Capítulo 2 CORVO
CORVO
Gael “Corvo” Ferreira
Meu nome é Gael Ferreira.
Mas fazia anos que quase ninguém naquele morro me chamava assim.
Para a maioria, eu era Corvo.
Tinha vinte e oito anos e comandava aquele lugar havia cinco.
Não herdei o morro do meu pai.
Não nasci filho de dono.
Muito menos acordei um dia e decidi que queria mandar em alguma coisa.
Eu cresci ali.
Vi minha mãe trabalhar até as mãos doerem para colocar comida dentro de casa. Vi amigo meu morrer cedo. Vi outros serem presos. E aprendi ainda moleque que, naquele lugar, ou você entendia rápido como as coisas funcionavam ou virava peça no jogo de alguém.
Entrei para a boca com dezesseis.
Comecei de baixo.
Fogueteiro.
Depois fui ganhando confiança.
Eu observava mais do que falava.
Talvez tenha sido daí que surgiu o vulgo.
— Tu parece um corvo, menor. Fica só olhando, esperando a hora certa de atacar.
O nome pegou.
E eu aprendi que observar mantinha um homem vivo por muito mais tempo do que falar demais.
Quando fiz vinte e três, o antigo dono caiu.
E o morro virou um inferno por alguns dias.
Tinha gente querendo tomar.
Gente querendo fugir.
Gente mudando de lado.
Eu não fiz nenhum dos dois.
Fiquei.
Quando a poeira baixou, eu estava sentado na cadeira que antes pertencia a outro homem.
Não porque alguém me deu.
Porque eu conquistei.
E desde aquele dia, existiam três coisas que eu não aceitava:
desobediência, mentira e traição.
Dinheiro eu recuperava.
Confiança, não.
Talvez por isso os oitenta mil estivessem me incomodando mais do que deveriam.
— Nada?
Levantei os olhos para Samu.
Ele tinha acabado de entrar.
Meu Sub.
Meu braço direito.
Samuel estava comigo desde antes de eu ser Corvo. Crescemos praticamente juntos. Se existia alguém naquele morro em quem eu confiava sem precisar olhar duas vezes, era ele.
— Nada — respondeu. — O celular do Marcelo tá desligado.
Apoiei as costas na cadeira.
— Rodoviária?
— Já mandei olhar.
— Casa de parente?
— Também.
K9 estava encostado perto da porta.
— Pra mim ele já vazou do Rio.
Olhei para ele.
— Ninguém some assim.
Marcelo tinha cometido um erro.
E não era só pelo valor.
Oitenta mil faziam falta?
Faziam.
Mas não era uma quantia capaz de me quebrar.
O problema era outro.
Se um homem pegava meu dinheiro e simplesmente desaparecia sem consequência, amanhã outro tentava.
Depois outro.
Até minha palavra não valer porra nenhuma.
E ali minha palavra precisava valer.
— Ele teve ajuda — falei.
Samu assentiu.
— Também acho.
Peguei meu celular.
Nenhuma novidade.
— A família?
— Mulher e filha continuam na casa — K9 respondeu.
— Sabem de alguma coisa?
— A mulher parece saber que ele tava metido em merda, mas não sabe quanto nem onde ele tá.
— E a filha?
Samu soltou uma risada.
Franzi a testa.
— Qual foi?
— A filha é marrenta.
K9 riu.
— Marrenta pra caralho.
— Perguntei se ela sabe onde o pai está.
— Não sabe — Samu respondeu. — Pelo jeito, descobriu hoje que ele sumiu.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
— Quero trocar ideia com ela.
K9 descruzou os braços.
— Pra quê?
Olhei para ele.
Ele imediatamente ficou sério.
— Foi mal, chefe.
— Quero saber o que Marcelo falou dentro daquela casa antes de fugir.
Samu assentiu.
— Vou buscar.
— Sem assustar a mãe.
— Tranquilo.
Os dois saíram.
Peguei o cigarro sobre a mesa, mas nem acendi.
Marcelo tinha sido burro.
E eu odiava gente burra mexendo com meu dinheiro.
Eu não sabia ainda se ele tinha feito aquilo sozinho.
Só sabia que os números não estavam me agradando havia algum tempo.
Pequenas diferenças.
Nada grande.
Um valor aqui.
Outro ali.
Quando perguntei, sempre aparecia uma justificativa.
Eu tinha deixado passar.
Até Marcelo desaparecer levando oitenta mil.
Coincidência nunca foi uma coisa na qual eu acreditasse.
A porta abriu novamente algum tempo depois.
Samu entrou primeiro.
— Chegou.
— Manda entrar.
Ele não saiu.
Ficou parado.
— Que foi?
Um sorriso apareceu no rosto dele.
— Nada.
— Fala.
— Só quero ver essa conversa.
— Vai tomar no cu.
Ele riu.
— Tô falando, Corvo. A menina tem língua.
— Problema dela.
— Vai ser seu daqui a pouco.
Olhei para ele.
Samu levantou as mãos.
— Tô quieto.
K9 apareceu na porta.
E atrás dele veio ela.
A primeira coisa que pensei foi que Marcelo tinha uma filha bonita pra caralho.
A segunda foi que aquilo não tinha importância nenhuma.
Cabelo castanho-escuro comprido, quase chegando à cintura. Pele clara. Olhos verdes que passaram rapidamente pelo lugar antes de pararem em mim.
Ela segurava a alça da bolsa com força.
Estava com medo.
Mas entrou de cabeça erguida.
Interessante.
— Essa é Emanuela — Samu falou.
— Eu sei quem ela é.
Os olhos dela vieram para mim.
Não abaixaram.
Melhor ainda.
Apontei para a cadeira na minha frente.
— Senta.
Ela permaneceu de pé.
— Prefiro ficar em pé.
K9 olhou para o lado.
Samu coçou a barba tentando esconder o sorriso.
Eu encarei a garota.
— Não foi pergunta.
— E eu não vim aqui porque quis.
Pronto.
Entendi o motivo da diversão dos dois.
Inclinei o corpo para a frente.
— Você sabe quem eu sou?
— Sei.
— Então sabe que é melhor sentar.
Ela puxou a cadeira e sentou.
— Pronto. Feliz?
Samu tossiu.
Olhei para ele.
— Vaza.
— Mas…
— Tu e K9. Fora.
Os dois saíram.
Voltei minha atenção para ela.
— Onde está seu pai?
— Se eu soubesse, teria falado para os seus homens.
— Quero ouvir de você.
— Não sei.
— Ele falou alguma coisa antes de sumir?
— Não.
— Chegou estranho em casa?
Ela hesitou.
Vi.
— Chegou.
— Que horas?
— Quase três da manhã.
— Com alguém?
— Sozinho.
— Falou com você?
— Não.
Cruzei os braços.
— Seu pai roubou oitenta mil meus.
— Eu já sei.
— E fugiu.
— Também já sei.
— Tá tranquila demais para alguém que acabou de descobrir isso.
Ela soltou uma risada seca.
— Você queria o quê? Que eu chorasse?
— Não.
— Então pronto.
Aquela garota realmente tinha coragem.
Ou não tinha noção do perigo.
Ainda não tinha decidido.
— O que você faz?
Ela franziu a testa.
— Como assim?
— Trabalha?
— Faço estágio.
— Onde?
— Num escritório.
— Escritório de quê?
— Contabilidade.
Parei.
— Você é contadora?
Ela fez uma expressão incomodada.
— Ainda não. Estou no último ano de Ciências Contábeis.
Olhei para ela por alguns segundos.
Interessante.
Muito interessante.
— Último ano?
— Sim.
— Sabe mexer com conta?
Ela me olhou como se eu tivesse feito a pergunta mais idiota do mundo.
— Não. Passei quatro anos fazendo Ciências Contábeis para aprender crochê.
Mordi a parte interna da bochecha para não rir.
Desgraçada.
— Tá achando graça da situação?
— Nenhuma.
Levantei e caminhei até ela.
Emanuela acompanhou meus movimentos.
Quando parei diante dela, finalmente percebi o esforço que fazia para não demonstrar medo.
— Seu pai me deve oitenta mil.
Ela levantou o rosto.
— Meu pai deve. Eu não.
— Concordo.
A resposta pareceu surpreendê-la.
— Então por que eu estou aqui?
— Porque ele sumiu.
— E eu não posso fazer nada sobre isso.
— Talvez possa.
— Eu não tenho oitenta mil reais.
— Eu sei.
— Então?
Olhei para a bolsa dela.
Uma pasta transparente aparecia por cima, com algumas folhas da faculdade.
Voltei os olhos para seu rosto.
Ciências Contábeis.
Talvez Marcelo tivesse me deixado alguma coisa útil antes de desaparecer.
— Quanto tempo falta pra você se formar?
— Alguns meses.
Assenti devagar.
— Então talvez a gente consiga resolver seu problema.
Ela franziu a testa.
— Meu problema?
— É.
— O problema é do meu pai.
Aproximei um pouco mais o rosto.
— Quando seu pai roubou meu dinheiro e sumiu, Contadora…
Ela sustentou meu olhar.
— …ele deixou o problema na porta da sua casa.
Vi a raiva aparecer naqueles olhos verdes.
E, pela primeira vez desde que descobri que oitenta mil tinham desaparecido, alguma coisa conseguiu tirar minha atenção do dinheiro.
Emanuela Ribeiro.
A filha do homem que tinha me roubado.
E, talvez, a pessoa que acabaria pagando aquela dívida.
