Capítulo 6
— Nada de choro. Isso também vai passar — Lisbeth riu por entre as lágrimas.
Ela aprendera essa verdade do jeito mais difícil: por mais amargo, doloroso ou difícil que fosse, o tempo acabava apagando tudo.
Até as feridas mais profundas viravam cicatrizes insignificantes que, um dia, não doeriam mais ao serem tocadas.
A assistente não conseguiu segurar o choro por mais tempo.
— Senhora Whitaker… a senhora não precisa ser tão forte. Eu odeio ver a senhora assim. Parte o meu coração.
— Se você perdesse algo que já foi muito precioso pra você, ficaria triste? — Lisbeth perguntou baixinho.
— Com certeza! — A assistente enxugou os olhos. — Eu ia chorar até não poder mais.
Lisbeth soltou uma risada vazia e enxugou os últimos resquícios de umidade do rosto.
— Mas a vida continua. Não é o fim do mundo, né?
A assistente se calou. Era verdade.
A Terra continua girando, o sol continua nascendo. No fim das contas, quão importante podia ser a dor de coração de uma única pessoa?
— Vamos lá, chega de choro — disse Lisbeth e, num instante, as lágrimas sumiram, dando lugar a um sorriso suave.
Só os olhos levemente avermelhados entregavam o que tinha acontecido.
— Ainda bem que o senhor York não estava aqui. Ia ser constrangedor pras duas, chorando desse jeito. — Ela suspirou. — Hoje era pra ser o dia em que eu faria eles engolirem o que disseram.
Ela se preocupava que Sebastian ficasse decepcionado com ela. Não se sentia vitoriosa — só triste.
A assistente fungou.
— Ele não ia ficar, não. O senhor York é um homem bom. Nunca iria zombar da senhora.
Lisbeth tinha aguentado tanta coisa — humilhação pública, ser abandonada por aquele canalha do Leopold, o peso das contas do hospital do filho e ainda perder trabalhos como atriz por causa das cicatrizes.
A assistente chegou a se perguntar se Lisbeth conseguiria pagar o salário dela.
Ainda bem que Sebastian tinha aparecido na hora em que apareceu.
No hospital, Elora não tinha saído do lado de Leopold desde que ele desmaiara.
Quando o médico se aproximou, ela perguntou, aflita:
— Como ele está? Ele vai ficar bem? Vai se lembrar do passado?
— Não se preocupe, ele vai ficar bem. Quanto à memória… é pouco provável.
Elora soltou um suspiro de alívio.
— Que ótima notícia, doutor, muito obrigada.
O médico saiu, ainda intrigado — será que ela realmente queria que o companheiro recuperasse a memória?
Leopold dormiu até o começo da noite. Quando finalmente acordou, ficou encarando o teto, com um olhar vazio, como se estivesse em transe.
Elora o observava, ansiosa.
— Leopold, o que foi?
Será que a memória dele tinha voltado?
Leopold virou a cabeça devagar para olhar pra ela.
— Quem é você?
Quando Sebastian voltou para a mansão, encontrou Ava suspirando fundo.
— O que está te preocupando? — ele perguntou.
Ava lançou um olhar para o andar de cima.
— A senhora Whitaker não desceu desde que voltou. Tá lá em cima até agora, nem jantou… Fico pensando se alguém magoou ela.
Ela não acompanhava redes sociais e não sabia nada do escândalo online. Só sabia que Lisbeth tinha saído de casa linda e voltado com o rosto de quem estivera chorando.
Sebastian ficou em silêncio por um momento.
— Prepara alguma coisa leve pra ela comer. Eu vou chamá-la.
Ele subiu as escadas e bateu na porta do quarto.
— Lisbeth, o jantar tá pronto.
Depois de uma longa e tensa espera — longa o bastante pra ele considerar abrir a porta por conta própria —, ouviu o som suave de chinelos arrastando pelo chão. A porta se abriu.
Lisbeth estava ali, sem maquiagem, usando roupas confortáveis de ficar em casa.
— Desculpa, acabei dormindo — disse ela.
— Você estava chorando.
Sebastian percebeu que a voz dela estava claramente anasalada.
— É alergia.
Embora soubesse que era desculpa, Sebastian não insistiu.
— A Ava disse que você não comeu nada. Ela tá preocupada.
— Eu só estava exausta — Lisbeth respondeu, com um sorriso meio sem graça. — Já vou descer.
Ela estava prestes a sair quando se deu conta de como estava desarrumada. Com outro sorriso envergonhado, voltou para se trocar antes de descer as escadas.
Quando se sentou à mesa, ela notou dois ovos cozidos à sua frente. Quando estendeu a mão para pegar um e comer, Sebastian a interrompeu.
— Esses não são pra comer.
— Não?
— São pros seus olhos.
Lisbeth finalmente entendeu. Quis dizer alguma coisa, mas não encontrou as palavras.
Ela abaixou a cabeça e apertou os ovos em silêncio contra os olhos inchados.
Sebastian suspirou por dentro. Os olhos dela estavam tão inchados, e ainda assim ela dizia que não tinha chorado.
Ele empurrou uma tigela de mingau na direção dela. — Acabei de sair do hospital. O Dennis acordou.
Lisbeth largou os ovos, mas, depois de um olhar significativo de Sebastian, voltou a usá‑los.
— Vou pro hospital agora mesmo. Ando tão ocupada esses dias que não tenho passado tempo suficiente com o Dennis... — Ela se sentia um fracasso como mãe.
Sebastian assentiu. — Eu te levo. — Agora, mais do que tudo, ela precisava da companhia do filho.
Depois do jantar, Sebastian levou Lisbeth pessoalmente ao hospital. Dennis estava deitado no leito, visivelmente entediado e fraco demais para fazer qualquer coisa além de descansar.
Ao ver a mãe, o rostinho dele se iluminou. — Mamãe.
Lisbeth acariciou de leve o rostinho pequeno de Dennis. — A mamãe veio te ver. Eu vou passar a noite com você hoje.
Com três anos de idade, Dennis não entendia muita coisa do mundo. Mas isso ele entendeu. — Oba, mamãe fica.
O coração de Lisbeth derreteu completamente.
Sebastian já esperava por isso. — Eu providenciei a transferência do Dennis pra um quarto especial. Tem uma cama extra pra você.
— Obrigada. — Lisbeth não sabia como agradecer de verdade.
Sebastian falou com delicadeza: — Se você quer mesmo me agradecer, descansa. Não quero que a minha mãe ache que eu andei maltratando você quando conhecer você.
Lisbeth endireitou a postura na hora. — Vou dar um jeito de ficar apresentável o mais rápido possível.
Sebastian riu baixinho e virou o rosto — só para dar de cara com o olhar curioso de Dennis. O menino o examinava dos pés à cabeça, como se quisesse descobrir alguma coisa.
O quarto ficou tão silencioso que dava pra ouvir a respiração de cada um.
— Papai.
Aquela palavra caiu como uma pedra, estilhaçando o silêncio.
Sebastian congelou, o sorriso sumindo do rosto.
Com medo de que ele ficasse chateado, Lisbeth se apressou em explicar ao filho: — Dennis, ele não é seu papai. Você não pode chamar ele assim.
— Quem disse que eu não sou?
Lisbeth encarou Sebastian, chocada. Será que ele tinha noção do peso daquelas palavras? Se a verdade viesse à tona depois, aquilo pareceria uma mentira pro menino. Ela não fazia ideia de como explicar isso.
Mas Sebastian continuou: — Não esquece do nosso relacionamento atual. Você é minha esposa, o que faz do seu filho o meu filho, não faz?
Lisbeth ficou sem palavras.
Ela o observou se sentar ao lado da cama e perguntar ao curioso Dennis:
— O papai é bonito?
Lisbeth quase caiu de tanto espanto.
Dennis assentiu. — É.
Provavelmente ele nem sabia o que “bonito” queria dizer. Desde que nasceu, ele era doentinho e, embora Lisbeth sentisse por ele tanto culpa quanto amor, nunca tinha forçado demais o menino.
Ela sempre quis que o filho fosse o mais feliz possível.
Sebastian sorriu. — Continua olhando bem pra mim, tá? Um dia você vai ser tão bonito quanto eu.
Dennis piscou e, mesmo sem entender o que “bonito” significava, instintivamente percebeu que era algo bom, então ficou olhando ainda mais atento.
Sebastian não conteve o riso. Cobriu delicadamente os olhos de Dennis com a mão. — Se você encarar assim, seus olhos vão cansar. Vai com calma — a gente ainda tem muito tempo pela frente.
Lisbeth observava os dois em silêncio.
Desde que Dennis nasceu, Leopold nunca tinha pegado o filho no colo. Agora que Dennis finalmente tinha acordado, Leopold nem sequer vinha vê‑lo.
Dennis ainda não sabia que o pai estava envolvido num caso ardente com outra mulher.
Ela balançou a cabeça, tentando espantar aqueles pensamentos, e, ao se virar, viu Leopold parado na porta, com Elora logo atrás dele.
