Capítulo 2 02
— Eu... — comecei, mas ela foi rápida em me calar.
— Eu não disse que você podia me responder, disse? — ela me fulminou com o olhar.
Eu suspirei. Claro, a primeira regra de sofrer bullying era nunca retrucar pro seu opressor. Aham, tá.
— Eu sou a Millicent — eu disse, sorrindo com calma. Vi a raiva cintilar nos olhos dela ao perceber que eu tinha feito exatamente o que ela tinha mandado eu não fazer.
— Fecha essa boca, vagabunda.
Eu fiquei quieta. Não adiantava fazer cena com todo mundo olhando. Era meu primeiro dia, afinal; eu não devia arrumar confusão logo de cara.
— Quem é você? — ela perguntou. Eu não disse uma palavra; ela tinha mandado eu calar a boca, e eu pretendia seguir essa ordem até o fim.
Ela ficou mais irritada. — Você não tem boca ou ficou burra de repente? — gritou.
— Você mandou eu calar a boca, e eu calei. Eu não posso falar até você me dar permissão — eu soltei, com um risinho debochado, e ouvi gente resmungando e cochichando ao nosso redor.
Sandra se virou pra encarar o pessoal, fazendo todo mundo calar e fingir que estava fazendo outra coisa. Ela devia ter moral aqui.
— Eu te fiz uma pergunta, e você tem que responder. Quem é você? — ela rosnou pra mim, e eu me inclinei um pouco pra trás, cuidando pra não ser pega por aquelas unhas afiadas.
— Eu sou a Millicent — repeti, sabendo que aquilo não era a resposta que ela queria. Ela parecia prestes a arrancar minha cabeça do pescoço por causa disso.
— Eu sei o seu nome, idiota. Quem é seu pai? Você é uma daquelas órfãs pobrezinhas que eles têm pena e deixam estudar com a gente? — ela perguntou, cuspindo a palavra “órfã” como se fosse xingamento.
— Não sou, pode ter certeza — eu encarei ela com frieza. Eu queria acabar com aquilo de uma vez; eu odiava o quanto de tempo eu já tinha perdido ali, ainda mais porque parecia que ela não ia me largar tão cedo. Olhei por cima do ombro dela, e isso só deixou ela mais furiosa.
— Olha pra mim quando eu tô falando com você! — ela levantou a mão pra me dar um tapa, mas eu saí rápido do alcance. Eu aguentava muita coisa — ser tratada com deboche era uma delas —, mas apanhar não ia ser uma opção.
— Não tenta me bater. Você vai se arrepender — franzi a testa pra ela. Os cochichos ao redor pareceram aumentar, e nem o olhar dela fez o povo parar dessa vez. Eu vi celulares se levantando pra gravar e, por mais que eu me preocupasse com isso chegando até o meu pai, seria ainda pior se ele visse que eu me encolhi.
A única coisa que meu pai não perdoava era fraqueza — justamente a coisa contra a qual ele tinha me treinado.
Achei que ela fosse parar, mas parecia que só estava se preparando. Ela deu um passo na minha direção, e eu pensei que ela ia me acertar de novo, mas, em vez disso, sussurrou no meu ouvido.
— Você não faz ideia da encrenca em que se meteu. Logo vai aprender a nunca mais falar comigo desse jeito. Pra mim, você não é ninguém, e não vai tentar tirar o destaque de mim. Eu sou a única que merece isso, e você. Não. É. Ninguém!
Todo mundo num raio em que dava pra ouvir escutou as últimas palavras dela, mesmo que não tivesse ouvido o resto. Ela queria me intimidar porque eu ameacei o “destaque” dela? Sério, que que é isso? A gente tem treze anos?
— Você tá se exaltando demais por causa de uma “ninguém” agora, Sandra Patel — eu disse. Só de usar o nome dela, eu deixei ela ainda mais furiosa. Ela odiava que eu já soubesse quem ela era quando ela não sabia nada sobre mim. Era sempre assim com gente como ela.
— Sua vadia! — Ela veio pra cima de mim com uma velocidade que só um lobo teria e avançou com as garras estendidas. Eu consegui sair de lado a tempo, me afastando sem levar um arranhão.
Acertei o cotovelo nela quando ela passou, fazendo-a tropeçar. Ela só conseguiu se firmar a tempo, antes de cair. Eu não queria fazer nada, mas minhas habilidades tinham entrado em ação no automático.
Como eu ainda não tinha um lobo, meu pai fez questão de que eu soubesse lutar sozinha. Ele me matriculou em toda aula de luta que existia, mas onde eu mais me destacava era nas artes marciais.
Ela se virou pra mim de novo, tomada de raiva. Eu vi que ela estava começando a se transformar, e eu soube que, se não encerrasse aquilo o mais rápido possível, eu seria obrigada a me render. Desistir, na minha família, era o mesmo que uma morte vergonhosa.
— Dá pra parar, por favor? Eu não quero brigar com você. Hoje é meu primeiro dia aqui. — Eu tentei argumentar, mas sabia que, desse jeito, ela não ia parar até se dar por satisfeita; e isso era algo que eu não conseguiria fazer a menos que eu matasse ela ou morresse tentando.
— Você devia ter pensado nisso antes de me bater. — Ela avançou de novo, e eu me esquivei mais uma vez. Eu não queria lutar com ela. Já ia ficar registrado que eu era “a garota que se meteu numa briga no primeiro dia de aula”. Eu não queria acrescentar “a garota que deu uma surra na menina mais popular da escola” a essa lista.
— Mas foi você que tentou me bater primeiro, só não acertou. — Eu sabia que era quase inútil tentar ser razoável com ela. Ela estava com raiva. Raiva demais pra pensar direito.
— Você sequer sabe quem eu sou? Não, não sabe, porque, se soubesse, não teria feito o que acabou de fazer! — ela gritou, e eu mal consegui me segurar pra não revirar os olhos.
Por que eles sempre têm que fazer discursos? Tá, eu não sabia quem ela era antes, mas agora eu sei, e era exatamente por isso que eu não queria brigar com ela. Ela era filha do Alfa Patel, um dos alfas mais poderosos de todo o território, o que faria dela uma Luna poderosa assim que se formasse no instituto.
Eu até entendia por que ela era grossa e se achava a última bolacha do pacote, mas aquilo não importava ali. De acordo com o folheto que eu tinha recebido, todo mundo era igual em hierarquia até depois da formatura, desde que estivesse na mesma série. Eu não sabia em que série ela estava, mas eu ia mostrar pra ela — com certeza — o quanto a gente era “igual”.
— Sandra, por favor. Para com isso. — Coloquei um tom de súplica na voz. Ela fez pouco caso do que eu disse, mas pelo menos parou de começar a se transformar.
— Parar? Ah, querida. Eu só tô começando com você. — O sinal tocou anunciando o começo das aulas, mas ninguém se mexeu. Todos os olhos estavam em nós, na expectativa do que a gente faria em seguida.
Eu devia encerrar aquilo. Mesmo que eu estivesse um pouquinho com medo dela por ela ser poderosa, isso não significava que eu precisava lutar com ela.
Eu me virei, querendo ir embora, mas ela me puxou pelo cabelo, com uma dor que queimou na hora.
— Que porra é essa? — eu gritei, conseguindo soltar meu cabelo do punho dela. Antes que eu conseguisse me recompor, ela me deu um soco.
Eu só consegui evitar que pegasse em cheio no meu nariz — o que teria quebrado a ponte do meu nariz —, mas não consegui desviar totalmente, então o soco acertou minha bochecha e a região do maxilar.
A dor foi dilacerante, explodiu nos meus nervos de mil maneiras. Levei uma mão ao maxilar, fazendo careta. Ela não devia ter feito isso. Agora ela tinha conseguido me tirar do sério.
Satisfeita com o ataque inicial, ela tentou me acertar de novo, achando que eu estava vulnerável. Eu segurei o braço dela e enfiei um soco na barriga que a faria se dobrar de dor. Mesmo que ela se curasse rápido, ela ia sentir a intensidade daquele golpe por muito tempo.
— Eu mandei você deixar isso pra lá, não mandei? — Eu lancei um olhar mortal enquanto acertava outro soco. Ela tentou se defender, mas eu já estava embalada. — Você devia ter parado quando eu te implorei!
Ela era forte. Eu tinha que admitir. Ela se recuperou mais rápido do que um lobo comum recuperaria se encarasse alguém como eu. Que se dane ser a novata quietinha — eu não ia deixar ela ganhar de mim.
Mesmo usando a força ampliada de lobo, eu era páreo pra ela com as minhas habilidades de artes marciais. Eu me coloquei em posição de defesa e ela franziu a testa. Ela devia estar esperando que eu me transformasse ou alguma coisa assim.
Ela veio pra cima de mim em velocidade máxima, mas eu impedi que chegasse até mim com um chute. O golpe mandou ela voando pra trás, e eu vi que ela tinha se arranhado. Foi satisfatório ver ela machucada, mesmo que só um pouco.
Levantei a palma da mão e fiz sinal pra ela vir de novo. E ela veio. Tinha que ser burra e orgulhosa, mesmo sabendo que ia levar uma surra atrás da outra.
Eu conseguia prever os ataques dela antes mesmo de ela chegar perto e me defendia de cada um, fazendo questão de acertar um nela antes de empurrá-la de volta.
Ela estava ficando mais fraca e eu via isso. Pô, todo mundo via, mas ela não se dava por satisfeita. Ela queria me vencer, algo que não ia conseguir. Pelo menos não naquele estado.
— Para com isso e vamos ter uma luta de verdade nas aulas designadas — tentei argumentar com ela. Mesmo eu decididamente não gostando dela, ela ainda era filha de um Alfa poderoso, e eu não queria humilhá-la ainda mais.
— Não. Isso acaba agora, porque eu acabo com você neste momento! — ela rosnou, e eu admirei a determinação dela, mas não dava pra continuar desse jeito.
Aff. Ela estava sendo teimosa. Olhei em volta pra ver se tinha alguma coisa que eu pudesse fazer pra fazer aquilo parar, mas só vi gente assistindo. Estavam com os celulares na mão, filmando, com exceção de um grupinho, mas eu não dei a menor bola.
Cadê um instrutor ou um professor numa hora dessas? Eu adoraria que um deles apartasse a briga agora.
— Tá procurando alguém pra te salvar? Desiste, não tem ninguém — ela debochou. Voltei minha atenção pra ela. Mesmo toda surrada, ela ainda parecia impecável. Não tinha um fio de cabelo fora do lugar, e eu nem tinha certeza se podia dizer o mesmo de mim, mesmo tendo sido eu quem acertou mais socos.
— Não. Eu tô procurando alguém pra te salvar de mim — respondi, fazendo risadas e um “Uuuuh!” se espalharem pelos alunos.
Vi ela se irritar de novo, mas isso não me incomodou. Ela não devia ter começado, e eu tinha que acabar com aquilo agora.
— Que diabos está acontecendo aqui? — ouvi alguém gritar, e os estudantes se dispersaram. Finalmente, alguém que podia acabar com essa briga.
— Senhor, ela me bateu — Sandra apontou pra mim. Eu fiquei espantado com a facilidade com que ela mentiu, mas devia fazer parte da natureza dela. Ela queria parecer inocente e comportada diante dos mais velhos, e eu tinha certeza de que eles caíam nessa todas as vezes.
O homem que apareceu olhou de um pra outra e balançou a cabeça. — Vocês duas, venham comigo. Agora. — Ele se virou pros alunos, que ainda não tinham se afastado. — E o resto de vocês, vão para as aulas imediatamente.
Olhei pra Sandra, que me encarava com ódio, como se pudesse me furar com o olhar.
Suspirei. Esse primeiro dia estava virando algo bem memorável.
