Capítulo 2 Rosas Vermelhas para uma Prisioneira

"Tranque a porta", Marina ordenou ao segurança que acabara de entrar.

O homem obedeceu imediatamente.

Serena continuava segurando o celular, incapaz de desviar os olhos da tela. Aquelas mensagens haviam chegado com poucos segundos de diferença, descrevendo exatamente o que acontecia dentro do camarim.

"Ele está aqui", sussurrou.

Marina se aproximou.

"Não sabemos disso, Serena."

"Ele sabe que estou chorando! Como poderia saber?"

Ninguém respondeu.

O chefe da segurança começou a examinar o ambiente. Verificou a porta, as janelas e até o pequeno banheiro reservado aos artistas.

Serena acompanhava cada movimento, sentindo o coração acelerar.

Poucos minutos antes, aquele camarim representava o encerramento de mais uma conquista. Agora, parecia uma armadilha.

"Vamos retirá-la pela saída de serviço", anunciou o segurança. "Ninguém terá acesso ao corredor até terminarmos a inspeção."

Marina assentiu.

"Também quero as gravações de todas as câmeras do teatro."

Serena olhou novamente para o buquê.

As rosas estavam perfeitamente abertas, exibindo pétalas de um vermelho intenso. Eram lindas, cuidadosamente selecionadas e organizadas.

Pensar que alguém havia escolhido cada uma delas enquanto imaginava possuí-la provocou uma náusea repentina.

"Jogue essas flores fora", pediu.

Marina segurou sua mão.

"Precisamos entregá-las à polícia."

Serena assentiu lentamente.

Seu celular vibrou mais uma vez.

Até breve, Serena.

Dessa vez, ela não gritou.

Apenas desligou a tela e apertou o aparelho contra o peito.

Pela primeira vez, os aplausos daquela noite pareciam pertencer a uma vida muito distante.

_

Três dias depois, Serena descobriu que o silêncio podia ser mais assustador do que qualquer ameaça.

Nenhuma flor.

Nenhum bilhete.

Nenhuma mensagem.

O desaparecimento repentino do perseguidor deveria tranquilizá-la, mas produziu o efeito contrário.

Ela passou a verificar compulsivamente as notificações, esperando encontrar algo que confirmasse que ele ainda estava por perto.

Marina havia contratado uma equipe particular de segurança, reforçado o controle de acesso ao edifício e solicitado uma inspeção completa no apartamento.

Também registraram uma ocorrência policial, entregando os bilhetes e os números utilizados nas mensagens.

Até aquele momento, porém, a investigação não havia identificado o responsável.

"Encontraram alguma coisa?", Serena perguntou quando o técnico terminou de examinar o quarto.

"Nenhum dispositivo de gravação, senhorita Valmont. Também não encontramos sinais evidentes de acesso não autorizado."

Ela observou o homem guardar os equipamentos.

"Então como ele sabe o que faço dentro de casa?"

O técnico hesitou.

"Não consigo responder isso. Recomendo verificar também os acessos às suas contas e aos sistemas de segurança."

Serena agradeceu, embora a resposta pouco ajudasse.

Naquela noite, dormiu com as luzes acesas.

Ou tentou.

Cada ruído do apartamento parecia anunciar uma presença.

O estalo da madeira.

O funcionamento do ar-condicionado.

O vento movimentando as cortinas.

Às três da manhã, levantou-se para verificar a fechadura pela quarta vez.

Estava trancada.

Ainda assim, arrastou uma cadeira até a porta.

Sentiu-se ridícula.

Era uma mulher adulta, financeiramente independente, admirada por milhões de pessoas.

E estava construindo uma barricada improvisada dentro da própria casa.

Na manhã seguinte, Marina apareceu carregando café e uma sacola de pães.

"Você está horrível."

"Bom dia para você também."

"Estou falando sério, Serena. Quando foi a última vez que dormiu direito?"

"Antes de descobrir que tenho um psicopata como fã."

Marina deixou as sacolas sobre a bancada.

"Quero que passe alguns dias comigo."

Serena suspirou.

"Você mora com dois gatos que me odeiam."

"Eles são excelentes juízes de caráter."

"Um deles tentou comer meu cabelo."

"Ele tem bom gosto."

Serena soltou uma risada involuntária.

Por alguns instantes, a tensão diminuiu.

Marina aproveitou para servir o café.

"Conversei com a equipe. Vamos manter dois seguranças nos seus deslocamentos e reforçar a vigilância do prédio."

"Você está gastando uma fortuna."

"Você me paga uma fortuna para resolver problemas."

"Não achei que incluísse perseguidores."

"Está nas letras miúdas."

Serena sorriu, mas logo ficou séria.

"Marina, e se ele nunca parar?"

A empresária pousou a xícara.

"Então continuaremos procurando até encontrá-lo."

"Você fala como se fosse simples."

"Não é simples. Mas você não vai enfrentar isso sozinha."

Serena desviou o olhar para a janela.

Do alto de seu apartamento, a cidade parecia tranquila.

Lá embaixo, milhares de pessoas seguiam suas rotinas sem imaginar que a mulher cuja voz ouviam nas rádios tinha medo de abrir as próprias cortinas.

Uma semana se passou.

Serena tentou retomar a normalidade.

Participou de reuniões, gravou uma entrevista previamente agendada e compareceu a um ensaio para um evento beneficente.

Mas já não conseguia cantar com a mesma liberdade.

Sempre que fechava os olhos para alcançar uma nota, lembrava-se do bilhete.

Gosto quando faz isso.

A frase havia contaminado um gesto que antes lhe pertencia.

Durante um ensaio, interrompeu a música abruptamente.

O pianista ergueu a cabeça.

"Está tudo bem?"

Serena respirou fundo.

"Podemos fazer uma pausa?"**

Ele assentiu.

Sozinha no corredor, ela apoiou a testa contra a parede.

O que mais aquele homem conseguiria tirar dela?

Seu sono?

Sua privacidade?

Sua música?

O celular vibrou.

Serena quase o deixou cair.

Era Marina.

Consegui remarcar sua reunião de amanhã. Vá descansar. Você merece.

Ela fechou os olhos, aliviada.

Talvez realmente precisasse de alguns dias longe de tudo.


Na sexta-feira, depois de uma reunião particularmente cansativa, Serena decidiu voltar para casa mais cedo.

Recusou o convite para jantar com alguns produtores.

Queria um banho quente, uma pizza e a companhia de algum filme terrivelmente ruim.

Quando o carro parou diante do edifício, um dos seguranças abriu a porta.

"Quer que a acompanhemos até o apartamento, senhorita?"

Serena observou a entrada iluminada.

O porteiro a cumprimentou através do vidro.

As câmeras estavam funcionando.

O elevador privativo exigia autorização eletrônica.

Tudo parecia seguro.

"Não precisa. Obrigada."

"Qualquer coisa, ligue imediatamente."

"Pode deixar."

Ela entrou no elevador.

Durante a subida, observou o próprio reflexo.

As olheiras estavam mais profundas, e os cachos negros, presos em um coque desajeitado.

"Você precisa de férias, Serena", murmurou.

As portas se abriram.

O corredor estava vazio.

Digitou a senha da fechadura e entrou.

O apartamento estava silencioso.

Deixou a bolsa sobre o aparador e retirou os sapatos.

Finalmente.

Seu pequeno refúgio.

Deu alguns passos em direção à cozinha.

Então parou.

Havia um perfume diferente no ar.

Doce.

Intenso.

Familiar.

Seu estômago se contraiu.

Rosas.

Lentamente, virou a cabeça para a sala de jantar.

Sobre a mesa, havia um enorme buquê de rosas vermelhas.

Ao lado dele, duas taças de vinho.

Uma garrafa aberta.

E um pequeno cartão branco.

Serena recuou instintivamente.

Antes que pudesse alcançar a porta, uma voz masculina surgiu da penumbra.

"Você demorou, meu amor."

O sangue congelou em suas veias.

Um homem estava sentado em sua poltrona favorita.

E sorria como se estivesse em casa.

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