Capítulo 6 6
Gabriel não era mais o garoto magricela de quem Elana se lembrava. Antes, ele mal passava dos ombros dela, tinha o cabelo ralo e um resquício de bigode malfeito que sempre o deixava envergonhado nas fotos. Agora, diante de seus olhos, estava um homem completamente diferente.
Ele era alto, tão alto que Elana precisou levantar o queixo para encará-lo direito. Os ombros largos e o porte forte pareciam prestes a rasgar o terno perfeitamente ajustado ao corpo. Os braços, definidos e marcados, denunciavam anos de academia ou alguma rotina que exigisse muito mais do que as aventuras inocentes de quando eram adolescentes.
A barba, antes inexistente, agora era cheia e bem aparada, encaixando-se perfeitamente no rosto de traços marcantes. E o cabelo, que quando criança caía liso e sem graça sobre a testa, estava preso num corte moderno, puxado para trás e amarrado em um pequeno coque samurai.
Gabriel parecia ter saído diretamente das páginas dos romances que Elana escrevia. Só que ele era real. E estava bem ali na sua frente.
— Pode sair, Alice. — a voz dele soou grave, rouca e autoritária. Bem diferente da que Elana se lembrava. Ela sentiu um arrepio subir pela espinha.
Alice assentiu, lançando um último olhar curioso para Elana antes de sair e fechar a porta.
O silêncio que se instalou foi sufocante.
Gabriel cruzou os braços, encostando-se à borda da mesa de madeira escura, sem desviar os olhos dela.
— Então... — ele começou, arqueando uma sobrancelha. — Depois de todos esses anos, é assim que a gente se reencontra? Viralizando no Instagram?
Elana mordeu o lábio inferior, sentindo o peso das palavras. O silêncio entre eles era quase sufocante. Gabriel recostou-se na cadeira, os olhos varrendo Elana de cima a baixo, como se a estudasse. Mas não havia ternura ali; só distância.
— Então... — ele começou, ajeitando distraidamente as abotoaduras da camisa — Depois de quinze anos, aqui estamos. Tão repentino quanto a sua ida.
Elana apertou a bolsa contra o corpo, buscando ar. O tom cortante de Gabriel a atingiu como uma lâmina.
— Eu não escolhi ir daquele jeito. — ela murmurou, a voz vacilante. — Meu pai me tirou daqui de uma hora para outra, eu não tive escolha.
Gabriel soltou uma risada breve, sem humor, balançando a cabeça.
— E nos quinze anos seguintes? Ainda era culpa do seu pai? Ou, quem sabe, dos correios, da internet, das linhas telefônicas?
Ela sentiu o rosto arder.
— Eu...
Elana tinha tanto o que dizer. Tanto para explicar.
— Olha, — ele levantou as mãos, como se não se importasse — não estou aqui para discutir o passado. Não importa mais. A vida seguiu.
O jeito como ele falava, a frieza na voz, era como se cada palavra tivesse sido ensaiada ao longo dos anos. Como se ele tivesse aprendido a não sentir.
— Só estou aqui porque o vídeo viralizou e chamou a atenção da editora. — Gabriel se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa. — Eles trouxeram para mim e... você tem talento. Isso sempre foi óbvio. Mas tudo isso aqui, serão apenas negócios. Nada mais.
Ela mordeu o lábio, contendo as lágrimas que insistiam em se formar. Sabia que não podia desmoronar ali. Não na frente dele.
Gabriel respirou fundo, endireitando-se na cadeira. Pegou uma pasta preta sobre a mesa e a empurrou lentamente na direção de Elana.
— O contrato. — disse ele, sem emoção. — Já está pré-aprovado pela Buzzy, mas tem uma cláusula adicional que eu exigi.
Elana arqueou as sobrancelhas, desconfiada.
— Cláusula adicional? — repetiu, sem conseguir esconder o nervosismo. Eles sequer conversaram e já há um contrato.
— Sim. — Gabriel cruzou os braços. — Eu quero total supervisão editorial. Toda e qualquer linha, cena ou capítulo vai passar por mim antes de ser aprovado. Inclusive as temáticas e o tom geral dos livros.
Elana piscou, sem acreditar no que ouvia.
— Isso não é normal... você quer censurar minha história?
— Quero garantir que o material atenda aos interesses da editora. — disse ele, frio. — E, honestamente, evitar que certas... emoções pessoais — ele lançou um olhar direto — interfiram no que estamos tentando vender.
Ela sentiu o sangue ferver.
— Sabe de uma coisa? Eu prefiro continuar falida e viver no anonimato, a ter você supervisionando cada palavra minha.
Gabriel não demonstrou surpresa, apenas sorriu de canto, como se já esperasse aquela reação.
Sem esperar por mais nada, Elana pegou a bolsa e saiu da sala, sentindo o olhar dele a seguir até a porta se fechar.
Assim que a porta se fechou, Gabriel soltou o ar que vinha prendendo e passou as mãos pelo rosto, exausto.
Segundos depois, Alice entrou na sala com passos apressados, os olhos arregalados.
— O que aconteceu? — ela perguntou, quase sem fôlego. — Elana saiu furiosa! Vocês nem ficaram dez minutos juntos!
Gabriel girou levemente a cadeira, voltando o olhar para a janela, fingindo desinteresse.
— Ela não estava preparada para as exigências do contrato. — disse, sem alterar o tom. — Nada demais.
Alice cruzou os braços, visivelmente preocupada.
— Chefe, você tem noção do alcance que esse vídeo teve? Ela ganhou quase cem mil seguidores em menos de vinte e quatro horas! O público está pedindo pelo livro, comentando sem parar, querendo saber quem ela é, de onde vem essa história. — Alice caminhou até a frente da mesa. — Isso pode render muito para a Buzzy. Não podemos deixá-la escapar assim.
Gabriel manteve o semblante calmo, mas seu maxilar tenso o traía.
— Existem outras autoras talentosas no mercado, Alice. — ele rebateu. — Se ela não quer, paciência.
— Outras autoras não têm um público engajado clamando por mais. — ela retrucou, firme. — A viralização é orgânica, rara! Se ela escrever, as pessoas vão comprar, e vamos ter um sucesso nas mãos.
Gabriel desviou o olhar por um segundo, como se ponderasse, antes de balançar a cabeça.
— O que você quer que eu faça, Alice? Que vá até ela e implore para que assine com a gente?
Alice tombou a cabeça e sorriu.
