CAPÍTULO UM

O peso opressivo do passado se agarra à minha existência frágil e sufoca meu espírito a cada respiração. Olho pela janela suja do meu apartamento sombrio, meus olhos seguindo o caminho das gotas de chuva enquanto elas escorrem pelo vidro. O mundo lá fora é um borrão de cinza, espelhando a desolação dentro de mim.

"Levanta, Fiona! Para de ficar aí como um trapo inútil!" A voz áspera do meu padrasto corta o ar, quebrando o silêncio frágil. Eu estremeço, me preparando para o ataque de sua raiva. Ele é sempre assim. Rosto pálido com olhos cansados que parecem de um filme inacabado.

"Eu... eu sinto muito," gaguejo, minha voz mal um sussurro. Os resquícios do abuso ainda permanecem no meu corpo trêmulo e seus toques fantasmas são um lembrete constante da minha existência miserável.

"Você sente muito? Sentir muito não conserta nada, sua inútil!" Suas palavras ecoam na minha mente, as feridas que elas infligem parecem mais profundas do que qualquer dor.

Eu me levanto do colchão gasto, meus movimentos lentos e pesados pelo fardo das minhas cicatrizes. Enquanto cambaleio até a pequena e decrépita cozinha, o cheiro de cigarros velhos e desespero enche o ar.

"Onde está meu café da manhã, Fiona?" Ele berra e sua voz reverbera pelas paredes, pontuada pelo som de seus passos pesados se aproximando.

"Eu... eu estou fazendo," respondo, minha voz tremendo de medo. Eu luto com as panelas, tentando estabilizar minhas mãos trêmulas. Meu coração bate forte no peito, um lembrete constante da vulnerabilidade que me prende. Olhei para as panelas e continuei o que estava fazendo.

De repente, um estrondo alto me assusta. Sua mão bate contra o balcão da cozinha, a poucos centímetros da minha forma trêmula.

"Você chama isso de café da manhã?" ele sibila, seus olhos queimando nos meus com desprezo e prazer sádico. "Você é inútil, Fiona. Igual à sua mãe imprestável."


Lágrimas quentes escorrem pelo meu rosto enquanto me preparo para o inevitável ataque de sua fúria. Neste mundo de sombras, eu não sou mais do que um peão em seu jogo distorcido. Mas em algum lugar profundo, uma faísca de desafio começa a queimar. Eu sei o que quero e o que posso fazer para parar isso, mas tenho tido medo.

"Chega," sussurro, minha voz tremendo. "Eu não vou deixar você me quebrar mais."

Antes que ele possa reagir, eu passo por ele, correndo em direção à porta. Eu saio para as ruas encharcadas de chuva, sentindo as gotas frias se misturarem com minhas lágrimas. Eu corro, sem saber para onde estou indo, movida por uma necessidade instintiva de escapar das correntes que me prendem.

Entrei em um beco longe do prédio dilapidado perto de nossa casa. Encontro um abrigo no beco, meu corpo tremendo e meu coração batendo forte, a chuva não parando, uma voz me chama das sombras.

"Você está bem?"

Assustada, eu me viro para encarar o estranho que emergiu da escuridão. Seu olhar penetrante encontra o meu, cheio de preocupação e um entendimento não dito. Eu enxugo minhas lágrimas, convocando a força que ainda resta dentro de mim.

"Eu vou ficar," respondo, minha voz firme apesar do tremor na minha alma.

Ele se aproxima, estendendo a mão em minha direção. "Sou Sebastian. Deixe-me te ajudar."

"Me ajudar?" Eu disse, olhando para ele e sem reconhecê-lo de lugar algum. Nunca vi seu rosto antes, mas em seus olhos vejo um brilho de esperança e uma promessa de algo mais.

"Sim, ou você não precisa de ajuda?"

Eu não consegui dizer nada. E quando nossas mãos se tocam, sinto uma faísca de conexão, uma espécie de linha de vida nas ruínas da minha inocência destruída.

"Venha comigo." Ele disse suavemente.


Eu sou Fiona Lawson, e esta é minha história de redenção.


A mão de Sebastian permanece estendida, uma linha de vida oferecendo consolo no caos que me cerca. Dou um passo hesitante à frente, meus olhos fixos nele, procurando traços de engano ou malícia. Mas tudo o que encontro é uma preocupação genuína.

"Eu... eu nem te conheço," consigo dizer. Minha voz estava trêmula.

Seu olhar suaviza, e ele oferece um sorriso reconfortante. "Você não precisa me conhecer para perceber que merece algo melhor do que isso," ele diz, gesticulando para o beco dilapidado, a personificação do meu passado.

Respiro fundo, convocando a força enterrada dentro de mim. "Você está certo," sussurro, minha voz ficando mais forte. "Eu mereço algo melhor."

A chuva continua a cair ao nosso redor, ele se aproxima e sua presença me envolve em um escudo de proteção. "Venha comigo," ele sugere, seu tom gentil, mas firme. "Deixe-me te mostrar um mundo além da escuridão que te consumiu. Além disso."

Uma onda de apreensão me invade e a incerteza do que está por vir ameaça paralisar minha determinação. Mas naquele momento, percebo que não posso mais ficar presa na prisão do meu passado. Preciso dar um salto de fé, pela minha sobrevivência.

"Sim," finalmente respondi, minha voz cheia de entusiasmo. "Eu vou com você."

Um sorriso se espalha pelo rosto dele e ele estende a mão novamente. Desta vez, estendi a mão sem hesitação, entrelaçando meus dedos com os dele. O calor de seu toque envia uma faísca através de mim e de alguma forma acende uma nova coragem.

"Qual é o seu nome?"

"Fiona," eu disse.

"Tudo será diferente agora, Fiona," ele me assegura, sua voz carregada de firme convicção. "Você vai ficar bem. Sua felicidade importa."

Eu não consegui dizer nada.

Saímos do beco, deixando para trás os fragmentos quebrados do meu passado. Naquele momento, sinto um sopro de esperança acender dentro de mim. A chuva continua a cair.

"Meu carro está logo ali." Ele apontou para a rua em forma de T fora do beco.

A cada passo que damos, sinto-me mais atraída para conhecê-lo e não posso negar a sensação de segurança e pertencimento que o acompanha. Pela primeira vez em muito tempo, permito-me sonhar com um amanhã mais brilhante.

Enquanto desaparecemos na noite chuvosa, um novo capítulo começa—um cheio de amor, autodescoberta e a possibilidade de curar minha inocência destruída. Com Sebastian ao meu lado, enfrentarei os desafios à frente, pronta para conquistar os demônios que me assombram e recuperar a vida que eu estava destinada a viver.

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