Capítulo 4 Capítulo 2.0 Diana Cross
Quando finalmente completei dezoito anos, soube que o momento de enfrentar o mundo havia chegado.
Crescer em um orfanato, sem respostas sobre quem eu era ou de onde vinha, moldou minha visão de futuro cheia de incertezas.
Meus pais?
Não faço ideia de quem sejam.
Fui deixada ainda bebê, com apenas alguns meses de vida, e desde então ninguém apareceu, ninguém procurou por mim. Essa ausência de identidade me frustrava cada vez mais, enquanto os anos se arrastavam dentro daquelas paredes frias e solitárias do orfanato.
Com a maioridade batendo à porta, era hora de seguir em frente. Foi então que uma das irmãs, percebendo minha angústia, recorreu à ajuda de Berta Still, uma mulher generosa que decidiu me acolher em sua casa. Berta não apenas me ofereceu um lar temporário, como também me arranjou um emprego. Sempre sonhei em cursar Medicina e, tão logo comecei a trabalhar, ingressei na faculdade, com muito esforço e gratidão no coração.
O problema é que trabalho para o senhor Stark. Damian Stark. Um homem sério, de semblante duro, que exala uma aura de autoridade capaz de me fazer estremecer só de pensar em encará-lo. Sei que preciso vencer essa timidez, afinal, não faço ideia de quanto tempo ele vai tolerar meus deslizes, minha inexperiência e meus desastres.
Assumir o cargo de secretária na empresa dele nunca foi algo que imaginei para meu primeiro emprego. Achei que começaria com algo mais simples, que combinasse com alguém que mal conhece o mundo real. Mas ao receber a proposta, vi ali uma oportunidade única: um desafio à altura dos meus sonhos e, quem sabe, uma porta que me levasse mais perto do futuro que desejo.
Contudo, meu primeiro encontro com Damian Stark foi tudo, menos acolhedor. Ao entrar em sua sala, com um sorriso educado e esperançoso, fui imediatamente engolida por aquele olhar impetuoso que parecia atravessar minha alma. Havia algo de feroz e selvagem em seus olhos, que me obrigou a engolir o sorriso na mesma hora.
— Bom dia, senhor Stark! Eu sou sua nova secretária e vim atualizá-lo sobre a sua agenda. — anunciei, tentando manter firmeza na voz, mas falhei miseravelmente.
Ele não respondeu. Apenas me observou em silêncio, sentado em sua imponente cadeira de couro, e com um gesto seco apontou a cadeira à minha frente. Sentei-me com as mãos trêmulas e, em um deslize desastroso, deixei cair a agenda eletrônica no chão. Pedi desculpas rapidamente, tentando não demonstrar desespero, mas percebi sua impaciência crescendo. Meu jeito retraído e o hábito de manter os olhos baixos pareciam irritá-lo.
Ainda assim, ele nada disse. Apenas me instigou, com o olhar, a continuar.
Tomei fôlego e comecei a ditar sua agenda: reuniões com fornecedores, entrevista para a revista Lanc Stel, visita aos galpões de exposição e um jantar com Madeleine Stark, sua mãe, que insistia muito em ter esse momento com ele.
Ao encerrar, ergui os olhos e encarei o CEO por um breve instante. Ele me observava com atenção, como se tentasse decifrar cada camada da minha alma.
— Eu já terminei — disse, com um leve tremor, esperando que me dispensasse para voltar à segurança da minha mesa. Mas não foi o que aconteceu. O telefone tocou e, por um segundo, acreditei que poderia sair da sala. Em vez disso, ele levantou a mão e me ordenou, sem palavras, que permanecesse. Enquanto falava ao telefone, afastado de mim, aproveitei para observá-lo com mais atenção.
Seu rosto era quadrado, de traços fortes e inexpressivos. As sobrancelhas grossas se uniam com frequência, formando uma expressão de constante desagrado. Seus lábios finos, de um rosado pálido, se comprimiam a cada resposta ríspida, e uma barba bem aparada o deixava ainda mais sério. Era impossível decifrar o que se passava por trás daquela fachada. E então, por um breve instante, juro que vi algo estranho: um leve brilho acinzentado em seus olhos.
Não, isso foi coisa da minha cabeça. Deve ter sido a luz, tentei me convencer.
— Senhorita Cross, preciso que me traga as pastas com os documentos de engenharia e desenvolvimento. Preciso revisar os desenhos técnicos e avaliar dimensões, tolerâncias e desempenho dos croquis para as novas frotas — disse ele, sem rodeios.
Ele não pedia. Ordenava.
Aliviada pela chance de sair de sua presença, levantei-me prontamente e corri para cumprir a tarefa. Havia algo nele que me deixava inquieta, quase como se... meu instinto quisesse me alertar sobre um perigo invisível.
Após entregar tudo o que ele solicitou, voltei à minha mesa e mergulhei no trabalho: responder e-mails, organizar os compromissos do dia seguinte e, em vão, tentar afastar da mente a imagem daquele olhar que parecia esconder algo mais profundo... e sombrio.
Nos primeiros dias, me sentia como uma peça fora do lugar.
A rotina na Stark era intensa, marcada por prazos apertados, reuniões frequentes e funcionários que se moviam com precisão quase militar pelos corredores envidraçados. Todos pareciam saber exatamente o que estavam fazendo menos eu.
