Capítulo 7 7
Elana entrou em casa enfurecida.
Ao bater à porta atrás de si, o som ecoou pela casa vazia, aumentando ainda mais o peso em seu peito. Ela jogou a bolsa com força no sofá e, sem conseguir segurar mais, soltou o grito que vinha prendendo desde que deixou a editora.
— Droga! — gritou, com lágrimas descendo desordenadas pelo rosto. — Droga, droga, droga!
Sentou-se no chão, tremendo, e abraçou os próprios joelhos. O peso de tudo — da traição do ex, da morte da mãe, do reencontro com Gabriel, e agora dessa oportunidade prestes a escorrer pelos dedos — parecia esmagá-la.
Mas, entre lágrimas e soluços, a notificação do celular vibrou em cima da mesa, iluminando a sala. O número de seguidores subia a cada minuto. Comentários de pessoas reais, pedindo por mais, tocando em sua ferida mais sensível: a escrita.
Elana passou a mão pelo rosto, enxugando as lágrimas, enquanto encarava a tela iluminada do celular. Os números não paravam de subir. Seguidores. Comentários. Compartilhamentos. Pessoas dizendo que precisavam da história dela.
Ela inspirou fundo, sentindo, pela primeira vez em muito tempo, um fio de esperança atravessar toda a bagunça que era sua vida.
— Chega. — murmurou, determinada, ao se levantar do chão. — Chega desse drama todo.
Seguiu até a pequena mesa no canto da sala, abriu seu notebook antigo e, com dedos ainda trêmulos, criou um novo documento. Respirou fundo, e então digitou:
“CAPÍTULO UM”
Por um instante, ficou olhando para aquelas duas palavras. Era simples, mas era um começo. E, dessa vez, seria por ela, não por Gabriel ou pela Buzzy. Seria pela menina que, anos atrás, sonhava em escrever as próprias histórias.
Pegou o celular e, sem pensar demais, tirou uma foto da tela. Em segundos, postou no Instagram com uma legenda simples, mas que carregava tudo o que sentia:
"Novidades a caminho."
O celular vibrou novamente. Curtidas instantâneas. Um sorriso, pequeno e tímido, surgiu em seu rosto.
Mas, antes que pudesse se deixar levar pela animação, três batidas firmes na porta interromperam o momento. O som seco na velha madeira fez Elana saltar da cadeira, o coração disparando.
Ainda admirando, quase hipnotizada, os números que cresciam em sua rede social, ela caminhou hesitante até a porta. Sua mente tentava imaginar quem poderia ser àquela hora.
Quando girou a maçaneta e abriu a porta, sentiu o chão quase sumir sob seus pés.
— Gabriel?
[...]
Gabriel parou à porta, o olhar vagando brevemente pela fachada envelhecida. Ele reconhecia cada rachadura da madeira, cada detalhe da varanda. A casa era a mesma de quando eram crianças, só parecia mais cansada, como ele se sentia por dentro.
Elana abriu a porta, e o choque foi imediato. Nos olhos dela, ele viu a surpresa e, logo em seguida, o receio.
— Gabriel? — a voz saiu baixa, arranhada.
Ele não sorriu. Nem um mínimo traço de gentileza. Apenas ergueu uma sobrancelha e ajeitou a postura.
— Vai me convidar para entrar ou vai me deixar aqui, congelando?
Elana abriu espaço, hesitante. O coração batia forte demais. Quando ele cruzou a porta, o cheiro familiar de madeira envelhecida, o atingiu em cheio. A última vez que estivera ali, ele e Elana devoravam balas e faziam promessas de nunca se separarem.
Agora, era só silêncio e paredes cheias de memórias.
Gabriel caminhou pela sala devagar, os olhos examinando os detalhes, sem demonstrar emoção.
— Algumas coisas mudaram... outras continuam exatamente iguais.
Elana cruzou os braços, defensiva.
— Por que você veio?
Ele virou-se, abrindo a pasta de couro com calma.
— Estou aqui para falar de negócios.
Ela bufou.
— Negócios...
Gabriel tinha os olhos castanhos escuros. E naquele momento, pareciam ainda mais duros.
— Encontrar você era a última coisa que eu imaginei para hoje. — ele disse, sem alterar a voz, como se não estivesse falando de uma pessoa que um dia foi tudo para ele.
Elana apertou os punhos, tentando manter o controle.
— E ainda assim, aqui está você. Na minha porta, querendo que eu assine um contrato que me prende a você.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Errado. Não a mim. Ao seu livro. Ao seu sucesso.
Elana deu um passo para trás, como se as palavras tivessem peso físico.
— Mas você sabe que não é só isso.
Gabriel manteve a expressão inalterada, mas os dedos apertaram sutilmente o envelope.
— Eu sei separar negócios do resto. Você deveria aprender também.
A frase atingiu Elana como uma facada. O mesmo Gabriel que um dia dividiu segredos e sonhos com ela, agora falava como se fossem completos estranhos.
— Não, obrigada. — ela respondeu, a voz tremendo de raiva e mágoa. — Pode levar seu contrato e sair da minha casa.
Gabriel soltou um suspiro curto, sem emoção.
— Pense bem. Não é uma proposta que aparece duas vezes.
Elana caminhou até a porta e a abriu, encarando-o.
— Eu rejeitei na editora e estou rejeitando novamente. Eu sobrevivi sem você e sua editora antes, Gabriel. E agora, mais do que nunca, eu posso fazer isso de novo.
Gabriel, sem perder a calma, retirou um papel dobrado do envelope e o deslizou pela mesa em direção a ela.
— Cem mil dólares de adiantamento. — disse, seco. — Na assinatura.
Elana arregalou os olhos, surpresa, antes de recompor a expressão.
— Eu já disse não.
Gabriel nem pestanejou.
— Cem mil agora. Mais duzentos mil na entrega final do livro. E isso sem contar a porcentagem nas vendas, que você sabe que será alta, porque seu nome já está circulando.
Ela sentiu o coração acelerar. A quantia era alta demais para ser ignorada. Era dinheiro suficiente para quitar dívidas, colocar a vida nos trilhos e, pela primeira vez em anos, respirar sem medo do amanhã. Mas olhar para Gabriel, para a frieza com que ele falava, para o distanciamento que o tom dele carregava, era um lembrete de tudo o que ela estava tentando abandonar.
— Eu... — sua voz falhou, e ela precisou fechar os olhos por um instante. Quando os abriu, estavam cheios de firmeza. — Não. Eu não quero o seu dinheiro, Gabriel. Nem seu contrato.
— Você pode fingir o quanto quiser, Elana. Mas está recusando mais do que dinheiro.
Ela se manteve firme.
— Prefiro recusar agora a me arrepender depois. Pode sair.
Ele demorou um segundo, analisando-a de cima a baixo, como se quisesse decorar a imagem. Então ajeitou o paletó e saiu, sem dizer mais nada.
Quando a porta se fechou, Elana respirou fundo e só então percebeu o quanto estava tremendo.
