Capítulo 2 Um emcontro inesperado
Narrado por Amélia Peterson
— O conde de Winchester está de volta a Londres, depois de muitos anos viajando pelo mundo. Herdeiro de uma vasta fortuna, o solteiro mais cobiçado está à procura de uma esposa. A sociedade certamente deseja saber quem será a felizarda.
— O conde está mesmo de volta a Londres! Está vendo, querida? Escolha seu melhor vestido, pois temos o baile de lady Arbache para irmos — diz mamãe, olhando em minha direção com os olhos castanho-claros brilhando de entusiasmo.
— Sim, mamãe! — respondo calmamente, já sabendo o motivo daquele brilho em seus olhos.
— Seu irmão não poderá nos acompanhar, pois precisou fazer uma viagem. Portanto, esteja pronta às sete em ponto. Sugiro que use o vestido verde com as luvas brancas. Você ficará divina, minha filha. — Ela acaricia meu rosto. — Você é linda, querida. Muitos cavalheiros ficariam honrados em tê-la como esposa.
— Já lhe disse, mamãe: não tenho a mínima intenção de me casar. Simplesmente não pretendo fazê-lo. Valorizo demais minha liberdade para me unir a alguém que provavelmente me tratará como propriedade.
Respondo pacientemente. Sempre tive mais liberdade do que as demais moças solteiras, talvez por causa dos meus vinte e dois anos e do título de solteirona que a sociedade parecia já ter me concedido. Meu irmão, o visconde de Windsor, e minha mãe sempre foram muito amáveis, permitindo que eu saísse sozinha e comprasse o que desejasse. Para isso, meu irmão me proporcionava uma boa mesada.
Nos últimos tempos, porém, tanto ele quanto minha mãe pareciam determinados a arranjar um casamento para mim. Eu já havia rejeitado vários pretendentes e, naquele momento, os possíveis interessados pareciam ter feito uma pausa, dando-me a oportunidade de planejar cuidadosamente minha próxima estratégia.
Levanto-me do assento e caminho até o grande espelho na parede oposta. Paro diante dele e admiro meu reflexo.
Sou baixinha, tenho olhos cor de mel, herdados de meu pai, e uma cabeleira castanha como a de minha mãe. Talvez minhas características não estivessem de acordo com os padrões de beleza da época. Sou cheinha, tenho seios fartos, quadris largos e a pele levemente bronzeada.
Alguns poderiam até me considerar atraente, mas dificilmente uma beldade. Afinal, a moda ditava que as jovens altas, esbeltas, loiras, de olhos azuis e pele muito clara representavam a verdadeira beleza inglesa.
Depois de uma análise sincera, concluo que não me encaixo nesses padrões.
— Está vendo, querida? Você é bonita o suficiente para fisgar um conde! — comenta mamãe, juntando-se a mim diante do espelho.
— Mamãe!
— Você precisa se casar, querida! Uma mulher precisa da proteção de um homem. Seu irmão um dia se casará e construirá a própria família. Você não poderá viver ao lado dele para sempre. Precisa conhecer alguém e se casar com um bom partido.
— Se preciso de um homem, tenho Stefan!
— Como já disse, seu irmão se casará e construirá a própria família. Não poderá viver com você pelo resto da vida. Precisa conhecer alguém e se casar logo. Na sua idade, eu já estava casada havia muito tempo e era mãe de Stefan e de você! Portanto, mocinha, está na hora de assumir suas responsabilidades como mulher — declara mamãe, muito séria. — Conversarei com seu irmão quando ele voltar. Você não rejeitará mais nenhum pretendente.
— Mas, mamãe, eu...
— Nada de mas, Amélia! Já estamos cansados de suas tolices.
Às sete em ponto, estou pronta. O vestido verde de seda realmente me deixa bonita, embora o decote um tanto profundo me incomode, pois deixa meus seios mais à mostra do que eu gostaria.
Calço as luvas e desço as escadas. Mamãe me espera usando um elegante vestido roxo.
Ao vê-la, lembro-me de seu aviso: meu irmão chegará em três dias. Isso me deixa com pouco tempo para pensar em algo infalível.
Sei que lorde Elliott ainda mantém sua proposta de casamento. Se não agir depressa, logo estarei casada com um homem até que atraente, mas cuja falta de pudor me causa repulsa.
Como me livrarei dessa emboscada?
Estou mais do que disposta a fazer um acordo, se isso significar preservar minha liberdade.
Assim, sigo mamãe em direção à carruagem, enquanto minha mente trabalha rapidamente. Preciso de um plano infalível que me livre, de uma vez por todas, das investidas casamenteiras de minha família.
Narrado por John Howard
O salão de lady Arbache está lotado, e este é o primeiro baile a que compareço desde minha chegada a Londres, há dois dias.
Com uma taça de champanhe na mão, deixo meu olhar percorrer a multidão. Parece que estou à procura de algo ou alguém, embora nem mesmo eu saiba exatamente o que espero encontrar.
Então, uma risada alta às minhas costas chama minha atenção.
Viro-me na direção do som, curioso para descobrir quem é a dona de uma risada tão ousada, e deparo com uma jovem que conversa animadamente em meio a um grupo de pessoas.
Ela volta a sorrir, e seus lábios rosados se curvam de maneira sedutora.
É pequena, tem os cabelos castanhos presos no alto da cabeça em um penteado elegante, deixando alguns cachos longos caírem sobre a nuca. Seus seios fartos parecem ainda mais evidentes no ousado vestido verde, enquanto sua cintura bem definida sugere curvas generosas sob as inúmeras camadas da saia.
Ela se destaca entre as outras mulheres ao redor. Nunca vi alguém com curvas tão diferentes das silhuetas que costumam dominar os salões londrinos.
O marquês Cole Ryland, que está ao meu lado, cutuca-me com o cotovelo.
— Linda, não é? — pergunta ele, tomando um gole de sua bebida.
— É interessante. Muito interessante! — respondo, voltando meu olhar para a mulher de verde. — Como se chama?
— Qual das duas? A loira de olhar tímido ou a exótica de curvas insinuantes?
— A de verde!
— Ela é Amélia Peterson, irmã do visconde de Windsor. A solteirona mais bonita da temporada. Dizem que se recusa a casar e rejeita todos os pretendentes. E olha que já foram vários! O último foi lorde Elliott, que também teve seu pedido recusado. Ela simplesmente não quer se casar, e ninguém sabe o motivo.
A informação desperta ainda mais minha curiosidade.
Uma mulher que não está desesperada para conseguir um marido? Que rejeita pretendentes sem se preocupar com os comentários da sociedade? Eis alguém bastante diferente das jovens que costumam disputar a atenção dos solteiros mais cobiçados de Londres.
Amélia Peterson parece ser a candidata perfeita para meu plano.
Se eu conseguir convencê-la a aceitar meu acordo, ambos sairemos ganhando. Eu terei uma esposa, satisfarei as expectativas de minha mãe e poderei garantir um herdeiro para o título. Ela, por sua vez, poderá desfrutar das vantagens de um casamento sem precisar se preocupar com as exigências de um marido apaixonado.
Pelo menos, é o que imagino.
Enquanto observo a jovem, minha mente trabalha rapidamente, tentando encontrar uma maneira de me aproximar dela.
Mas como fazê-lo sem parecer inconveniente?
Se Ryland sabe quem ela é, certamente a conhece o suficiente para nos apresentar.
Olho para meu amigo e esboço um sorriso.
Talvez aquela noite esteja prestes a ficar muito mais interessante do que eu esperava.
