Capítulo 5 Uma carta misteriosa

Narrado por Amélia Peterson

Nunca antes eu havia chegado a esse ponto. Tudo acontecera tão depressa que, agora, deitada em minha cama, eu não conseguia esquecer o beijo que compartilhara com o conde sobre a grama do jardim.

Pelos meus cálculos, já fazia bastante tempo que eu tentava me controlar para não voltar a pensar nele. Porém, quanto mais me esforçava para fechar os olhos e dormir, mais ele se fazia presente em meus pensamentos.

Naquela mesma noite, logo depois que voltei ao salão de festas, Megan comentou, desconfiada, sobre meu rosto afogueado, como ela mesma disse. Não lhe contei nada.

Para piorar a situação, fui apresentada a lady Howard, que não parava de falar sobre o filho nem por um instante. Pouco depois, ele se juntou à mãe e, pela segunda vez, convidou-me para dançar diante de todos, sabendo que eu não teria como recusar.

Vi mamãe e lady Howard trocarem sorrisos cúmplices quando saímos de mãos dadas em direção ao centro do salão.

Colocando uma das mãos em minha cintura, ele colou o corpo ao meu mais do que o necessário, fazendo com que os mais velhos presentes considerassem escandalosa aquela proximidade.

A música começou e, assim que demos o primeiro passo, fiz questão de acabar com seu sorrisinho convencido, pisando em seu pé.

Ele sorriu ainda mais e voltou a me provocar, dessa vez falando ao meu ouvido:

— Recolha suas garras, gatinha! Não estou fazendo nada demais, a não ser dançar com a bela dama. Não concorda? — perguntou.

Afastei o olhar de seu rosto, que agora estava sério. Achei aquilo estranho, pois, desde o momento em que nos conhecemos, eu já não o suportava por causa de suas provocações.

Dançamos até o fim da música, e, durante todo aquele tempo, ele agiu quase como um verdadeiro cavalheiro. Ainda assim, em nenhum momento afastou nossos corpos, que permaneceram colados durante a dança.

Quando a música terminou, voltei para junto de minha mãe, que logo começou a falar:

— Ele está interessado em você, querida! Deveria pensar a respeito. É um ótimo homem, além de pertencer a uma boa família — disse mamãe. — Não tente esconder! Sei que você também está interessada no conde. Seus olhos estão brilhantes, e você está corada!

Ela fez uma pequena pausa antes de continuar:

— Pense a respeito, ou será impossível encontrar um bom pretendente com essa sua fama de solteirona brava! Pense bem nisso!

E era justamente nisso que eu pensava agora. Tinha muito pouco tempo antes de acabar casada com alguém que não desejava. Precisava ganhar tempo, mas como?

Naquela noite, fiz uma prece silenciosa enquanto fechava os olhos e, finalmente, adormecia.

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Eu estava em um baile ao ar livre, nos braços de alguém que sussurrava palavras doces em meus ouvidos. Sua voz melodiosa dizia:

— Seja minha! Basta segurar minha mão, e eu a levarei ao lugar mais alto que se possa imaginar.

Mãos enluvadas tomaram as minhas e me conduziram entre os casais que dançavam em uma pista improvisada. Juntos, seguimos em direção às árvores do jardim.

O mais incrível era que eu não conseguia ver quem me conduzia. Só sabia que, ao lado daquela pessoa, sentia algo inexplicável.

Em determinado momento, ele parou e disse:

— Feche os olhos!

Como se estivesse sob seu comando, fiz o que pediu. De repente, senti seus lábios macios encontrarem os meus e seus braços fortes me envolverem.

Retribuí o beijo apaixonado e, com carinho, afastei-me um pouco para perguntar:

— Quem é você?

Abri lentamente os olhos e vi seu rosto iluminado pela luz da lua. Então o reconheci: era o conde Jhon Howard.

Não consegui terminar o que pretendia dizer, pois despertei subitamente ao ouvir a criada me chamar repetidas vezes.

— Senhorita! Senhorita! Acorde! Sua mãe pediu que se arrume e desça. Ela disse que tem algo importante para lhe comunicar — anunciou a criada, enquanto começava a escolher um vestido para mim.

Depois de me arrumar, desci as escadas e fui até o jardim, onde mamãe me esperava enquanto lia um exemplar do jornal.

Ao me ver chegar, ela sorriu e disse:

— Bom dia, querida! Venha, sente-se aqui. Veja só o que está escrito no jornal de hoje!

Sentei-me e li o trecho que ela me indicava:

Parece que o solteiro mais cobiçado pelas jovens da sociedade já tem em mente sua futura esposa. Na noite de ontem, o conde dançou de maneira apaixonada com lady Peterson, fazendo com que muitos dos conservadores considerassem indecente a forma como o casal se comportava durante a dança.

Depositei o jornal sobre a mesa e encarei minha mãe.

— O que está escrito aqui não é verdade!

Mamãe sorriu antes de responder:

— Eu sei! Mas agora seus pretendentes aumentarão, já que parece que o conde está interessado em você. Veja pelo lado bom: assim, terá a oportunidade de escolher alguém por quem realmente sinta alguma coisa.

Agora, sim, meus planos haviam ido por água abaixo. Só conseguia pensar em como suportaria os possíveis interessados que apareceriam para me convidar para passeios e outros compromissos.

Dentro de um dia, meu irmão chegaria, e eu precisava impedir que mamãe conversasse com ele sobre o conde.

Por isso, tomei meu café e me levantei, usando como desculpa a vontade de ler um livro na biblioteca. Aquele era o único lugar onde eu conseguia pensar direito.

Sentei-me à velha escrivaninha de meu pai e olhei pela janela, contemplando a grama verde lá fora. Fechei os olhos ao sentir o perfume das flores espalhado pela brisa.

Não havia passado muito tempo desde minha chegada quando alguém bateu à porta.

Suspirando, já cansada de tantas preocupações, pedi que entrasse.

O mordomo apareceu com um papel branco nas mãos.

— Desculpe interrompê-la, senhorita, mas chegou isto para a senhorita.

Ele me entregou um envelope branco. Ao abri-lo, senti o perfume de rosas e encontrei uma pétala cor-de-rosa em seu interior.

A carta, escrita com letras perfeitas, despertou minha curiosidade. Segurei o papel e comecei a ler.

Cara senhorita Peterson,

Acordei contemplando a bela manhã de hoje e me lembrei da senhorita. A vontade de lhe escrever foi inevitável. Li o jornal de hoje e tenho certeza de que a senhorita também. Devo dizer que o conde é um homem de muita sorte.

  • A.*

Caso deseje responder a esta carta, envie sua correspondência para o endereço abaixo.

A pequena nota despertou em mim o desejo de descobrir quem era aquele misterioso senhor A.

Movida pela curiosidade, apanhei uma pena e uma folha de papel. Mergulhei a ponta na tinta e comecei a escrever:

Caro senhor A...

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