Capítulo 5 5
A dor de cabeça latejava como se alguém estivesse batendo um martelo dentro de seu crânio. Elana gemeu, puxando o cobertor sobre o rosto para bloquear a luz incômoda que invadia a sala. Seu estômago revirava, e sua boca estava seca como areia.
O toque insistente do celular a fez soltar um grunhido irritado. O som ecoava em sua mente como um alarme de incêndio.
Ainda confusa e com os olhos semicerrados, ela tateou o sofá até encontrar o aparelho. Quando a tela acendeu, a primeira coisa que viu foram as incontáveis notificações. Seu coração pulou uma batida.
50.2K seguidores.
O número pareceu piscando em sua frente. Elana piscou algumas vezes, tentando ter certeza de que não estava delirando por causa da ressaca. Mas não. Era real. Seu Instagram, que até ontem tinha meros setecentos seguidores, agora acumulava milhares.
Ela deslizou os olhos pelas notificações. Centenas de curtidas, comentários, compartilhamentos. O vídeo das cartas havia explodido. Pessoas comentavam sobre a emoção nas palavras, sobre como se identificavam com aquela dor silenciosa. Alguns diziam que estavam ansiosos para ler mais sobre sua história, outros pediam o nome de seus livros.
Elana engoliu em seco, sentindo uma onda de pânico misturada com euforia.
Entre as notificações, havia dezenas de chamadas perdidas de Isabella, sua melhor amiga. E um número desconhecido.
O telefone voltou a vibrar em suas mãos, fazendo-a estremecer. Era o mesmo número estranho. Seu coração acelerou.
Respirando fundo, ela hesitou por um instante antes de deslizar o dedo na tela e atender.
— Alô? — Sua voz saiu rouca, embargada pela ressaca e pela confusão.
— Elana Lewis?
— É Kingsley agora.
— Desculpe, senhora. Eu sou Alice Montclair. — a mulher se apresenta. — Sou da editora Buzzy. Meu chefe viu a sua postagem no Instagram e achou promissora. A senhora reside em Nova Iorque? Ou próximo?
Elana pisca algumas vezes, a cabeça virando com tanta informação.
— Sim... eu... eu morava em Detroit, mas agora estou em Nova Iorque..., mas, espera. Editora Buzzy? Seu chefe?
— Sim, senhora Kingsley. — a voz de Alice soava profissional, mas com um entusiasmo contido. — A Editora Buzzy tem interesse em autores com um apelo emocional forte e uma base de leitores engajados. Seu vídeo chamou a atenção do nosso diretor editorial, e ele pediu para entrarmos em contato o mais rápido possível.
Elana piscou, tentando absorver aquelas palavras. Seu coração parecia querer escapar do peito.
— Vocês querem... falar comigo? Sobre um livro?
— Exatamente. Seu vídeo demonstra uma narrativa intensa e autêntica, algo que buscamos. Meu chefe gostaria de agendar uma reunião para discutir possibilidades. Se a senhora estiver disponível, podemos organizar um encontro ainda hoje.
Elana engoliu em seco. Ainda estava processando a ideia de que, de um dia para o outro, havia ganhado dezenas de milhares de seguidores. Agora, uma editora queria falar com ela?
— Eu... — sua voz falhou, e ela limpou a garganta. — Sim, claro.
— Perfeito! Enviarei os detalhes para o e-mail que está nas suas redes sociais. Estamos animados para conversar.
Elana murmurou um "obrigada" antes de a ligação se encerrar. Ficou parada, segurando o celular, sem saber se ria ou chorava.
Em menos de vinte e quatro horas, sua vida havia virado de cabeça para baixo.
Antes de pensar em ligar para Isabella e contar as novidades, o e-mail de Alice chegou. Ela tinha que estar no centro da cidade em uma hora. Em segundos Elana jogou algumas almofadas para o alto e subiu as escadas. Ela jogou suas malas em cima da cama e começou a procurar uma roupa.
Revirando as malas, Elana soltou um gemido frustrado ao perceber que as roupas estavam amassadas. Antes de pensar em se arrumar, decidiu que precisava de um banho. Correu até o banheiro, ligou o chuveiro e deixou a água quente cair sobre seu corpo, tentando lavar não só a ressaca, mas também a avalanche de emoções que a atingira nos últimos minutos.
Enquanto a água escorria, ela fechou os olhos e inspirou fundo, como se tentasse recuperar o controle de si mesma. É só uma reunião... com uma editora importante... nada demais, tentou se convencer, mesmo sabendo que era, sim, muito mais do que isso.
Ao sair do banho, ainda com os cabelos pingando, vestiu um roupão e voltou para o quarto, onde começou a vasculhar as malas. Escolheu um vestido preto simples, um de seus favoritos por sempre a fazer parecer mais segura do que realmente se sentia, e uma jaqueta jeans para disfarçar o ar de improviso. Enquanto se olhava no espelho, percebeu os olhos inchados e a expressão cansada, então tratou de fazer uma maquiagem rápida, só para não parecer tão abatida.
Depois de secar o cabelo, ela o prendeu em um coque apressado, mas elegante. Pegando a bolsa, saiu de casa às pressas, sentindo a adrenalina correr pelo corpo. As ruas da vizinhança, antes cinzentas e sufocantes, pareciam agora o cenário de uma nova chance. Uma chance que ela jamais imaginou que teria.
E ao entrar no metrô lotado em direção ao centro da cidade, Elana segurou firme em sua bolsa, repetindo para si mesma: você consegue.
Quarenta minutos depois, Elana desceu do metrô. Seguindo o GPS do celular, ela caminhou pelas ruas lotadas, até chegar em frente ao enorme prédio da Editora Buzzy.
O prédio era imponente, com grandes janelas de vidro espelhado e o nome da editora gravado em letras douradas logo acima da entrada. Por um instante, Elana sentiu as pernas vacilarem. Não parecia real. Tudo aquilo era grande demais, diferente demais do mundinho limitado ao qual ela se acostumou nos últimos anos.
Respirou fundo e atravessou as portas de vidro, sendo recebida por um saguão movimentado, repleto de pessoas apressadas, empilhando papéis, falando ao telefone ou equilibrando copos de café. Elana se sentiu minúscula, mas ao mesmo tempo, determinada a não recuar.
Aproximou-se da recepção, e com a voz ainda hesitante, disse:
— Eu... tenho uma reunião. Com Alice Montclair.
A recepcionista, sem sequer erguer os olhos do monitor, apontou para o elevador.
— Décimo quinto andar.
Elana assentiu, apertando a bolsa contra o peito, e seguiu até o elevador. Enquanto subia, seu reflexo no espelho de fundo mostrava não só sua imagem, mas toda a ansiedade que carregava. A cada andar que passava, parecia que o peso aumentava. E se tudo isso fosse um engano? E se não fosse nada?
O elevador se abriu, interrompendo seus pensamentos. O andar era moderno, decorado com livros e quadros de capas de best-sellers. O logo da Buzzy estampado na parede parecia sorrir para ela de forma quase irônica.
— Elana Lewis? — chamou uma voz feminina e em seguida deu um pigarro. — Kingsley.
Elana virou-se e encontrou uma mulher de cabelo curto e loiro platinado, bem-vestida e com um sorriso profissional.
— Sou Alice Montclair. — a mulher estendeu a mão. — Seja bem-vinda à Buzzy. — Elana apertou a mão de Alice rapidamente e em seguida a secou na própria roupa. — Meu chefe a está esperando. Venha comigo, por favor.
Elana seguiu a mulher, sentindo o coração bater tão forte que parecia ecoar pelo corredor. Seus passos soavam amortecidos sob o tapete elegante, e tudo ao redor parecia irreal. Como poderia sua vida ter mudado tanto da noite para o dia?
Alice parou diante de uma porta de madeira escura, bateu de leve e girou a maçaneta.
— Elana Kingsley já chegou.
Elana respirou fundo e entrou. E então, o mundo pareceu parar.
Atrás da grande mesa de madeira, de pé, ajeitando as mangas do blazer, estava alguém que ela imaginava nunca mais ver.
— Gabriel.
