Capítulo 8 8

— Você só pode ter ficado doida. — Isabella grunhe do outro lado da tela. — TREZENTOS MIL DÓLARES! ELANA!

O celular de Elana estava apoiado na garrafa de vinho, com a imagem de Isabella a encarando como se fosse uma louca, enquanto ela segurava o bolo de cartas que escreveu para Gabriel anos atrás com uma mão e na outra uma taça cheia de vinho.

— Eu não quero o dinheiro dele, Isa. — Elana rebateu, bebendo um gole generoso. — Eu só... não posso me vender assim.

— Vender? — Isabella arqueou as sobrancelhas. — Elana, acorda! Não é uma questão de se vender. É o seu livro. O seu talento. O seu sonho! Quem liga se o Gabriel está metido no meio? Ele nem precisa participar, é só assinar e pronto!

Elana soltou uma risada amarga, balançando as cartas nas mãos.

— Você não entende, Isa... — Ela respirou fundo, lutando contra o nó na garganta. Com dedos trêmulos, puxou uma das cartas do meio do bolo, já amarelada e com a caligrafia ligeiramente borrada. — Escuta isso.

— "Gabriel, às vezes eu acho que você nunca vai perceber, mas eu te amo. Eu sempre te amei. Eu sei que somos só amigos e que eu devia guardar isso para mim, mas às vezes dói tanto que parece que vou explodir. Eu queria ser corajosa, queria te contar, mas e se você não sentir o mesmo? E se eu te perder para sempre?"

O silêncio entre as duas foi instantâneo.

Isabella arregalou os olhos do outro lado da tela, surpresa.

Elana jogou a carta de volta no sofá, como se queimasse em suas mãos.

— Como eu vou me sentar numa mesa de reunião com ele, Isa? Como vou olhar nos olhos dele e fingir que essas cartas nunca existiram? Que eu nunca o amei como uma idiota apaixonada? — Elana mordeu o lábio, contendo as lágrimas. — Eu era só uma garota, mas... e se eu ainda for?

Isabella cruzou os braços, suspirando.

— Elana, essa carta é de uma menina. Uma menina que estava aprendendo a sentir. Mas você cresceu. Virou mulher. O que quer fazer com isso agora é outra história.

Elana bebe o resto de vinho que tinha na taça e a larga, antes de esfregar o rosto com as duas mãos.

— Ele está furioso comigo, porque eu fui embora e nunca mais dei sinal de vida. Gabriel sequer me deu a oportunidade de conversar e me explicar..., mas isso não importa mais também. Não vou assinar com a editora do Gabriel e nunca mais quero vê-lo na minha frente. Nunca!

[...]

Uma semana havia se passado desde o reencontro de Elana e Gabriel. Uma semana desde que ela viralizou nas redes sociais e começou um novo livro, que sua legião de fãs pedia loucamente.

Elana encarava a tela do notebook. O cursor piscava, impaciente, no mesmo lugar há horas.

Ela tentou escrever. Tentou de verdade. Mas tudo o que conseguiu foi um punhado de frases desconexas que não faziam sentido algum. Apagou. Escreveu de novo. Apagou outra vez.

O problema não era falta de ideias. Era o peso.

O peso das mensagens, dos comentários, das pessoas implorando por um livro. O peso de saber que, pela primeira vez na vida, alguém realmente esperava algo dela.

Pegou o celular, quase por impulso, e abriu as notificações. Centenas de novas mensagens. Pessoas dizendo que estavam ansiosas. Outras perguntando quando poderiam comprar. E algumas sugerindo histórias que achavam que ela deveria contar.

Respirou fundo e jogou o celular na mesa, afastando-se do notebook como se ele fosse um monstro prestes a engoli-la.

— Eu preciso de um tempo...

Decidida a sair um pouco de casa para respirar, pegou a bolsa e foi até o mercado da esquina. Não precisava de nada específico, mas andar pelos corredores gelados parecia um bom plano.

Elana estava colocando uma garrafa de café no carrinho quando ouviu uma voz exageradamente surpresa atrás dela.

— Meu Deus, Elana Kingsley?

Ela se virou devagar, já sentindo um arrepio incômodo subir pela espinha. Sophie Miller.

Os anos haviam sido generosos com ela. O cabelo loiro continuava sedoso, os olhos azuis mantinham aquele brilho avaliador de sempre, e o sorriso… ah, o sorriso continuava carregado da mesma malícia disfarçada que Elana lembrava muito bem.

— Uau! — Sophie exclamou, olhando-a de cima a baixo. — Nunca pensei que fosse te encontrar aqui. Está visitando alguém?

Elana respirou fundo, tentando manter a calma.

— Na verdade, me mudei para cá. Definitivamente.

O sorriso de Sophie vacilou por um segundo antes de se tornar ainda mais doce.

— Ah… É mesmo?

— Sim.

— Interessante. — Ela inclinou a cabeça, como se estivesse analisando a situação. — E como está sendo? Quer dizer, depois de tanto tempo fora…

Elana sentiu o peso por trás daquela pergunta, mas manteve o rosto impassível.

— Está sendo… uma nova fase.

— Hm. — Sophie sorriu, pegando uma barra de chocolate da prateleira ao lado. — Você sabe que vai ter a reunião de quinze anos da turma amanhã, né? Todo mundo vai estar lá.

Elana piscou.

— Reunião?

— Sim! Uma grande celebração na quadra da nossa escola. Deve ser engraçado voltar para cá justo agora, né? Como se fosse destino.

Elana soltou um riso curto.

— Talvez.

Sophie então soltou uma risadinha, estreitando os olhos.

— E aquele menino magrelo com quem você andava? Como era o nome dele mesmo? Ah, Gabriel! Você ainda fala com ele?

Elana sentiu o estômago afundar, mas deu de ombros.

— Nunca mais o vi.

Sophie arqueou as sobrancelhas, surpresa.

— Sério? Achei que vocês fossem inseparáveis. Mas, né… O tempo faz essas coisas.

Elana apenas sorriu de canto, sem responder.

— E ele? — Sophie continuou, inclinando a cabeça. — O que será que aconteceu com ele? Será que ainda mora por aqui?

— Não faço ideia. — Elana mentiu, pegando a primeira coisa que viu na prateleira para ter uma desculpa para desviar o olhar.

— Bom… — Sophie suspirou, pegando outra barra de chocolate. — Seria engraçado se ele aparecesse na reunião também, né? Eu mal lembro do rosto dele, para ser sincera. Mas acho que nunca vou esquecer aquele cabelo desgrenhado e os joelhos ossudos!

Ela riu, e Elana sentiu a raiva pinicar sob sua pele.

— Você vai, né? — Sophie perguntou, animada. — Todo mundo vai estar lá. Vai ser nostálgico.

Elana forçou um sorriso.

— Vou pensar no caso.

— Não pense muito. Vá! — Sophie deu uma piscadela antes de se afastar pelo corredor. — Até mais, Elana.

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