Capítulo 7 Capítulo 3.0 Damian Stark
Após mandar Diana embora, encerrei minha noite de forma abrupta. De longe, observei enquanto ela deixava o prédio sozinha. Só me permiti respirar quando a vi entrar em um táxi e desaparecer na escuridão da rua. Em seguida, caminhei até meu carro e voltei para casa.
Nada fazia sentido. Mesmo incomodado com tudo o que havia acontecido, tentei me convencer de que o melhor era esquecer.
Ao chegar, tomei um banho rápido e me joguei na cama, buscando sufocar os pensamentos no travesseiro. Mas não adiantou.
Acordei antes do habitual, após uma noite inquieta, mal dormida. Diana rondava minha mente como uma sombra persistente, e por mais que eu tentasse expulsá-la, ela continuava ali. Nos meus olhos. Na minha pele. No que restava da minha paz. Um sinal péssimo.
Tomei meu café sem açúcar, amargo como a sensação que me consumia e fiquei parado na varanda da cobertura, encarando o horizonte de Yarolensk. Até que, por impulso, desci ao subsolo da residência.
Lá guardo o que realmente importa: segredos, legados, a história da minha linhagem. E a promessa que fiz ao meu pai.
O cofre se abriu com o reconhecimento biométrico. As luzes internas acenderam suavemente, revelando pastas seladas, contratos antigos... e uma caixa de madeira escura. Dentro dela repousava a relíquia deixada por Barack: uma fotografia amarelada, guardada como se fosse um objeto sagrado.
Sentei-me, respirei fundo antes de tocá-la.
A imagem mostrava um bebê enrolado em panos brancos. O olhar era intenso, mesmo na inocência de poucos meses. Mas o que mais chamava atenção estava ali, na lateral da clavícula esquerda: uma marca escura, de contorno irregular, como uma estrela incompleta.
A marca.
A mesma que meu pai descreveu antes de morrer.
“Você vai reconhecê-la... pela marca.”
Fechei os olhos, tentando afastar a ideia absurda que começava a se formar. Mas era inevitável. Uma tempestade à espreita.
Não pode ser.
Levantei-me, inquieto. Guardei a foto e os documentos, fechei o cofre e saí de casa como se o destino tivesse acabado de me empurrar para uma estrada sem volta.
Cheguei à empresa com passos duros e rápidos. Falei pouco. Não olhei ninguém nos olhos. Subi direto para o meu andar. Mas, ao entrar no corredor que levava à minha sala, parei.
Ela estava ali. Diana. De costas, mexendo nos arquivos com a costumeira hesitação. A blusa caía sutilmente sobre o ombro esquerdo e o cabelo estava preso em um coque alto.
E então eu vi. A marca. Exatamente onde estava na fotografia. O chão pareceu se mover. O ar ficou mais pesado. O tempo desacelerou.
Não pode ser. Isso é impossível.
— Diana... — minha voz saiu mais rouca do que deveria.
Ela se virou, assustada. Tinha aquela expressão de quem não sabe se deve correr ou se desculpar.
— Senhor Damian? Eu... cheguei mais cedo hoje. Queria compensar a confusão de ontem...
— Venha até minha sala. Agora.
Ela hesitou.
— Eu fiz algo errado?
— Agora, Diana.
Engolindo seco, me seguiu com passos contidos.
Assim que a porta se fechou, a encarei com intensidade. Cada gesto dela parecia um eco do passado. Uma chave para o enigma que me foi deixado.
— Você tem uma marca entre a nuca e o ombro. Uma mancha de nascença.
Ela franziu o cenho.
— Tenho, sim. Por quê?
Me aproximei.
— Posso vê-la?
Ela recuou, insegura. Mas encontrou algo no meu olhar que a fez parar.
Respirou fundo, afastou o tecido da blusa.
E lá estava ela. A marca. A forma. A mesma imagem da fotografia.
É ela.
A criança da foto.
O elo da promessa.
O coração do legado.
E, talvez, o maior perigo que já cruzou meu caminho.
— Por que você tem essa marca? — perguntei, como se ela pudesse explicar o inexplicável.
— Não sei. Eu nasci com ela... por quê? O senhor está me assustando. — disse, recuando.
— Você não faz ideia... do que isso significa.
Ela balançou a cabeça, confusa. Eu a encarei por longos segundos, então a liberei. Mas, mesmo depois que saiu da sala, o silêncio permaneceu ensurdecedor.
Diana não é só minha secretária.
Ela é a peça-chave.
Peguei o telefone.
— Verônica, entre em contato com um dos nossos investigadores privados. Preciso de um levantamento completo sobre Diana. Histórico familiar, adoções, certidões, escolas, laudos médicos. Tudo com máxima discrição. Entendido?
— Sim, senhor. O relatório será entregue amanhã?
— Em mãos. E que ninguém mais saiba disso. Nem ela.
Desliguei.
Se Diana realmente tem ligação com a criança da foto, preciso saber de tudo.
Cada mentira. Cada silêncio. Cada verdade oculta.
