Capítulo 1 A DÍVIDA QUE NÃO ERA MINHA
Emanuela Ribeiro
Meu nome é Emanuela Ribeiro, tenho vinte e dois anos e, se Deus, os professores e o meu saldo bancário colaborarem, daqui a alguns meses eu finalmente vou poder dizer que sou formada em Ciências Contábeis.
Último ano.
Só quem já passou quatro anos pegando ônibus lotado, fazendo trabalho até de madrugada, sobrevivendo à base de café e contando moeda para imprimir atividade sabe o peso dessas duas palavras.
Eu estava perto.
Muito perto.
E não pretendia deixar nada estragar isso.
— Manu!
Revirei os olhos antes mesmo de virar.
Só existia uma pessoa capaz de gritar meu apelido no corredor da faculdade às sete e quinze da manhã como se estivesse me encontrando em um bloco de Carnaval.
Beatriz.
Minha melhor amiga surgiu correndo, com a bolsa pendurada em um ombro, um copo de café na mão e algumas folhas quase caindo de uma pasta.
— Pelo amor de Deus, me diz que você fez a atividade do Renato.
— Bom dia para você também, Bia.
— Bom dia é o caralho. Eu tenho quinze minutos antes daquele homem entrar na sala e acabar com a minha vida.
Ri.
— Fiz.
Ela parou na minha frente e colocou a mão sobre o peito.
— Eu sabia que escolhi a amiga certa.
— Você não vai copiar.
— Copiar é uma palavra muito feia. Vou apenas consultar seu raciocínio.
— Sei.
Entramos na sala juntas.
Bia estava comigo desde o primeiro semestre. Éramos completamente diferentes.
Eu gostava de organização. Tinha planilha para controlar minhas despesas, anotava datas de prova com semanas de antecedência e ficava agoniada quando alguém falava que débito e crédito eram a mesma coisa.
Bia provavelmente perderia a própria cabeça se ela não estivesse presa ao pescoço.
Mas eu amava aquela maluca.
— Você está acabada — ela falou, me olhando.
— Obrigada pela delicadeza.
— Não estou falando que você está feia. Você nunca está feia, desgraçada. Estou falando dessas olheiras.
Abri meu caderno.
— Dormi mal.
— TCC?
— Queria.
Ela ficou séria.
— Seu pai?
Não respondi imediatamente.
Meu pai era um assunto complicado.
Marcelo Ribeiro tinha quarenta e oito anos e uma habilidade impressionante para transformar pequenos problemas em grandes tragédias.
Quando criança, eu era apaixonada por ele.
Meu pai era divertido, fazia piada de tudo e sempre aparecia com alguma surpresa.
Depois cresci e descobri que muitas daquelas surpresas eram compradas com dinheiro que ele não tinha.
Jogo.
Apostas.
Empréstimos.
Promessas.
Meu pai adorava dinheiro fácil.
Minha mãe adorava acreditar que ele mudaria.
E eu já tinha cansado dos dois.
— Chegou quase três da manhã — respondi.
— Outra vez?
Assenti.
— E sua mãe?
— Fingiu que estava dormindo.
— Manu, sua mãe precisa…
— Eu sei.
Não precisava terminar.
Já tínhamos tido aquela conversa centenas de vezes.
O professor entrou, encerrando o assunto.
Duas horas depois, minha cabeça estava cheia de números quando peguei o celular.
Três chamadas perdidas.
Mãe.
Franzi a testa.
Minha mãe conhecia meus horários. Nunca ligava durante a aula, a menos que fosse importante.
Liguei imediatamente.
— Mãe?
— Manu…
Meu corpo ficou alerta na mesma hora.
— O que aconteceu?
— Você consegue vir para casa?
— Agora?
Olhei para Bia.
— Tenho estágio, mãe.
— Por favor, filha.
A voz dela estava estranha.
— Aconteceu alguma coisa com você?
— Não.
— Então com quem?
Silêncio.
Eu já sabia.
— É o pai?
— Vem para casa.
Ela desligou.
Fiquei olhando para a tela.
— Merda.
— O que foi? — Bia perguntou.
Guardei minhas coisas.
— Meu pai.
— O que ele aprontou?
— Vou descobrir.
Subi o morro com a sensação de que alguma coisa estava errada.
Eu tinha nascido ali.
Para algumas pessoas de fora, favela significava apenas violência.
Para mim, também significava casa.
Era onde estava a senhora que me viu crescer, o mercadinho onde minha mãe comprava fiado quando eu era criança, as escadas que eu subia todos os dias e as crianças brincando nas vielas.
Mas existia outro lado.
E eu sabia muito bem que ele existia.
A boca.
Os homens armados.
As regras que ninguém precisava escrever para todo mundo conhecer.
E, acima de todos eles, existia um nome.
Corvo.
Gael Ferreira.
O dono do morro.
Eu nunca tinha conversado com ele.
Já tinha visto de longe algumas vezes, mas fazia questão de manter distância daquele mundo.
Minha vida era simples: faculdade, estágio e casa.
Meu objetivo também.
Me formar.
Conseguir um emprego bom.
Dar uma vida melhor para minha mãe.
Quando cheguei, encontrei a porta aberta.
— Mãe?
Entrei.
Sônia estava sentada à mesa da cozinha.
Os olhos vermelhos fizeram meu coração acelerar.
— O que aconteceu?
— Seu pai foi embora.
— Embora para onde?
Ela começou a chorar.
— Eu não sei.
Fui até o quarto deles.
O guarda-roupa estava aberto.
Algumas roupas tinham sumido.
A gaveta onde meu pai guardava documentos estava vazia.
Voltei para a cozinha.
— Ele fugiu.
Minha mãe chorou ainda mais.
— Não fala assim.
— Como você quer que eu fale? Ele levou roupa, documentos e desligou o celular. Isso tem nome, mãe.
Passei a mão pelos cabelos.
— Ele está devendo dinheiro?
Ela não respondeu.
— Mãe.
— Eu não sei.
— Você sabe alguma coisa.
— Ontem ele estava nervoso. Falou que tinha cometido um erro.
Meu estômago apertou.
— Que erro?
— Ele não contou.
— E você deixou por isso mesmo?
— Ele disse que resolveria!
Ri sem humor.
— Claro. Porque o pai sempre resolve tudo.
Batidas fortes no portão interromperam nossa discussão.
Minha mãe congelou.
Eu percebi.
— Quem é?
— Não abre.
Olhei para ela.
— Quem está aí, mãe?
— Manu…
Novas batidas.
Fui até a janela e afastei a cortina.
Dois homens estavam do lado de fora.
Eu conhecia os dois de vista.
Todo mundo conhecia.
Samu e K9.
Homens do Corvo.
Soltei a cortina devagar.
— O que o pai fez?
— Eu não sei.
— Para de falar que não sabe!
Minha voz saiu mais alta.
— Os homens do Corvo estão na nossa porta!
Fui até o portão antes que ela conseguisse me impedir.
Abri.
Samu me encarou.
— Emanuela Ribeiro?
Cruzei os braços.
— Quem quer saber?
K9 soltou uma risadinha.
Samu arqueou a sobrancelha.
— Você é filha do Marcelo?
— Sou.
— Ele tá aí?
— Não.
— Sabe onde ele tá?
— Não. E, se vocês descobrirem, me avisem porque aparentemente ele esqueceu de contar para a própria família que estava indo embora.
Os dois trocaram um olhar.
— Então ela não sabe — K9 comentou.
— Não sei o quê?
Silêncio.
— O que meu pai fez?
Samu respirou fundo.
— Seu pai pegou uma coisa que não pertencia a ele.
Meu coração acelerou.
— O quê?
— Dinheiro.
Eu já esperava.
Meu pai e dinheiro nunca foram uma combinação boa.
— Quanto?
Samu me encarou.
— Oitenta mil.
Demorei alguns segundos para processar.
— Oitenta mil reais?
— Isso.
Comecei a rir.
Não porque fosse engraçado.
Era nervoso.
— Vocês estão malucos. Meu pai não teria nem onde conseguir oitenta mil reais para roubar.
K9 respondeu:
— Teve.
Olhei para minha mãe.
Ela estava parada atrás de mim.
— Você sabia?
— Não, filha.
Voltei para eles.
— Se meu pai roubou, vão atrás dele. Eu não tenho nada a ver com isso.
— Estamos atrás dele — Samu respondeu.
— Então ótimo.
Comecei a fechar o portão.
Ele segurou.
— Mas o Corvo quer falar com você.
Meu sangue gelou.
— Comigo?
— Com você.
— Eu não roubei dinheiro de ninguém.
— Eu sei.
— Então não tenho assunto com ele.
K9 cruzou os braços.
— Isso você explica pro chefe.
— Eu não vou.
Samu me observou por alguns segundos.
— Emanuela, não estamos dizendo que você roubou nada. Mas Marcelo desapareceu levando oitenta mil reais que pertenciam ao Corvo. Você é filha dele. O Corvo quer entender o que aconteceu.
— E eu vou dizer o quê? Que meu pai é um irresponsável? Isso eu posso mandar por mensagem.
K9 quase riu.
Samu segurou um sorriso.
— Corajosa.
— Cansada. É diferente.
Minha mãe segurou meu braço.
— Não vai, filha.
Olhei para ela.
Depois para os dois homens.
Eu estava com medo.
Muito.
Mas não podia demonstrar.
— Se eu for, vocês deixam minha mãe fora disso?
Samu assentiu.
— O assunto é com Marcelo.
— E agora comigo, aparentemente.
Respirei fundo.
Peguei minha bolsa que estava sobre o sofá.
Naquela manhã, eu tinha saído de casa preocupada com estágio, TCC, provas e com os boletos que venceriam naquela semana.
Horas depois, descobri que meu pai tinha roubado oitenta mil reais do dono do morro e desaparecido.
E agora eu estava indo encontrar Corvo.
Ainda não sabia que aquele seria apenas o primeiro problema.
Muito menos que, em pouco tempo, os números que eu passei quatro anos aprendendo a controlar colocariam minha vida diretamente nas mãos do homem mais perigoso que eu já conheci.
Gael Ferreira.
O Corvo.
