Capítulo 1 CAPÍTULO 1
AURORA
Nova Iorque nunca dormia.
Eu costumava achar isso bonito.
As luzes acesas nos prédios, os táxis cortando as ruas molhadas pela chuva, as pessoas caminhando depressa como se sempre estivessem atrasadas para alguma coisa. Havia uma energia naquela cidade que me fazia acreditar que qualquer coisa podia acontecer.
Naquela noite, porém, eu desejava que absolutamente nada acontecesse.
Fechei a porta da pequena livraria onde trabalhava e puxei meu casaco para mais perto do corpo. O vento frio de Manhattan fez meus cabelos castanhos voarem diante do rosto.
Olhei para o relógio.
Quase dez da noite.
Meu pai deveria estar dormindo àquela hora.
Ou, pelo menos, era isso que eu esperava.
Peguei o metrô e passei todo o caminho olhando para o reflexo escuro da janela. Minha vida não era perfeita, mas também não era complicada. Eu estudava Literatura durante o dia, trabalhava à tarde e à noite e tentava ignorar o fato de que meu pai parecia cada vez mais distante.
Richard Bennett nunca tinha sido um homem carinhoso.
Depois da morte da minha mãe, ele simplesmente parecia ter esquecido como conversar comigo. Ainda assim, era meu pai e eu acreditava que, apesar de todos os nossos problemas, existia uma linha que ele jamais cruzaria.
Eu estava errada.
Quando cheguei ao nosso apartamento, percebi imediatamente que havia alguma coisa estranha.
A luz da sala estava acesa. Meu pai nunca deixava luzes acesas.
Empurrei a porta devagar.
— Pai?
Nenhuma resposta.
Fechei a porta atrás de mim.
O apartamento parecia silencioso demais.
Então ouvi vozes de homens.
Meu coração desacelerou por um segundo. Depois voltou a bater rápido demais.
Deixei minha bolsa sobre a pequena mesa da entrada e caminhei em direção à sala.
— Eu já disse que vou conseguir o dinheiro.
A voz do meu pai estava diferente. Baixa. Nervosa.
Parei antes de entrar.
— O senhor disse isso há três meses.
A segunda voz era masculina. Fria e desconhecida.
— Eu só preciso de mais tempo.
— Tempo é uma coisa muito cara, senhor Bennett.
Senti um arrepio percorrer meus braços.
Meu pai devia dinheiro.
A conclusão veio rápida, mas eu me recusei a acreditar nela.
Talvez fosse um empréstimo. Talvez algum investimento. Talvez qualquer coisa que não envolvesse homens desconhecidos dentro da minha casa no meio da noite.
Me aproximei mais.
— Eu posso vender o apartamento.
— Não é suficiente.
— Tenho outros bens.
— Também não são suficientes.
Ouvi o som de alguma coisa sendo colocada sobre a mesa.
Papel... documentos.
— Sua dívida aumentou consideravelmente.
— Eu sei.
A voz do meu pai saiu quase como um sussurro.
Foi naquele momento que percebi algo que nunca tinha visto nele.
Medo.
Meu pai estava com medo. E Richard Bennett não era um homem que demonstrava medo facilmente.
Dei mais um passo. O assoalho rangeu. As vozes pararam.
Droga!
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
— Aurora?
Meu pai chamou meu nome.
Fechei os olhos por um segundo.
Respirei fundo.
E entrei na sala.
Dois homens estavam sentados no sofá.
Meu pai estava de pé perto da janela.
Mas não foi nenhum deles que chamou minha atenção.
Foi o terceiro homem.
Ele estava sentado em uma poltrona próxima à janela, parcialmente escondido pela sombra.
Usava um terno preto impecável.
Uma das pernas cruzada sobre a outra.
Um relógio caro brilhava discretamente em seu pulso.
Ele não parecia nervoso.
Não parecia irritado.
Parecia apenas... entediado.
Como se estivesse esperando o final de uma reunião desnecessariamente longa.
Então seus olhos encontraram os meus.
E alguma coisa dentro de mim mudou.
Eu não sabia quem ele era.
Mas soube imediatamente que deveria manter distância.
Seus olhos eram escuros.
Quase negros.
Não havia curiosidade em seu olhar.
Nem surpresa.
Era como se ele já soubesse exatamente quem eu era.
— Aurora. — Meu pai repetiu.
Olhei para ele.
— Quem são essas pessoas?
— Estamos resolvendo um assunto.
— Às dez da noite?
— Vá para o seu quarto.
Franzi a testa.
Meu pai nunca falava comigo naquele tom.
— Você está bem?
— Eu disse para ir para o quarto.
Antes que eu pudesse responder, o homem na poltrona finalmente falou.
— Não seja grosseiro com sua filha, senhor Bennett.
A voz dele era baixa e dontrolada, mas havia algo nela que fez meu estômago se contrair.
Meu pai ficou em silêncio.
O homem voltou os olhos para mim.
— Aurora Bennett.
Não era uma pergunta.
— Sim.
— Finalmente nos conhecemos.
Meu coração acelerou.
Olhei para meu pai.
— Ele sabe quem eu sou?
— Aurora...
— Quem é você?
O homem se levantou.
E, pela primeira vez, percebi o quanto ele era alto.
Provavelmente tinha mais de um metro e noventa. Seu corpo parecia forte sob o terno perfeitamente ajustado, mas não era isso que o tornava intimidador.
Era a maneira como ele ocupava o espaço.
Como se qualquer lugar onde estivesse automaticamente passasse a pertencer a ele.
Ele se aproximou.
Um passo.
Depois outro.
Eu deveria ter recuado, mas não recuei. Talvez por orgulho ou talvez porque não queria demonstrar medo.
Ele parou diante de mim. Perto demais.
— Vincent Scott.
O nome caiu sobre mim como uma pedra.
Eu conhecia aquele nome.
Todo mundo em Nova Iorque conhecia Vincent Scott.
CEO da Scott's Enterprises. Bilionário. Uma das pessoas mais poderosas da cidade.
Já tinha visto seu rosto em revistas, jornais e sites de notícias. Mas as fotografias não conseguiam transmitir o que era estar diante dele.
Nas fotos, Vincent parecia apenas um homem bonito e extremamente rico. Ali, diante de mim, parecia perigoso.
