Capítulo 4
Lisbeth se levantou, pronta para sair do cômodo.
— Fica aqui — Sebastian disse, impedindo que ela saísse. — Vou resolver isso lá fora. — Ele saiu pela porta enquanto atendia à ligação.
Uma voz idosa veio pela linha:
— Sr. York, agradeço a sua preocupação, mas já pendurei o bisturi. Não faço mais cirurgias. Se o senhor precisar de ajuda, posso recomendar um dos meus alunos.
Apoiado no batente da porta, Sebastian respondeu com a voz calma:
— Para essa cirurgia em específico, precisa ser o senhor.
— Então só posso me desculpar. Se tivesse me pedido há três meses, eu teria aceitado.
Depois de desligar, Sebastian pensou por um instante antes de ligar para Noah.
— Reserva uma passagem pra Marigóldia para daqui a três dias.
— Vai ver aquele professor velho?
— Vou. — Já que o professor dizia estar aposentado, Sebastian iria encontrá‑lo pessoalmente.
Uma ligação talvez não tivesse peso suficiente, mas ele tinha certeza de que o velho não teria coragem de recusá‑lo cara a cara.
— Não tem voo daqui a três dias, mas tem um amanhã.
— Então escolhe outro dia. Não posso viajar nos próximos dois dias. Cancela meus outros compromissos também.
Ele tinha algo mais importante para resolver antes. O olhar dele atravessou as janelas de vidro do chão ao teto até encontrar Lisbeth, sentada no sofá, encarando o vazio com uma expressão cansada.
— Só reserva — disse ele em voz baixa. — E entra em contato com a Elora. Se ela esqueceu, a gente lembra que toda ação tem consequência.
— Entendido. — Depois de desligar, Noah soltou um suspiro. Seu chefe estava mesmo envolvido até o pescoço.
Quando Sebastian voltou, Lisbeth ergueu os olhos na mesma hora, uma faísca de esperança brilhando neles.
— Sobre o que você comentou antes...
— Amanhã eu vou te mostrar uma coisa interessante.
Uma coisa interessante? Lisbeth não entendeu, mas a confiança dele a tranquilizou.
Claro — era Sebastian York. Nada estava fora do alcance dele.
— O que você pretende fazer? — ela perguntou, ainda curiosa.
Sebastian serviu uma xícara de chá para ela.
— Não se preocupa. Amanhã você vai ver. — O sorriso dele era enigmático.
Lisbeth abaixou o olhar, o coração pesado. Nunca imaginou que um dia acabaria se tornando inimiga do homem que mais amava.
Naquela noite, Sebastian saiu com Lisbeth e a deixou na entrada do hospital.
— Vai ver o Dennis — orientou Sebastian. — Quando estiver pronta pra ir embora, me liga que eu venho te buscar.
A preocupação e a maneira atenciosa dele deixaram Lisbeth quase sem jeito.
— Tá bom. Obrigada.
Sebastian pareceu prestes a dizer mais alguma coisa, mas acabou ficando em silêncio enquanto o carro se afastava.
Dennis ainda dormia quando Lisbeth entrou no quarto, então ela se sentou quieta ao lado dele. Quando a enfermeira chegou, Lisbeth deixou o hospital.
Na entrada, ela hesitou antes de ligar para Sebastian.
— Já quer ir embora? — A voz grave e suave dele veio pelo telefone.
O leve peso na consciência que Lisbeth sentia por incomodá‑lo desapareceu.
— Sim, eu queria...
De repente, a voz de uma mulher cortou a linha:
— Sr. York, eu tomei minha decisão. Aceito os seus termos.
Lisbeth desligou apressada. Aquela voz era inconfundível. Era Elora.
Sebastian olhou para a chamada encerrada e então ergueu os olhos para Elora, sentada à sua frente. Ela exibia um sorriso manhoso, mas o brilho nos olhos entregava a satisfação de quem tinha conseguido o que queria.
— Isso foi de propósito — ele constatou.
Elora fingiu inocência:
— Não faço ideia do que está falando. Eu só estava concordando com o seu pedido.
Ela engoliu o ressentimento, sabendo que não podia se dar ao luxo de demonstrar qualquer desagrado na frente de Sebastian.
— Vou convencer o Leopold a fazer uma coletiva de imprensa pra esclarecer tudo e limpar a reputação da Lisbeth. Mas você tem que cumprir sua parte — esse material precisa desaparecer pra sempre.
Para surpresa dela, Sebastian enxergou através da encenação na mesma hora:
— Você está bem ressentida.
Elora rangeu os dentes.
— Com a sua posição, descer ao ponto de me ameaçar com coisas do passado... É claro que eu não ousaria guardar ressentimento do senhor. Mas não consigo achar que a opinião pública esteja errada. Dizem que o senhor é um cavalheiro, mas isso é bem questionável.
— E por que eu me importaria com o que você pensa? — retrucou Sebastian, o olhar firme.
Estava claro que ele não a considerava digna da sua atenção.
— Você só precisa saber de uma coisa: ações deixam rastros. Só quem tem a consciência limpa não precisa temer que o passado venha cobrar a conta.
Dito isso, ele se levantou e foi embora, deixando o chá intocado sobre a mesa.
Era algo abaixo dele. Estar na presença de gente de caráter duvidoso, ele sentia, poluía até o ar.
Enquanto caminhava pelo corredor, ouviu o som de porcelana se quebrando dentro da sala reservada.
Os lábios de Sebastian se curvaram num leve sorriso.
— O gosto do Leopold certamente piorou.
No caminho de volta, Noah não conseguia entender.
— Sr. York, o senhor não precisava ter ido pessoalmente.
Uma mulher como Elora não era digna da atenção direta de Sebastian.
Sebastian apoiou o queixo na mão, os olhos estreitos cheios de divertimento.
— Eu só estava curioso para saber que tipo de mulher deixou o Leopold tão encantado a ponto de querer se casar com ela. No fim, não tem nada de especial. São perfeitos um para o outro.
O carro parou na entrada do hospital e Lisbeth entrou. Ela permaneceu em silêncio, e o carro mergulhou numa quietude constrangedora.
Sebastian foi o primeiro a quebrá-la.
— Não tem nada que você queira perguntar?
As mãos de Lisbeth se apertaram de leve sobre os joelhos.
— Não.
Ela repetia para si mesma que o fato de Sebastian estar disposto a ajudar alguém com a reputação manchada como a dela já era mais do que suficiente.
Ela não tinha o direito de questioná‑lo, mesmo que houvesse algo entre ele e Elora. Aquilo dizia respeito somente a ele.
Com esse pensamento, ela se sentiu um pouco melhor.
De repente, uma mão pousou sobre a sua cabeça. Ela ficou imóvel.
A voz profunda de Sebastian veio com um toque de resignação.
— Desde quando você ficou tão medrosa? — Ele fez uma pausa. — Se quiser perguntar alguma coisa, pergunte. O que você quiser saber, eu te conto — mas você precisa perguntar primeiro.
— Eu quero saber por que eu ouvi a voz da Elora no seu telefone. — Lisbeth se deu conta de que tinha falado em voz alta antes que pudesse se deter.
Mas ela não se arrependeu. Ela se importava, sim. Não era ciúme — Sebastian era a tábua de salvação de Dennis. Se Elora tivesse dado um jeito de colocá‑lo contra ela também... Lisbeth não suportava nem imaginar o que poderia acontecer depois disso.
Sebastian respondeu com calma:
— Eu não prometi que ia te ajudar a conseguir justiça?
Lisbeth se sobressaltou.
— Me ajudar?
Sebastian a observou.
Lisbeth continuava bonita, mas as cicatrizes em seu rosto pareciam cortes de faca na porcelana, fazendo metade de sua face parecer um tanto assustadora.
A outra metade permanecia angelical como sempre — afinal, desde a estreia ela era conhecida como o “anjinho”.
— Por que você está me olhando desse jeito? — Lisbeth virou instintivamente o rosto, escondendo as cicatrizes na bochecha direita.
Ela realmente já estava acostumada àquilo. Mas, naquele momento, sentiu uma inferioridade inexplicável, como se as cicatrizes estivessem maculando o olhar de Sebastian.
— Amanhã, se arrume bem — disse Sebastian. — Quero que você veja cada um deles engolir tudo o que disse.
Lisbeth não entendeu.
Mas, na manhã seguinte, Noah apareceu com uma roupa nova e uma maquiadora — uma mestre renomada, que Lisbeth jamais teria condições de contratar.
— Srta. Whitaker, você é linda. Não precisa se sentir insegura. Deixe por minha conta — disse a maquiadora, sorrindo. Ela tinha mãos mágicas, capazes de transformar qualquer coisa.
Quando terminou, Lisbeth ficou espantada com a mulher no espelho. Aquela era mesmo ela?
Ao saírem, ela não conteve a pergunta:
— Afinal, para onde exatamente a gente está indo?
Sebastian respondeu de forma simples:
— Para uma coletiva de imprensa.
