Capítulo 1
Depois de puxar dois plantões da madrugada seguidos, eu me arrastei até o apartamento do meu irmão gêmeo pra me aproveitar da máquina de lavar dele. Um olhar para a cama dele — um verdadeiro risco biológico — e eu desabei no beliche limpo do outro lado do quarto.
Péssima ideia. Aquela cama era do Jensen — o rei do gelo intocável do time de beisebol.
Ele surtou com o cheiro doce de pêssego que alguém deixou nos lençóis e depois descobriu que aquilo era a primeira coisa, em dois anos, que de fato fazia ele dormir. Meu irmão, desesperado e caçando aluguel grátis, me passou a perna pra eu fazer o papel de “substituta de sonífero” do Jensen e trancou a maldita porta atrás de mim.
Jensen sacou na hora. Mas, em vez de me expulsar, ele me ofereceu dinheiro pra eu ficar como namorada de contrato dele. Depois que ele resolveu uns valentões que estavam ameaçando meu irmão, esse cara que nunca deixa ninguém se aproximar enfiou o rosto no meu pescoço, com a voz rouca e possessiva:
— Seu irmão te vendeu pra quitar a dívida dele. Agora você é minha. E eu não aceito devolução.
Pra juntar dinheiro da mensalidade e manter minha bolsa, eu tinha acabado de fazer dois plantões da madrugada consecutivos na lanchonete de fast-food. Eu estava tão exausta que mal conseguia andar em linha reta.
Pra economizar uns trocados na lavanderia, eu arrastei minhas roupas sujas até o apartamento fora do campus do meu irmão gêmeo, Stanley, parecendo um morto-vivo, pronta pra me aproveitar da máquina dele.
Não tinha ninguém em casa. Depois de enfiar as roupas no tambor, eu não aguentei durante o ciclo interminável da secadora.
Um olhar para a cama do Stanley — uma zona de desastre de caixas de pizza e meias sujas — e eu tomei uma decisão no impulso.
Eu desabei no beliche de baixo, limpo, do outro lado do quarto, me enfiei debaixo das cobertas e apaguei de vez.
Não sei quanto tempo eu dormi até um arrepio me acordar. Eu me atrapalhei pra sair daquela cama com cheiro de cedro, peguei minhas roupas já secas e corri de volta pro meu apartamento.
Eu mal tinha desabado no meu sofá surrado quando apareceu no meu celular um print do Snapchat que estava explodindo pelo campus.
Do Story Privado do Jensen.
Jensen Vaughn — o ás capitão do time de beisebol, gelado e arrogante e, infelizmente, colega de quarto atual do Stanley.
O print mostrava um edredom de plumas amassado com uma legenda direta e cruel:
[Eu tô realmente perdendo a cabeça. O Stanley, aquele idiota, dormiu na MINHA cama. E deixou esse cheiro todo de spray corporal doce de pêssego em tudo. Ele tá a fim de mim?]
Um irmão de fraternidade em comum respondeu embaixo: [Mano, você não jogou ele pela janela junto com o colchão?]
A resposta do Jensen foi quase instantânea: [Não. Ele tava todo encolhido no meu edredom, parecendo... estranhamente fofinho.]
O pior veio às 2 da manhã, quando ele aparentemente teve um curto-circuito no cérebro ou mexeu nas configurações do story sem querer e postou outra atualização totalmente fora do personagem:
[Eu tô ferrado. Tem alguma coisa errada comigo. Meu coração não para de disparar. Não sinto aquele cheiro, não durmo nada.]
Na manhã seguinte, o Stanley me mandou um áudio empolgado:
— Stella! Cara, eu acabei de acertar a SORTE GRANDE! O Jensen, aquele maluco, simplesmente pirou e disse que se eu dormir na cama dele de novo hoje à noite, ele paga meu aluguel do semestre inteiro!
Mais tarde naquela noite, eu estava beliscando pipoca e mandando mensagem pedindo novidades.
O que eu recebi de volta foi uma selfie do rosto dele brutalmente inchado, seguida de uma enxurrada de áudios desesperados:
— O Jensen é um PSICOPATA! No segundo em que eu deitei, antes mesmo de dar tempo de eu fechar o olho, ele literalmente me chutou do colchão pro chão!
— Ele ficou com nojo total, falou que eu tava fedendo a Axe vagabundo misturado com cerveja choca...
O áudio mal tinha acabado quando a porta do meu apartamento escancarou com força.
— Stella, que porra você fez na cama dele mais cedo?!
Stanley invadiu meu apartamento à meia-noite, com um olho roxo e um saco de ervilhas congeladas pressionado contra o rosto.
Ele ficou andando de um lado para o outro na minha sala com uma fúria impotente, me lançando olhares mortais.
Eu estava largada no meu sofá surrado, jogando pipoca na boca e segurando o riso.
— O que era pra eu ter feito? Eu tinha acabado de lavar minhas roupas.
Revirei os olhos.
— Sua cama parece um risco biológico. Eu tinha acabado de sair de um plantão dobrado, morta de cansaço — eu devia ter desmaiado em cima do seu cemitério de pizza em vez daquele beliche limpo?
— Desmaiado?!
Stanley berrou, fazendo uma careta quando isso puxou o lábio machucado.
— Você tem ALGUMA ideia de quão grave é o TOC do Jensen? Se eu só sento na beirada da cama dele pra amarrar o tênis, ele esfrega aquele ponto com lenço de Clorox até o tecido desbotar!
— E daí? — inclinei o corpo para a frente, ansiosa. — O que aconteceu de verdade ontem à noite?
— Eu fiz EXATAMENTE o que ele pediu!
Stanley reclamou como um cachorro gigante chutado.
— Pra conseguir aquele aluguel de graça, eu tomei banho DUAS vezes e me esfreguei até ficar rangendo de limpo antes de entrar debaixo das cobertas.
— Aí, no segundo em que eu me deitei pra ser o travesseiro humano dele, ele surtou como se eu tivesse queimado ele e me chutou pro outro lado do quarto!
Eu imaginei a cena — Stanley, com um metro e oitenta e oito e cem quilos de puro músculo, rolando pelo quarto do Jensen como uma bola de boliche gigante.
Quase engasguei com a pipoca.
O rosto do Stanley ficou vermelho-carmesim enquanto ele batia o pé e andava pela minha sala.
— Ah, você acha isso HILÁRIO? — ele rosnou. — Ele me empurrou pelo ombro, exigindo que eu produzisse “aquele cheirinho suave de pêssego de ontem”!
— Eu sou um jogador de linha defensiva de cem quilos que rola na terra pra viver — de onde diabos eu ia tirar cheiro de pêssego?!
Ao ouvir isso, eu congelei e, por instinto, cheirei meu pulso.
Antes do meu plantão ontem, meu colega de quarto tinha me emboscado com meia garrafa daquele spray corporal horroroso de Sweet Peach.
Aquele cheiro enjoativamente doce ainda grudava na minha pele.
Olhando para a cara arrebentada do Stanley, a cadeia absurda de lógica se encaixou —
Aquele capitão arrogante e distante tinha confundido a irmã gêmea do colega de quarto, estatelada na cama dele, com seu “colega de quarto esquisito obcecado por colônia”!
E ontem à noite, esse deus gelado do diamante do beisebol tinha desembolsado o equivalente a um semestre de aluguel, provavelmente com as orelhas rosadas de expectativa, esperando por... um cara de verdade, duro feito pedra, com cheiro de cerveja velha.
Olhei para Stanley com simpatia genuína.
Tá, a gente tem basicamente o mesmo rosto, mas ele é um brutamontes de músculo de fraternidade, enquanto eu sou um fantasma dependente de cafeína de um metro e sessenta e dois, com uma pele à altura.
A não ser que Jensen fosse cego, ele nunca confundiria a gente.
— Então aqui vai a pergunta de um milhão — eu disse, sacudindo migalhas de pipoca do meu jeans, mal conseguindo segurar o riso. — Você conseguiu o aluguel de graça?
O rosto de Stanley desabou como um balão murcho.
— Aluguel de graça o caralho! Além de não ter desconto nenhum, ele disse que eu ENGANEI ele e que vai aumentar a minha parte das contas!
— Ele falou que o “toque” de ontem à noite estava completamente errado, tipo uma imitação barata, e EXIGIU que eu entregasse “o Stanley de verdade”!
— Cof— cof!
Quase engasguei com a pipoca.
O Stanley de verdade? A cabeça desse cara estava em outro planeta.
— E ele ainda teve a AUDÁCIA de dizer que minha cintura era grossa demais! — Stanley continuou andando de um lado para o outro, gesticulando. — Com licença! Isso aqui é FORÇA DE CORE! É medalha de honra de jogador de linha—
Ele parou no meio da frase.
Congelado no lugar, ele virou devagar, as ervilhas ainda pressionadas contra o rosto. O olhar dele desceu do meu rosto — basicamente uma cópia carbono do dele — até a minha cintura fina. Depois ele puxou o ar duas vezes.
Aquele cheiro doce de pêssego no ar.
Dois segundos depois, Stanley soltou um suspiro ofegante:
— Stella... você não acha que aquele Jensen psicopata... na verdade tá a fim de VOCÊ?
