Capítulo 3 03
XANDER
Zayne e eu estávamos a caminho de uma aula quando ouvimos uma algazarra. Foi surpreendente, já que, normalmente, a confusão girava em torno de nós.
Curiosos, fomos na direção do barulho e vimos duas garotas discutindo. A gente já ia sair porque, bem… meninas… mas o Zayne me puxou de volta. Ele apontou para elas, e eu entendi na hora do que ele estava falando.
Uma das garotas era a Sandra Patel. Normalmente, ela vivia com a cabeça nas nuvens, ocupada demais para se incomodar com os outros. Eu e meu irmão éramos as únicas pessoas que ela temia na escola, então foi surpreendente ver a Sandra descer ao nível de alguém que ela quase sempre consideraria inferior.
A outra garota eu nunca tinha visto. Devia ser a novata de quem todo mundo não parava de falar. Aquilo me irritou de um jeito absurdo, porque, desde que a gente entrou na escola, só se ouvia sobre a novata “tímida”, que era deslumbrante e que estava dando trabalho pra Sandra.
A garota que eu estava vendo não tinha nada de tímida. Muito pelo contrário. Mas eu não podia negar: ela era linda. Eu observei enquanto ela rebatia a Sandra, algo que ninguém em sã consciência tentava. Ela só podia não ser daqui, porque, se fosse, teria sabido que aquilo era a coisa mais errada a se fazer.
— Vamos, bora — eu disse ao meu irmão. Eu tinha coisa melhor pra fazer do que assistir a uma briga entre duas garotas que provavelmente estavam disputando um garoto ou alguma merda assim.
Tinha uma garota que eu tinha visto na semana passada com quem eu queria falar. Ela tinha chamado minha atenção, e eu não ia deixar ela escapar até levar ela pra minha cama.
Eu sabia que ela não ia resistir. Quase nenhuma resistia. Mesmo morrendo de medo da gente, isso não impedia as meninas de se atirarem pra cima de nós. Elas deixavam claro o tempo todo o que queriam, e eu ficava até feliz em ceder, se isso servisse pra saciar a minha libido sempre faminta.
A gente estava prestes a ir embora quando suspiros se espalharam ao nosso redor. Eu me virei ao mesmo tempo que meu irmão, a tempo de ver a Sandra cambalear. A novata tinha conseguido acertar um golpe nela — algo que ninguém tinha conseguido, já que todo mundo morria de medo da Sandra. Afinal, isso ia ser uma briga interessante.
Nós ficamos, assistindo. Todo mundo conseguia ver o quanto a Sandra estava ficando furiosa — outra coisa surpreendente, já que ela não deixava ninguém afetá-la.
Elas estavam longe demais pra eu ouvir o que diziam, e eu não ia usar minha audição aprimorada só pra escutar as duas se xingando.
A briga continuou, e eu fiquei intrigado. A novata tinha alguma coisa que fazia ela se destacar. Sim, ela era linda, mas ela também sabia lutar.
Em nenhum momento eu vi ela recorrer ao poder do lobo, o que era estranho. Pra enfrentar alguém tão forte quanto a Sandra, você tinha que ir com tudo, e ainda assim ela estava acertando socos como se fosse a coisa mais fácil do mundo.
— Ela sabe brigar, né? — perguntei ao Zayne, que assentiu. Ele ainda observava as duas e, pela expressão dele, eu sabia que ele estava analisando a garota, igual a mim.
— E ela é tão bonita quanto diziam — eu acrescentei.
— É, ela é — ele respondeu, e eu já sabia onde isso ia dar. Meu irmão gostou dela e queria ela. E eu também queria. Admito: eu queria qualquer garota que tivesse idade e fosse bonita, mas tinha algo diferente nessa.
Não seria a primeira vez que eu e meu irmão dividiríamos uma garota, então isso não me incomodava. Voltei a olhar pra briga bem a tempo de ver a garota acertar mais um golpe na Sandra. A Sandra estava perdendo feio, mas era orgulhosa demais pra admitir. Além do mais, o pai dela arrancaria a cabeça dela se soubesse que ela se rendeu a uma qualquer.
Depois de um tempo, percebi a novata olhando ao redor. Por um instante breve, os olhos dela se encontraram com os do Zayne e depois com os meus, antes de ela desviar o olhar. Aquilo foi novidade. As garotas normalmente ficavam derretidas quando cruzavam o olhar com a gente, mas ela estava provando, com firmeza, que não era como as outras.
Eu ouvi o Anderson antes de vê-lo. Ele era um instrutor cheio de vontade, que queria impor respeito, mas não tinha culhão pra isso. Era só um velho seboso que já devia ter se aposentado.
Ele mandou todo mundo dispersar, mas eu e meu irmão ficamos onde estávamos. Ele sabia muito bem que era melhor não mexer com a gente. A gente tinha sujeira suficiente dele pra encrencar com a vida dele, e ele sabia disso.
Ele passou por nós com as garotas. Sandra nos viu e tentou ajeitar a roupa, mas eu não estava nem aí pra ela — e eu sabia que o Zayne também não. Nossos olhares estavam presos em uma pessoa só. A garota ao lado dela.
Pelo canto do olho, eu vi o quanto aquilo deixou a Sandra furiosa, e ela lançou um olhar de ódio pra garota. Não seria nenhuma surpresa se essa garota aparecesse morta amanhã; a Sandra estava com cara de quem ia matar alguém.
Elas passaram e, enfim, a gente se mexeu.
— Você tá pensando o que eu tô pensando? — perguntei ao Zayne, mexendo as sobrancelhas. Ele suspirou. Como ele era o mais reservado entre nós dois, tinha que me aguentar mais do que queria.
— Eu sei exatamente o que você tá pensando, Xander. Eu não tô pensando nisso. E, mesmo se estivesse, eu não ia agir do jeito que você quer que eu aja — ele disse.
Eu ri, e ele esboçou um sorriso.
Eu sabia que ele a queria tanto quanto eu queria. Ela era muito bonita, lutava bem e seria uma transa e tanto.
— Ah, qual foi, Z. Quando foi a última vez que a gente teve uma coisa boa, tipo… uma coisa que presta? — Nem ele podia negar que fazia tempo. A maioria dessas garotas era do tipo que você só pega uma vez. Só isso. Essa aqui tinha mais potencial.
— Para de me encher, Xander. Você não tem algum lugar pra estar? Alguma garota pra comer? — Eu ri de novo. Ele era o único com quem eu conseguia rir assim. Ele me conhecia bem demais. Só que, com a garota nova na minha mira, acho que eu não quero mais aquela outra.
Agora eu tinha uma missão nova: a garota nova era meu próximo alvo, e eu ia conseguir.
— Apaga esse sorrisinho idiota da cara, Xander. É assustador, e você vai espantar todo mundo com isso — Zayne resmungou, fazendo eu rir de novo.
— Melhor que tenham medo. Eu garanto que as meninas adoram essa cara. Se você fosse menina, ia adorar também — provoquei. Ele me olhou como se eu tivesse dito a coisa mais nojenta do mundo, e eu ri mais uma vez.
A gente entrou na primeira aula e sentou. Tinha um espaço enorme entre nós e as outras pessoas. Todo mundo odiava sentar perto da gente, porque mais cedo ou mais tarde acabava se machucando. Parece que basta quase nada pra nos irritar.
Todos os professores já tinham desistido de tentar fazer alguém sentar perto da gente e, a essa altura, fingiam que era normal.
A aula passou devagar demais.
— Vamos matar — eu disse pro Zayne pelo nosso vínculo mental, fazendo ele me lançar um olhar fulminante. Eu dei uma risadinha com a cara dele.
— Some, Xander. — Não era a primeira vez que eu sugeria matar aula, mas meu queridíssimo irmão gêmeo, por algum motivo, realmente queria estar ali. Eu não ligava. A gente seria alfa de qualquer jeito, acontecesse o que acontecesse ali.
— Vive um pouco! Só dessa vez. — Fiz cara de coitado pra ele, e ele balançou a cabeça.
— Te conhecendo, “só dessa vez” ia virar todo dia. Some. — Ele me bloqueou na hora e, por mais que eu tentasse, ele não baixou as barreiras pra eu continuar enchendo.
Eu fiquei na sala pelo resto das explicações, com o professor falando sem parar. Eu queria sair dali. Eu precisava encontrar aquela garota antes que a Sandra matasse ela.
Por fim, o sinal tocou e eu saí com o Zayne. Pra minha sorte, ela estava logo à nossa frente, e a gente conseguiu alcançar fácil. Nós dois cercamos ela, e ela olhou pra nós, assustada. Isso mesmo, era pra estar.
— Qual é o seu nome? — Zayne perguntou, e ela olhou pra ele antes de baixar a cabeça.
— Millicent. — A voz dela foi quase um sussurro, e eu me perguntei o que o Anderson tinha dito pra ela. Ela parecia outra pessoa comparada a mais cedo, naquela manhã. Bem mais apagada.
— Millicent. — O nome não saía fácil da boca, mas combinava com ela. — Vem com a gente.
Ela ergueu a cabeça, encontrando os olhos azuis dela com os meus verdes, cortantes.
— Por que eu deveria fazer isso? — Ela franziu as sobrancelhas.
Ela tinha coragem. Ótimo. Eu gostava de garotas que tinham um pouco de briga dentro.
— Porque você, Millicent, foi escolhida por nós — eu provoquei, fazendo os olhos dela se arregalarem.
— Escolhida pra quê? Quer saber? Esquece, eu não quero saber. Eu só quero sobreviver a hoje, por favor. Me deixa ir.
Nem ela podia negar que estava curiosa. Ela tentou sair, mas eu bloqueei o caminho.
— Te deixar ir? Você nem ouviu pra quê foi escolhida. — Eu dei um sorriso de canto que não prometia nada de bom. — De agora em diante, você é nossa. Nosso brinquedinho de foder e de mais ninguém!
