Capítulo 8 08
Eu me debati contra ele, com os olhos arregalados, tentando dizer para ele me soltar, já que eu não conseguia falar. Ele não cedia, e minhas tentativas de empurrá-lo para longe eram inúteis.
Os olhos cinza-tempestade dele se fixaram em mim, me devorando com intensidade enquanto me encarava. Depois de tantas tentativas insistentes de tirá-lo de cima de mim, eu me rendi e me acalmei.
Ele abriu um sorriso de canto e, devagar, tirou a mão da minha boca. O polegar dele pousou no meu lábio inferior e, com a polpa do dedo, ele o acariciou com delicadeza, olhando para a minha boca como se fosse um brinquedo novo que alguém tivesse dado de presente.
Minhas sobrancelhas se franziram num nó irritante, se juntando, e eu puxei a cabeça para longe do polegar dele, irritada. Ele levantou o olhar para o meu. Havia algo sombrio nos olhos dele — algo fascinante no jeito como ele me encarava.
— Que porra é essa? — eu rosnei, fulminando-o com o olhar.
Ele se afastou, mas ainda manteve a proximidade comigo. Eu franzi a testa e tentei ir embora, mas ele esticou o braço até a estante e me prendeu ali.
— Aonde você vai? — ele perguntou, com uma voz profunda e gelada que fez os pelos do meu corpo se arrepiarem.
Eu estava certa... Ele era mais perigoso do que o irmão dele.
Sempre são os quietinhos.
— Vou embora — eu rosnei.
— Eu não disse que você podia ir embora, disse? — ele deixou o olhar cair nos meus lábios; ficou ali por um tempo, e eu vi a mandíbula dele tremer enquanto ele continuava encarando, encarando, até enfim desviar a atenção e voltar a me olhar nos olhos.
Eu engoli em seco.
Ele precisava mesmo fazer aquilo?
— Então... — ele começou, com a voz rouca, quase num sopro.
— Você é de qual matilha? — ele perguntou, inclinando a cabeça.
Eu arqueei uma sobrancelha para ele.
Ele estava tentando me conhecer?
Eu achei que o tipo dele nunca ligasse de verdade para conhecer as pessoas.
— Quem é o seu pai? — ele continuou, e eu franzi a testa.
— Eu não sou obrigada a responder você — eu rosnei.
Meu pai tinha me avisado, antes de eu vir para cá, para não revelar nada sobre a família nem sobre a matilha a ninguém. Eles não podem saber que eu sou filha dele, e eu também não quero que saibam que ele é meu pai. Era recíproco.
Acho que eu não quero participar da influência do meu pai nem ter que lidar com isso.
— Por quê? — Zayne apertou o rosto, impaciente.
Eu olhei para ele e, dessa vez, tentei não me sentir intimidada. — Porque eu não quero expor minha vida privada para um estranho — eu retruquei, e ele piscou devagar, me olhando como se achasse graça, e soltou uma risadinha.
Eu semicerrei os olhos, tentando entender o que tinha de tão engraçado.
— Dizem que você é bem difícil — ele falou, com um sorriso de canto.
— Estou começando a ver isso agora — ele provocou.
Ele se afastou de mim enquanto eu o acompanhava com o olhar por baixo das pálpebras, me perguntando o que ele aprontaria em seguida.
— A gente se vê por aí, princesa — ele disse, e foi embora.
Eu pisquei várias vezes, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Soltei um ar que eu nem tinha percebido que estava prendendo por causa daquele esquisitão.
Suspirei, esfregando a têmpora.
Arrumei minhas coisas e saí apressada da biblioteca.
Eu estava pensando em voltar para o meu dormitório para descansar, já que hoje eu não tinha mais nada importante para fazer.
Olhei meu horário de aulas e percebi que não teria nenhuma aula nas próximas três horas. Era tempo suficiente para eu me enfiar no meu quarto e descansar um pouco.
Enquanto eu caminhava pelo corredor, vi um grupo de alunos reunido mais à frente. Eu bufei, me perguntando o que estava acontecendo enquanto eles cantavam e riam.
Do jeito que todo mundo tinha se juntado, só podia significar uma coisa.
Alguém estava sofrendo bullying.
Mandei mentalmente minha pena para quem quer que fosse. Eu não pretendia me juntar à roda para conferir o que estava acontecendo.
Pra quê?
Era patético, de qualquer forma.
Eles só iam assistir e não ajudar. E, como eu também não era nenhuma salvadora, não havia motivo para ficar vendo aquilo.
— Sua vadia do caralho, então você teve a coragem de fazer daquela bruxa loira sua amiga! — eu ouvi, e parei onde estava.
— O que você esperava? — ouvi outra voz.
— Um perdedor se junta com outro perdedor — a mesma voz comentou, em tom de deboche.
Pera… o quê?
Se eu não estiver enganada, não foi a voz da Sandra que eu ouvi primeiro?
Bruxa loira?
Eu nem precisava juntar as peças para entender que ela estava falando de mim.
E, parando pra pensar, eu não tinha visto a Fiona o dia inteiro.
Será que…
Ah, não! Eu engasguei, levando a mão à boca.
Ela comentou algo sobre a Sandra ser prima dela ou alguma coisa assim.
Eu nem sei o que estava fazendo. Isso não era coisa minha, nem um papel que eu costumasse assumir, mas me peguei abrindo caminho à força no meio da multidão.
Com esforço, consegui me espremer até a frente.
Minha testa se franziu, e minhas sobrancelhas se cerraram quando eu vi a Sandra e as capangas dela em cima da Fiona, que estava caída no chão, completamente indefesa.
Ela estava um caco. O cabelo ruivo e cacheado tinha sido mexido, e tinha folhas de alface e rodelas de tomate de um hambúrguer presas nele. O uniforme estava sujo e manchado por causa de algum suco que tinham jogado nela.
Os óculos mal se seguravam no alto do nariz.
A maquiagem estava borrada, e lágrimas brilhavam nos olhos dela; ela parecia um zumbi saído direto de um filme de terror.
A Sandra sorriu de lado.
— Às vezes eu sinto vergonha de saber que a gente tem até parentesco… sua miserável patética.
— P-por favor, para! — a Fiona implorou, com os lábios tremendo.
— Parar? — a Sandra arregalou os olhos para ela e, em seguida, caiu na gargalhada.
Não é da minha conta, eu disse a mim mesma. Eu devia virar as costas e fingir que não vi.
— Me dá isso, Joey. A gente precisa ensinar uma lição pra essa vagabunda — ela sibilou, virando-se para uma das marionetes dela, uma garota de cabelo castanho-avermelhado.
A garota passou a garrafa de leite que estava nas mãos para a Sandra, e a Sandra arrancou a garrafa dela.
Sandra abriu a tampa.
Minhas mãos se fecharam ao lado do corpo, e eu repetia para mim mesma, de novo e de novo, que não era da minha conta.
A Sandra levou a garrafa de leite que estava na mão por cima da cabeça da Fiona.
— Para!
