Capítulo 6 06

Virei-me para encarar os alunos, e havia olhares curiosos estampados no rosto de cada um deles.

Sim, eu tinha derrubado a Sandra com um movimento só, e eles deviam estar se perguntando quem eu era e que tipo de poder especial estaria escondido nas minhas roupas, mas, pra falar a verdade, eu não tinha poder nenhum — e também não tinha nenhuma habilidade de lobo que pudesse ter ajudado na minha luta. Era só eu.

Se essa luta tivesse permitido que todo mundo usasse os poderes de lobo, primeiro: minha farsa teria sido desmascarada na escola inteira — todo mundo ia descobrir que eu não tinha lobo.

Segundo: eu provavelmente não teria a menor chance contra um aluno que pudesse se transformar e ainda soubesse lutar, e no caso da Sandra eu só dei sorte, apesar do quanto ela era forte.

Terceiro: eu viraria um alvo fácil na escola. Todo mundo ia querer me escolher como motivo de piada, e eu não podia deixar isso acontecer.

Eu precisava aprimorar minhas habilidades de combate e ficar mais forte.

Então, nesse caso, acabar com a Sandra foi uma boa escolha.

“Quão forte ela é?”, ouvi um dos alunos murmurar.

“Ela acabou com a Sandra como se não fosse nada pela segunda vez… ela deve ser forte demais”, outro acrescentou.

O treinador deu um passo à frente, com os olhos em mim. “E agora temos a nossa vencedora, Millicent.” Ele sorriu para mim, e eu respondi com um aceno de cabeça.

Eu estava prestes a ir até o time vencedor quando suspiros altos se espalharam entre os alunos.

“Sua puta desgraçada!”

Virei para ver o que estava acontecendo.

Era a Sandra… ela tinha liberado um pouco o lobo. As garras estavam à mostra, impacientes para rasgar minha pele, e os olhos tinham virado um tom mais claro de vermelho.

O rosto dela estava vermelho de fúria. Eu tinha acabado de derrotá-la e humilhá-la na frente de todo mundo, então era esperado.

Fiquei grudada no lugar, tentando adivinhar o que ela faria. Por algum motivo, eu sabia o que ela ia fazer; talvez eu estivesse sendo arrogante demais ao achar que conseguiria derrotá-la de novo naquele estado. Uma segunda voz na minha cabeça mandou eu correr, mas não — isso ia plantar dúvida nas pessoas, e ia me carimbar como uma palhaça.

Franzi a testa.

Virei-me para encará-la de frente, firmando bem os pés no chão e erguendo os braços à frente, fechando as mãos em punhos.

“Vem”, provoquei, alimentando a raiva dela — e ela avançou num disparo.

Merda!

Ela estava rápida demais… muito mais rápida do que quando lutamos ontem. Ela estava escondendo o poder de verdade antes?

Uma pontada de dúvida atravessou minha mente; quando eu achei que ela vinha no meu rosto, ela simplesmente sumiu e reapareceu atrás de mim num clarão.

Não!

Eu não ia conseguir. Tentei me virar, mas fui lenta demais, e, bem na hora em que eu tinha certeza de que ela ia me acertar, alguém se colocou entre nós e segurou a mão da Sandra.

“Eu não deixei bem claro que não era pra usar habilidade de lobo?” Era o Ralph, o treinador. A voz dele estava fria e dura.

Soltei o ar.

Nossa… foi por pouco.

Sandra se controlou, as garras recolhendo. “Mas aquela vadia—”

“Você está desclassificada”, Ralph cortou, e Sandra virou o olhar para ele, arregalando os olhos, incrédula.

“O quê?”

“Porque eu falei palavrão?”, ela rosnou para o treinador, e eu revirei os olhos.

Sério?

“Não. Porque você quebrou a regra ao usar o seu lobo”, Ralph disse.

— “Mas a nossa luta já tinha acabado”, ela argumentou.

— “Exatamente. Então por que você tem que ir atrás dela pra se vingar depois de perder?”, rebateu o treinador Ralph, e eu já estava gostando dele.

Sandra bufou com desdém, arrancando as mãos das dele. Ela lançou um olhar rápido pra mim, e eu consegui sentir o ódio irradiando do fundo dela.

Nossos olhos ficaram presos um no outro por mais tempo do que deveriam, com nós duas teimosas demais pra desviar o olhar ou recuar… até que Sandra cedeu. Eu fiz questão disso.

Ela se virou e saiu do ginásio pisando duro.

Eu suspirei e esfreguei a têmpora.

Aqueles olhares não eram qualquer coisa; eram ameaças e avisos de que eu estava com um problemão.

— “Preciso te elogiar pela sua habilidade de luta mais cedo. Aquilo foi incrível.” O treinador Ralph se virou pra mim. Um sorrisinho puxava de leve o canto da boca dele.

— “Bom trabalho, Milicent.” Ele deu um tapinha de leve no meu braço direito antes de se afastar.

Bom trabalho?

Finalmente alguém me valorizou, ao contrário do meu pai, que sempre dizia que eu precisava me esforçar mais — passar do meu limite.

Eu estava sendo reconhecida, e uma onda de satisfação me encheu, me dando ainda mais vontade de dar o meu melhor.

Eu ainda estava perdida nos meus pensamentos quando percebi os gêmeos me cercando. Tentei sair de perto, mas o de olhos verdes bloqueou meu caminho e abriu um sorriso debochado pra mim.

— “Você é interessante, isso eu te dou.”

— “Quer dizer pra gente onde aprendeu a lutar tão bem, docinho?”, ele perguntou, divertido, inclinando a cabeça e cruzando os braços sobre o peito.

Eu daria qualquer coisa pra saber o nome dele. Eu sabia o nome do outro gêmeo, que estava me encarando como um esquisito.

Zayne.

Tentei me mover de novo, mas o de olhos verdes bloqueou meu caminho mais uma vez e sorriu, mostrando os dentes. Ele já estava começando a me irritar.

Eu lancei um olhar duro pra ele.

— “Com licença, por favor. Eu tenho outras coisas pra fazer”, falei entre os dentes.

— “Ah, qual é. Por que você não aproveita a atenção que a gente tá te dando? Nem toda garota tem o privilégio de falar com a gente”, ele disse com aquele sorriso.

— “Ah, tá bom”, eu bufei.

— “Xander, você é o próximo”, chamou o treinador Ralph, e ele olhou por cima do meu ombro.

Legal… então é Xander.

— “Acho que agora é a minha vez.” Ele chegou mais perto de mim, e eu me perguntei o que ele queria fazer.

Ele se abaixou um pouco e se inclinou para o lado do meu rosto.

— “Você pode assistir, se quiser”, ele sussurrou no meu ouvido, roçando os lábios de leve no meu lóbulo, e eu estremeci.

Eu ofeguei, quase me afastando num pulo.

Ele soltou uma risadinha com a minha reação e se endireitou. A altura dele me dominava enquanto ele passava por mim.

Por que eu reagi daquele jeito?

Então percebi que o gêmeo dele ainda estava me encarando.

— “O quê?”, rosnei pra ele.

Ele não disse nada; só foi atrás do Xander.

Eu suspirei e saí do ginásio.

Eu precisava respirar um pouco.

— “Ei!”

— “Ei!!” Eu continuei andando, até que alguém tocou no meu braço e eu parei de repente, soltando um gritinho.

Virei a cabeça por cima do ombro, rápida, e vi que era a garota ruiva de antes, a que tentou me ajudar quando a Sandra me empurrou no chão.

Eu franzi a testa.

Até onde ela ia insistir?

— “Ahm… oi…”, ela disse, nervosa, com um sorriso ansioso logo depois.

— “E-eu… eu sou a Fiona”, ela se apresentou, e eu revirei os olhos em resposta.

Pode me chamar de grossa, mas meus nervos estavam à flor da pele naquele momento.

Eu realmente preciso de um tempo. Sem brincadeira.

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