Capítulo 4 CAPÍTULO 4
VINCENT
Aquilo chamou minha atenção.
Outras pessoas. Então ele ainda escondia coisas.
Interessante.
Aurora ficou em silêncio.
— Quem?
Richard não respondeu.
— Pai, quem são essas pessoas?
— Não importa.
— Para de dizer isso!
Ela caminhou até ele.
— Minha vida inteira você fez isso. Sempre dizia que tudo estava sob controle. Que não precisava me preocupar. E agora eu descubro que você deve vinte milhões de dólares e quer me entregar para um homem que eu nunca vi na vida?
Richard segurou o braço dela.
Aurora se afastou imediatamente.
— Não toca em mim.
O silêncio que se seguiu foi diferente.
Mais perigoso.
Observei a marca vermelha que começava a surgir em seu braço.
Richard também percebeu. Mas não pediu desculpas.
Outro erro.
— Você vai comigo. — Eu disse.
Aurora virou-se para mim.
— Eu não vou!
— Vai.
— Não sou sua propriedade.
A frase ficou suspensa entre nós.
Aproximei-me devagar.
Ela não recuou.
Mas sua respiração mudou.Uma pequena alteração.
— Ainda não. — Respondi.
Os olhos dela se arregalaram.
— O quê?
— Você ouviu.
— Você é doente.
Talvez.
Não respondi.
Passei por ela e peguei meu casaco.
Já tinha perdido tempo suficiente naquela noite.
Richard tinha assinado. Os documentos estavam finalizados, e Aurora Bennett fazia oficialmente parte do acordo. Não porque eu precisasse dela. Dinheiro não era um problema. Nunca foi. Vinte milhões eram irrelevantes para mim. Eu poderia ter esquecido aquela dívida. Poderia ter destruído Richard financeiramente. Poderia ter tomado tudo o que possuía.
Mas então ouvi falar da filha, Aurora.
Vinte e dois anos. Estudante. Trabalhava em uma livraria. Nunca tinha se envolvido com os negócios do pai. E, segundo as informações que chegaram até mim, ainda acreditava que seu pai era um homem honesto.
Foi isso que me interessou.
A inocência.
Não no sentido infantil. Eu não tinha interesse em mulheres frágeis.
O que me interessava era observar o que acontecia quando alguém descobria que o mundo não era aquilo que imaginava.
E Aurora estava prestes a descobrir.
— Eu não vou com você.
Sua voz interrompeu meus pensamentos.
Olhei para ela.
— Você tem duas opções.
— Não. Eu tenho mais do que duas.
— Não tem.
Ela deu uma risada nervosa.
— Você realmente acredita que pode aparecer na minha casa e decidir o que eu vou fazer?
— Sim.
— Então você é ainda mais arrogante do que parece.
— Isso não foi uma pergunta.
Aurora caminhou até a mesa e pegou os documentos.
Começou a folheá-los. Seus olhos percorriam rapidamente as páginas.
— Isso não tem minha assinatura.
— Não precisa.
Ela levantou os olhos.
— Claro que precisa.
— Seu pai assinou.
— Meu pai não pode assinar minha vida.
Dessa vez, eu sorri. Um sorriso pequeno e lento. Porque, pela primeira vez naquela noite, Aurora disse algo que realmente despertou minha curiosidade.
Meu pai não pode assinar minha vida.
Ela estava certa.
Richard não podia. Ninguém podia. E talvez fosse exatamente isso que tornava Aurora diferente de todas as pessoas que eu conhecia. Ela ainda acreditava que tinha controle.
— Você não vai me obrigar.
— Não.
Ela pareceu surpresa.
— Não?
— Eu não preciso obrigar você.
— Então por que eu iria?
Inclinei a cabeça.
— Porque, se ficar aqui, seu pai continuará devendo a pessoas muito piores do que eu.
Aurora ficou em silêncio.
Seu rosto perdeu a cor.
Ela olhou para Richard e então algo mudou.
Ela entendeu, não completamente. Ainda não. Mas entendeu que aquela dívida escondia algo maior. Algo que seu pai não queria contar.
— Quem são essas pessoas? — Ela perguntou novamente.
Richard permaneceu calado.
— Pai?
Nada.
Aurora fechou os olhos, respirou profundamente. Quando voltou a me encarar, havia lágrimas em seus olhos, mas nenhuma caiu.
— Se eu for com você...
Richard levantou a cabeça.
— Aurora, não.
— Se eu for... — Ela repetiu, ignorando-o. — A dívida será apagada?
— A minha, sim.
Ela percebeu a escolha das palavras.
Boa garota.
— A sua?
— Richard possui outros problemas.
— Mas você não vai atrás dele.
— Isso depende dele.
Ela apertou os documentos contra o peito.
Por alguns segundos, pensei que fosse aceitar. Então Aurora fez algo inesperado.
Rasgou o contrato. O som do papel se partindo preencheu a sala.
Meus homens ficaram tensos.
Richard ficou imóvel.
Aurora deixou os pedaços caírem no chão.
E me encarou.
— Vá para o inferno!
Por um segundo, ninguém se moveu.
Depois caminhei lentamente até ela. Aurora levantou o queixo tentando parecer forte. Mas eu conseguia sentir sua pulsação acelerada.
— Terminamos por hoje. — Falei.
Richard soltou o ar.
Aurora pareceu confusa.
Peguei meu casaco.
— O que isso significa? — Ela perguntou.
Olhei para ela uma última vez.
— Significa que você tem até amanhã para decidir.
— E se eu disser não?
Parei diante da porta.
— Então descobrirá quanto custa a liberdade, senhorita Bennett.
Saí do apartamento sem esperar resposta.
Meus homens vieram atrás.
No corredor silencioso, ouvi a voz de Aurora discutindo com o pai. Não consegui entender as palavras, mas ouvi o choro.
Parei por um instante. Meu segurança, Marcus, percebeu.
— Senhor Scott? O carro está esperando.
Continuei caminhando.
Entrei no elevador. As portas começaram a se fechar. Por uma fração de segundo, pensei nela. Nos olhos. Na raiva. No contrato rasgado.
Sorri sozinho.
Aurora acreditava que tinha vencido aquela pequena batalha.
Ela não fazia ideia de que eu nunca perdia.
