Capítulo 4 4

Elana ainda segurava as cartas nas mãos quando algo lhe chamou a atenção. No fundo da pequena caixa metálica, havia um amarrado de cartas diferente dos outros. O papel amarelado pelo tempo estava preso por uma fita vermelha desbotada, e o nome "Gabriel" fora escrito à mão na parte superior da primeira folha.

Seu coração acelerou. Gabriel. Seu melhor amigo de infância e adolescência. A única pessoa que a fizera sentir que não estava completamente sozinha naquele mundo. Seus dedos deslizaram pela fita antes de desfazê-la com cuidado. Dentro daquele maço de cartas, escondiam-se palavras que ela nunca teve coragem de dizer em voz alta.

Com um suspiro trêmulo, Elana puxou uma das cartas e começou a ler.

“Meu querido sol,

Eu não sei por que ainda escrevo essas cartas que nunca terei coragem de te entregar. Talvez porque seja a única maneira de colocar para fora tudo o que eu sinto. Sei que você me vê como sua melhor amiga, e eu tento me convencer de que isso é o suficiente, mas a verdade é que não é. Não para mim.

Eu queria poder te contar que, quando você sorri, meu coração se aquece de um jeito que nada mais consegue. Que cada vez que você segura minha mão para me puxar em alguma aventura sem sentido, eu quero que o tempo pare ali mesmo. Eu queria te dizer que, quando você fala sobre a garota que gosta, eu sorrio por fora, mas por dentro estou desmoronando.

Talvez um dia eu tenha coragem de te contar. Talvez um dia eu pare de esconder esse amor dentro de cartas que só acumulam poeira. Ou talvez eu continue assim, te amando em silêncio, desejando que, de alguma forma, você perceba sem que eu precise dizer.

Com todo o amor que nunca pude confessar, Elana.”

As palavras dançavam diante de seus olhos, mas a visão de Elana estava turva com as lágrimas que ameaçavam cair. Ela nunca teve coragem de dizer nada a ele. Nunca soube se ele poderia ter sentido o mesmo.

Seu peito se apertou com uma dor antiga, mas ainda intensa. Quando seus pais se separaram, seu pai a levou embora da cidade do dia para a noite. Não houve tempo para despedidas, para explicações. Simplesmente arrancaram-na de sua casa, de sua vida, e, principalmente, de Gabriel. Ela nunca soube como ele reagiu ao seu desaparecimento repentino, nunca recebeu uma carta, uma ligação. O tempo passou, e o silêncio entre eles se tornou um abismo.

Mas agora, segurando aquela carta, a saudade se tornou insuportável. Ela precisava saber. Precisava ver se Gabriel ainda estava ali, se ainda morava naquela casa no fim da rua.

Tomada pela emoção, Elana saiu da casa sem nem perceber seus passos. Caminhou pela calçada, sentindo o vento frio tocar seu rosto. A cada metro percorrido, seu coração batia mais rápido. E se ele ainda estivesse lá? E se abrisse a porta ao vê-la? Ou pior… e se ele tivesse ido embora para sempre?

Ao virar a última esquina, seu olhar se fixou na casa que um dia fora tão familiar. Mas algo estava diferente. As janelas estavam fechadas, as cortinas puxadas. O jardim que antes era bem cuidado agora estava tomado pelo mato. E, no portão, uma placa enferrujada deixava claro: "Vende-se".

Elana sentiu seu estômago afundar. Ele não estava mais ali.

Tudo a tomou de uma só vez. A dor de ter sido traída; a morte da mãe que ela sequer tinha contato; a incerteza sobre sua própria vida. Mas, acima de tudo, o vazio de perceber que Gabriel, a única pessoa que realmente a fazia se sentir segura, agora só existia em suas lembranças.

Elana voltou pela mesma rua, os pensamentos embaralhados pelo impacto do que havia acabado de ver. A casa de Gabriel, fechada, abandonada. Era como se um pedaço de sua história tivesse sido arrancado sem aviso. Sentia-se sufocada, como se o peso de todas as lembranças caísse sobre ela de uma só vez.

No meio do caminho, avistou um pequeno mercadinho de bairro. Sem pensar muito, entrou. As prateleiras eram estreitas, os produtos amontoados de maneira quase desorganizada, mas nada disso importava. Caminhou até a sessão de bebidas e pegou duas garrafas de vinho barato. O atendente, um senhor de idade com óculos grandes e uma expressão cansada, lançou-lhe um olhar de curiosidade, mas nada disse. Elana pagou rapidamente e saiu dali.

Ao chegar em casa, trancou a porta e foi direto até a cozinha. Abriu os armários antigos, vasculhou as prateleiras cobertas de poeira, mas não encontrou uma única taça. Frustrada, soltou um suspiro exasperado e bateu a porta do armário com força. Pegou uma das garrafas e, sem paciência para cerimônias, girou a rolha e bebeu direto do gargalo. O vinho desceu forte, queimando sua garganta e aquecendo seu peito.

Com o tempo, os goles se tornaram mais frequentes, e a sensação de torpor começou a tomar conta de seu corpo. A primeira garrafa estava pela metade quando Elana se jogou no sofá, sentindo-se tonta e chorosa. As cartas que encontrara no sótão estavam espalhadas sobre a mesa, lembranças de um amor que nunca teve coragem de confessar.

Impulsivamente, pegou o celular e começou a gravar um vídeo curto. Passou a câmera lentamente sobre as cartas abertas, os papéis amarelados pelo tempo, cada um deles carregando palavras que nunca foram lidas por quem deveriam. Seu coração batia descompassado enquanto gravava o início de cada carta, os primeiros traços de sentimentos escritos por uma Elana mais jovem e ingênua.

Depois de alguns minutos, sem pensar muito, abriu seu Instagram profissional. Contava com míseros setecentos seguidores, a maioria deles estranhos que ocasionalmente interagiam com seus textos e desabafos. Ainda assim, publicou o vídeo com uma legenda curta e carregada de emoção:

"Onde tudo começou. Obrigada, meu sol, por me apresentar à escrita. Eu escrevo desde que me entendo por gente, despejando sentimentos em palavras como se fosse a única maneira de existir. Mas, por algum motivo, o mundo nunca pareceu interessado no que eu tinha a dizer. Sonhei tantas vezes com o sucesso, em ver meus livros ganhando espaço, sendo lidos, mudando vidas. Mas talvez algumas histórias sejam apenas para nós mesmos. Talvez algumas cartas nunca devam ser enviadas."

Ela hesitou por um momento, depois apertou o botão de publicar. O vídeo foi ao ar, e ela jogou o celular ao lado, afundando-se no sofá. Com um suspiro pesado, tomou mais um longo gole do vinho, sentindo o calor do álcool e das memórias a envolverem por completo.

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