Capítulo 3 CAPÍTULO 3
VINCENT
Aurora tinha os olhos da cor de uma tempestade. Foi a primeira coisa que percebi quando ela entrou naquela sala. Não o vestido simples. Não os cabelos bagunçados pelo vento de Nova Iorque. Não a expressão irritada ao encontrar homens desconhecidos dentro de sua casa. Foram os olhos. Grandes demais para esconder o que sentia. E naquele momento, havia medo neles.
Eu não gostava de medo, pelo menos era isso que costumava dizer a mim mesmo.
— Bem-vinda ao acordo, Aurora.
As palavras saíram calmas, precisas. Mas tiveram o efeito que eu esperava.
Ela ficou imóvel.
Richard Bennett finalmente levantou os olhos para a filha.
— Não é como parece.
Aurora virou-se lentamente para ele.
— Então me explica como parece.
Nenhuma resposta.
Ela soltou uma risada curta e sem humor.
— Claro.
Cruzei os braços diante do peito e observei a cena em silêncio.
Richard era um homem fraco. Sempre foi.
Homens como ele costumavam cometer o mesmo erro: acreditavam que dinheiro podia comprar tempo.
Não podia. Dinheiro comprava muitas coisas. Casas. Carros. Poder. Pessoas. Mas nunca tempo. E Richard tinha desperdiçado todos os anos que teve.
Agora estava diante de mim com uma dívida de vinte milhões de dólares e nada que realmente pudesse oferecer.
Nada. Exceto a filha.
— O que significa esse acordo? — Aurora perguntou.
Seu olhar estava novamente em mim.
Direto.D esafiador e interessante.
— Significa que seu pai e eu chegamos a um entendimento.
— Eu não perguntei sobre você e meu pai.
Um dos meus homens, sentado no sofá, prendeu uma risada.
Lancei apenas um olhar em sua direção e o som morreu imediatamente.
Aurora percebeu.
Percebeu como todos naquela sala reagiam quando eu fazia alguma coisa tão simples quanto olhar.
Ela engoliu em seco, mas não desviou os olhos.
Corajosa, ou imprudente.
Ainda não tinha decidido.
— Você vai morar comigo. — Respondi.
O silêncio tomou conta da sala.
Aurora piscou uma vez. Depois outra.
— Desculpa?
— Você ouviu.
— Acho que não.
— Vai morar na minha casa em Manhattan durante doze meses.
Ela me encarou como se eu tivesse acabado de dizer algo absurdo. Talvez tivesse, mas absurdos eram apenas acordos que as pessoas ainda não tinham sido obrigadas a aceitar.
— Não.
Foi simples e direto. Quase engraçado.
Richard fechou os olhos.
— Aurora...
— Eu disse não!
— Você não entende a situação.
Ela se virou para ele.
— Então me explica!
Sua voz aumentou.
Pela primeira vez, algo semelhante à emoção apareceu em seu rosto.
Raiva.
Dor.
Traição.
Eu conhecia bem aquela expressão. Já a tinha visto muitas vezes. Pessoas descobrindo que alguém em quem confiavam não era quem imaginavam. Era sempre fascinante observar o momento exato em que uma ilusão morria.
— Eu não posso pagar. — Richard disse.
— E isso significa que eu tenho que morar com um estranho?
— Não é apenas morar. — Ele respondeu.
O silêncio voltou.
Aurora ficou pálida.
Muito lentamente, ela olhou para os documentos sobre a mesa. Depois para mim.
— O que exatamente está nesse contrato?
Caminhei até a mesa. Peguei os papéis.
Aurora acompanhou cada movimento.
— Uma transferência temporária de responsabilidade financeira.
Ela franziu a testa.
— Fala como um ser humano.
Um sorriso quase apareceu em meus lábios.
Quase.
— Durante doze meses, você estará sob minha proteção e responsabilidade.
— Proteção?
— Sim.
— Eu não pedi proteção.
— Não importa.
Seus olhos se estreitaram.
Ali estava novamente aquela coragem. Aquela pequena chama.
A maioria das pessoas ficava nervosa diante de mim.
Ela parecia ficar irritada.
— Nada disso faz sentido.
— Não precisa fazer sentido para você.
— Ah, precisa sim. Porque aparentemente eu sou a pessoa que está sendo negociada.
Richard se aproximou.
— Aurora, por favor.
Ela se afastou dele.
— Não encosta em mim.
A frase saiu baixa.
Mas atingiu o pai como um golpe.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Observei Aurora.
Ela tentava manter a postura, mas suas mãos tremiam quase imperceptivelmente.
Ela não queria que ninguém percebesse.
Eu percebi. Sempre percebia detalhes. Era parte do motivo pelo qual construí tudo o que possuía.
As pessoas acreditavam que poder vinha apenas do dinheiro. Estavam erradas.
Poder vinha da capacidade de enxergar aquilo que os outros tentavam esconder.
— Você não pode fazer isso. — Ela disse para Richard.
Ele baixou a cabeça.
— Eu não tive escolha.
— Sempre existe uma escolha.
— Você não entende.
— Então me faz entender!
A voz dela ecoou pelo apartamento.
Richard respirou fundo.
— Se eu não pagar essa dívida, outras pessoas virão atrás de mim.
