Capítulo 2

Mercedes prendeu a respiração quando a atenção dos três lobisomens se voltou para ela. Agora estava sob os holofotes, mas não tinha medo. Ainda assim, mantinha cautela; no fundo, acreditava que aqueles lobos a matarem seria a melhor coisa que poderia lhe acontecer, em vez de viver fugindo pelo resto da vida. No início, achou que começar uma vida nova seria fácil, mas, em poucos instantes, uma constatação a atingiu. Assim como aquele homem que a perseguira, o passado estaria no encalço dela, seguindo-a aonde quer que fosse. Então ela se manteve firme. Correr claramente não era a solução; teria de encarar de frente o que viesse.

Quer dizer, o que poderia ser pior do que tudo o que ela precisou enfrentar nos últimos dias?

Os três lobos a analisaram, mas não se aproximaram. Pareciam muito mais calmos do que antes e não tinham nada de ameaçador. Nem ela conseguia entender como eles não faziam nada além de encará-la. Uma rajada de vento soprou, e a pelagem espessa deles se moveu com o ar. Mercedes invejou como eles permaneciam impassíveis — como o frio não os afetava do jeito que a afetava.

Ao mesmo tempo, eles também recuaram para as sombras. Mercedes ficou ali, sozinha, de pé, e suspirou de exaustão. Com um gemido alto, acabou de volta ao chão. Toda a adrenalina no corpo começou a sumir, deixando-a fraca. Estava congelando e entorpecida. A boca, seca; ela precisava desesperadamente nem que fosse de uma gota de água. O cansaço pesava no corpo, e ela não conseguia se mexer. Ficou ali caída e se admirou com o céu noturno salpicado de estrelas. Pensou em contá-las, mas não tinha forças nem para isso. Tudo aquilo estava cobrando seu preço, e ela precisava descansar. As pálpebras por fim pesaram, e ela cedeu. Não havia nada que pudesse fazer. De qualquer forma, não tinha para onde ir, então passou a noite no chão da floresta, completamente sozinha. Nem se importou com o que poderia acontecer naquele horário.

Mercedes abriu os olhos devagar. O sol a recebeu em mais um dia. Por um segundo, ela ficou parada, tentando avaliar onde estava e também lembrar o que tinha acontecido antes. Tudo voltou de uma vez e a atingiu como uma tonelada de tijolos. Ela se sentou num impulso, mas já não estava no chão da floresta. Estava numa cama de hospital — ou supôs que fosse um hospital ao ver gráficos e tabelas médicas na parede. O medo a consumiu quando percebeu que estava com uma camisola hospitalar e não com as roupas que usava. Confusa, cheia de perguntas que precisavam de respostas, ela desceu da cama com cuidado e foi em direção à porta.

Mas estava fraca demais e caiu para a frente, de joelhos. A porta se abriu, e ela viu pernas longas e finas, calçadas em sandálias gladiadoras. Mercedes ergueu o olhar e viu uma mulher um pouco mais velha do que ela: jaleco branco, cabelo preto em corte chanel, olhos azuis penetrantes com ruguinhas nos cantos, e o sorriso mais brilhante que alguém já lhe deu. As surpresas não acabavam. Era uma coisa atrás da outra.

— Oi. Vejo que você já acordou.

Mercedes reuniu toda a força que tinha e se levantou até ficar à altura da mulher. Ficava em desvantagem: a mulher era mais alta. Ela não disse nada, sem saber o que dizer a uma estranha — ou a uma médica.

— Ah, desculpa — a mulher riu baixinho. — Onde estão meus modos? Meu nome é Crystal Perez. Doutora Perez — esclareceu, estendendo a mão para um aperto.

Mercedes hesitou um segundo e entrelaçou a palma à dela, sem querer ser rude com a primeira pessoa que falava com ela sorrindo.

— Ah... e-eu... Mercedes — respondeu.

Ela também se impressionou com a beleza da mulher à sua frente: o cabelo preto sedoso, o nariz pequeno e arrebitado, o pescoço longo e elegante. Mercedes começou a se sentir insegura. Não tomava banho havia dias e com certeza estava com um ninho de passarinho no lugar do cabelo. Gemeu por dentro, encolhendo-se de vergonha ao imaginar a própria aparência horrível.

— Certo, Mercedes. Como você está se sentindo agora? — perguntou a doutora, ajudando-a a voltar para a cama e deitá-la.

— Como se eu tivesse sido atropelada por um caminhão, de novo e de novo — Mercedes não pretendia dizer aquilo em voz alta, mas escapou.

Crystal sorriu.

— Eu entendo.

Ela a examinou e anotou algo em silêncio na prancheta. Estava muito concentrada no que fazia, mas Mercedes a interrompeu:

— Desculpa, doutora... Crystal, mas você pode me dizer onde eu estou?

Crystal fez uma pausa e olhou para ela. “Você está em uma clínica. Foi encontrada na floresta e trazida até mim para receber tratamento.” Crystal fez questão de responder da forma mais enigmática possível. Ela não podia se dar ao luxo de deixar escapar que Mercedes estava na clínica da Alcateia White Claw. Vendo que Mercedes continuaria fazendo perguntas, decidiu rapidamente desviar a atenção dela.

“Você estava em um estado bem terrível quando te encontraram. Mal respirando, e sua frequência cardíaca estava baixa”, informou, examinando sua expressão na tentativa de decifrá-la. Mas não havia nada. Seus olhos estavam vazios, e Crystal não conseguia imaginar no que ela estava pensando. Crystal queria perguntar sobre as cicatrizes que marcavam seu corpo, mas sentiu que estaria ultrapassando limites, ou talvez fosse um assunto delicado.

“Obrigada por me salvar. Não devia ter feito isso, mas obrigada”, disse Mercedes, deixando-a confusa. Crystal se perguntou se Mercedes queria morrer. Será que ela era suicida? Tinham lhe dito para tentar reunir o máximo de informações possível sobre quem Mercedes era e o que estava fazendo fora das fronteiras da alcateia, sendo perseguida por um renegado. Crystal só precisava descobrir qualquer coisa que pudesse ajudar. Ela realmente sentia pena de Mercedes. Ela parecia tão jovem, mas já tinha um ar sem vida. As cicatrizes testemunhavam suas lutas.

“Não precisa me agradecer. Eu tenho que salvar vidas.” Ela sorriu com ternura, colocou a mão sobre a de Mercedes e lhe ofereceu apoio. Uma emoção estranha atravessou Mercedes. Ela estava vivenciando coisas novas. Acabara de conhecer uma pessoa que só era gentil com ela, e aquilo parecia quase irreal. Todos a viam como um nada e a tratavam como lixo. Era estranho alguém falar com ela por mais de um minuto.

“O que aconteceu lá fora, Mercedes? Por que você estava naquele estado?”, perguntou, com a voz carregada de preocupação. Se ao menos a mãe dela a tratasse metade do que Crystal a tratara nos últimos minutos. Mas não adiantava pensar nisso agora. “E-eu não sei”, respondeu, atordoada. “Eu tive um dia longo e estava tentando fugir de alguma coisa, mas... alguém me seguiu. Eu tive que correr para a floresta. E-eu vi uma coisa que nunca vou esquecer. Eu não sabia que aquilo era possível na vida real.” Os acontecimentos da noite passada ainda estavam um pouco nebulosos, concluiu.

Mercedes omitiu de propósito a parte em que viu um humano se transformar em lobisomem, porque quem no mundo acreditaria nisso? Ela mesma ainda não conseguia acreditar. Tinha medo de que, se dissesse isso, a mandassem imediatamente para a ala psiquiátrica para avaliação. Então não podia correr esse risco. Guardaria esse fato para si.

“Você viu o rosto dessa pessoa?”

Mercedes balançou a cabeça. “Não, não consegui ver bem o rosto dele, mas tinha uma coisa que se destacava. Ele tinha uma cicatriz grande, como se tivesse sido atacado por um animal.” Sem perceber, Mercedes estava revelando a Crystal o que havia acontecido. Crystal ouviu atentamente o que ela tinha a dizer. Concluiu que tinha sido um lobisomem renegado que a seguira e tentara machucá-la. Ela havia sido resgatada pela patrulha da fronteira.

Ela sorriu. “Bem, fico feliz que nada tenha acontecido com você. Agora só precisamos cuidar dos seus ferimentos para você ficar bem e poder seguir seu caminho. Você tem para onde ir depois daqui?”

Mercedes ficou em silêncio. Não queria contar a Crystal que não tinha nada nem lugar algum para onde ir. Crystal a observou, esperando que dissesse alguma coisa, e ela decidiu mentir.

“Sim. Eu vou para... a casa da minha tia, no interior. Ela está me esperando em alguns dias.”

Crystal percebeu a mentira de Mercedes, mas não disse nada, para não deixá-la ainda mais desconfortável do que já estava. “Tudo bem, então. Vou te receitar alguns analgésicos para a dor que você está sentindo. E, se quiser, pode continuar descansando. Preciso ir fazer minhas rondas, mas vou mandar alguém trazer comida para você.”

Mercedes assentiu em agradecimento e se deitou confortavelmente na cama. Fechou os olhos com um pequeno sorriso no rosto. O que quer que acontecesse de agora em diante, ela lidaria com isso depois. Por enquanto, só aproveitaria esse breve momento de paz em sua vida antes que tudo voltasse a virar caos.

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