Capítulo 1 01
MILLICENT
Eu consegui entrar!
Ainda parecia um sonho, mas sim, eu tinha conseguido entrar na escola mais prestigiada para lobos jovens. Para ser aceita, você precisa ser filho de alguém poderoso e, durante a avaliação, tem que mostrar as melhores características que provem por que você merece entrar na escola.
Meu pai tinha insistido que eu fizesse a prova. Eu teria feito mesmo sem ele pedir, já que era basicamente para isso que eu tinha sido treinada a vida inteira.
Ser filha do general do Alfa vinha com benefícios, e esses benefícios também vinham com coisas não tão boas. Eu não podia chamar de desvantagens; não era bem isso.
Mesmo sem demonstrar, eu sabia que meu pai estava orgulhoso por eu ter entrado na escola. Eu tinha certeza de que ele também estava preocupado. Para ele, por mais horas que eu passasse treinando, eu ainda era só uma menininha delicada e frágil, que podia desabar a qualquer momento e precisava ser cuidada.
Como o Instituto Silverfang era um internato, eu teria que ficar no campus. Seria a minha primeira vez longe de casa, já que minha vida toda foi superprotegida e, claro, meu pai tinha que me dar sermão.
Foi mais uma hora de instruções do que conselhos, mas eu captei a mais importante de todas. “Não traga vergonha para o nome da família!”
Eu sabia o que aquilo queria dizer. Aos dezoito, eu já deveria ter conseguido meu lobo, mas eu tinha conseguido decepcionar meu pai nesse ponto. Por mais que eu treinasse, isso ainda não compensava o fato de eu não ter um lobo, aos olhos dele.
E ele não queria se decepcionar ainda mais — nem passar vergonha — quando as pessoas descobrissem que eu era filha dele. A posição do meu pai tornava mais difícil levar uma vida normal. Todo mundo o conhecia, e uma simples menção ao nome dele significava que todo mundo saberia quem eu era — a filha dele. Para não envergonhar a família, eu tinha que fazer uma coisa: não ser associada ao sobrenome.
Essa era minha chance de ser só Millicent. Não Millicent Sawyer, a filha do general. Ainda bem que isso não deveria ser difícil, já que eu quase nunca ia a lugar nenhum e muita gente nunca tinha me visto antes. Eu mal existia.
Parada em frente à escola, eu me perguntei como as coisas iam ser. Eu nunca tinha precisado estar no mesmo espaço que tanta gente. Minhas habilidades sociais estavam péssimas, enferrujadas, mas tudo bem, porque eu não estava planejando ser amiga de ninguém. Eu só queria passar pela escola e me formar.
No momento em que entrei no corredor, os sussurros começaram. Eu ignorei, porque não tinha como aquilo ser sobre mim. Eu tinha acabado de chegar e ninguém sabia quem eu era, então por que estariam falando de mim?
“Ela é tão linda!”
“Eu nunca vi ela antes, mas eu quero ela.”
“Quem você acha que ela é?”
“Ela é muito gostosa. Vai dar trabalho pra Sandra.”
Os sussurros continuaram, e eu fiquei me perguntando o que estava acontecendo.
Eu mantive a cabeça baixa. Os sussurros não eram da minha conta, e eu só devia focar em chegar aos dormitórios o mais cedo possível. Eu tinha mandado minhas malas antes, mas ainda não sabia onde era o meu quarto.
Meus planos de ficar invisível foram por água abaixo no instante em que alguém parou bem na minha frente. Eu me obriguei a olhar para cima e vi uma garota diante de mim. Ela me observava com curiosidade e um sorriso enorme no rosto.
“Ei, novata”, ela cumprimentou. Ela era animada — animada demais para alguém como eu, que queria se esconder e se misturar às sombras.
“Eu?” Apontei para mim mesma, sem jeito, finalmente percebendo quantas pessoas estavam me encarando. Eu tinha alguma coisa no rosto? Ou estava com a roupa errada? Eu sabia que adolescentes precisavam de pouquíssimos motivos para pegar no pé de alguém, e eu não queria virar alvo no meu primeiro dia.
“Claro que você! Você é a única garota nova, e eu tô parada na sua frente, né, duh”, ela abriu um sorriso ainda maior, como se o que eu tinha dito fosse a coisa mais engraçada que ela já ouviu.
“Ahm… oi…” Eu não sabia o que mais dizer. Ela me avaliou, como se estivesse esperando que eu fizesse alguma coisa, e então balançou a cabeça.
“Você é a Millicent, né?” Ela nem esperou minha resposta antes de continuar. “Eu sou a Ari. Me pediram pra te mostrar a escola e te levar pro seu quarto.”
“Ah, obrigada”, murmurei. Eu não sabia que a escola fazia isso. Achei que fosse coisa só de humanos. Eu já vi filmes suficientes e, sinceramente, foi um alívio, porque eu teria me perdido sozinha — e eu não queria falar com ninguém para pedir informação.
“Por aqui”, ela sorriu, indicando o corredor com a mão direita. Ari comandou a conversa. Falou de tudo, absolutamente tudo, e, quando paramos em frente ao meu quarto, eu já sabia quem eram as pessoas que eu precisava conhecer na escola — com quem fazer amizade e de quem passar longe.
Eu também já sabia tudo sobre os professores, até os apelidos que os alunos davam a eles, que eu nunca podia usar. Claro que eu não usaria. Só um idiota ia querer arrumar problema com uma coisa dessas.
Ela abriu a porta do meu quarto antes de me entregar as chaves e me conduzir para dentro.
Graças a quase todos os alunos dali serem filhos de alfas poderosos, a escola foi inteligente o bastante para construir quartos individuais. Eu estremeci só de pensar em ter que dividir quarto com um mimado.
Eu sabia como a filha do alfa da minha matilha se comportava, e eu não gostaria nem um pouco de morar com alguém como ela.
“Então, você é de qual matilha? Tá treinando pra ser a Luna da sua matilha? Já tem companheiro? Ou tá treinando pra virar a Luna da matilha dele?”, Ari disparou tudo de uma vez, e eu me atrapalhei. Eu estava acostumada a carregar a conversa sozinha, mas, agora, responder me deu um embrulho no estômago.
Eu não queria contar quem eu realmente era — e muito menos o fato de que eu ainda não tinha um lobo. Não me surpreenderia se todo mundo soubesse quem eu era antes da minha primeira aula, considerando o quanto ela falava.
“Desculpa, eu preciso ir pra minha primeira aula. Obrigada pelo tour e pelas dicas. Eu agradeço”, eu disse, conseguindo empurrá-la para fora da porta apesar dos protestos, e soltei um suspiro de alívio.
Eu ia ter que dar um jeito de evitar ela na escola, o que não devia ser difícil, já que a gente não era da mesma turma e ela estava prestes a se formar. Com nossos horários diferentes, a chance de a gente se esbarrar era mínima.
Olhei a hora no celular e percebi que ia me atrasar para a primeira aula se não me apressasse. Eu ainda tinha que achar meu armário, e não tinha tido a chance antes de ser emboscada pela Ari.
Peguei tudo o que eu poderia precisar no dia e saí correndo do quarto, de volta para o prédio da escola. Não demorou muito para chegar. Dessa vez, quando os sussurros começaram de novo, eu soube que era sobre mim. Ari tinha falado que todo mundo era apaixonado pela minha aparência. Palavras dela, não minhas.
Finalmente, cheguei ao meu armário. Depois de enfiar tudo lá dentro, peguei o que ia precisar para o meu primeiro dia, inclusive um mapa da escola. Seria um desastre me perder, já que eu, admito, não estava prestando atenção nas direções da Ari.
Ela falava cedo demais e rápido demais pra eu entender a maior parte, e eu precisava processar direito o que tinha ouvido se quisesse guardar aquilo na cabeça.
Pela segunda vez no dia, meu caminho até a aula foi bloqueado. Por uma fração de segundo, achei que fosse a Ari de novo.
“Eu consigo chegar—” As palavras morreram na minha garganta quando eu vi quem estava na minha frente.
Eu não conhecia o rosto dela, mas eu sabia que ela era deslumbrante — e tinha que ser a garota sobre quem Ari tinha me alertado mais cedo.
Qual era o nome mesmo?
Sasha?
Ah, Sandra… eu lembrei! O nome tinha ficado na minha cabeça desde que Ari mencionou que ela perseguia as pessoas direto. E eu tinha que chamar a atenção justamente da valentona. Lá se foi minha tentativa de ficar longe de confusão.
Sandra era linda, não tinha como negar. E diziam que ela era a loba mais forte e mais popular da escola.
Agora eu queria saber por que eu tinha despertado o interesse dela…
Não tinha como eu ter irritado a “abelha-rainha” da escola quando tudo o que eu fiz foi entrar. Ela devia só estar passando. Tinha que ser isso.
“Bom, e quem é que temos aqui?”, ela falou, com um sorrisinho de canto. Eu tentei ignorar e passar por ela, mas talvez eu tenha errado em fazer isso.
Ela agarrou meu braço e me puxou de volta, e eu engasguei. “Quem é você, porra?!” Ela rosnou com tanta condescendência que as pessoas ao nosso redor pararam e viraram para ver quem tinha virado o novo alvo dela.
Eu soube, sem a menor dúvida, que eu estava completamente fodida.
