.

Suspirei baixinho. — Acho que vou dar um jeito em mim também.

— Você vai se sentir melhor depois — Cara prometeu, suave, enquanto ia até a cômoda e já começava a abrir as gavetas, como se a curiosidade finalmente tivesse voltado.

Enquanto isso, eu me obriguei a ir até o guarda-roupa.

Fileiras de vestidos me receberam outra vez. Como se alguém já tivesse planejado com cuidado toda a nossa existência aqui.

Por fim, estendi a mão para um vestido rosa-claro de alças no pescoço.

Longo e esvoaçante.

Tecido macio.

Lindo, sinceramente.

Eu teria amado em qualquer outro lugar. Em qualquer lugar, menos aqui.

— Pelo menos nos deram um secador de cabelo! — Cara anunciou de repente, animada.

Olhei para o lado quando ela puxou o aparelho com fio da gaveta, deixando-o bater com força na madeira, teatralmente.

Soltei um bufar baixo pelo nariz, sem compartilhar muito do entusiasmo dela.

Meu peito ainda doía demais hoje.

Ainda sentia falta demais da cela que eu um dia odiei.

Porque pelo menos lá...

Eu tinha ele.

A luz do banheiro acendeu quando entrei, fechando a porta com cuidado atrás de mim.

Fiquei encarando meu reflexo no espelho por um longo momento antes de, devagar, tirar a camiseta grande demais.

Minhas roupas antigas estavam arruinadas.

Sujas.

Rasgadas.

Meu cabelo caiu solto pelas costas em nós embaraçados quando me despi por completo, fazendo uma careta leve ao sentir os hematomas espalhados pela pele.

Eu estava horrível.

Cansada.

Quebrada.

E a pior parte? Eu estava acostumada a me sentir assim.

Toda vez que a vida parecia me entregar alguma coisa boa... ela sempre arrancava de mim de novo.

Sempre me empurrava direto de volta pro fundo do poço.

Sempre.

Abri o chuveiro rápido antes que eu afundasse ainda mais.

O calor atingiu minha pele na hora, arrancando um suspiro trêmulo dos meus lábios enquanto a água escorria pelo meu corpo dolorido.

Fechei os olhos.

Finalmente me permitindo respirar pela primeira vez desde ontem.

Os sabonetes e xampus com cheiro caro, alinhados com perfeição na parede, só aumentavam o quanto aquele lugar parecia irreal.

Tudo fornecido.

Tudo controlado.

Tudo falso...

Inclinei o rosto para a água, deixando-a encharcar meu cabelo embaraçado enquanto minha mente voltava a vagar.

Para Coban...

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