Capítulo 2
Revirei os olhos. — Ele não faz a menor ideia de quem eu sou, tá? Ele acha que quem estava deitada lá era você.
— Exatamente!
Stanley bateu na própria coxa. — Ele achou que quem estava exalando “vibes de pêssego” e toda macia e delicada era eu! Sabe o que isso significa? Significa que ele sempre foi a fim de mim, só não consegue lidar com esse corpinho de linebacker que eu tô ostentando agora!
— Sabe como chamam isso na internet? Tipo fanfic do Wattpad ganhando vida!
Eu encarei ele com cara de paisagem. — Você precisa parar de ler esse lixo.
Stanley não tinha um pingo de vergonha quando se achegou a mim, mãos juntas como se estivesse implorando pela vida:
— Qual é, Stella. Só ajuda seu irmão dessa vez. O aluguel desse semestre é tipo três mil. Se isso der certo, eu divido a economia com você — o bastante pra apagar aquela fatura do cartão das suas despesas com o conserto do carro.
Ao ouvir “fatura do cartão”, eu recuei por instinto. — Que tipo de esquema você tá aprontando agora?
— Hoje à noite, você vai deitar lá mais uma vez. — Stanley levantou um dedo. — Só uma. Veste um moletom, mantém a cabeça coberta. Quando ele voltar, segue a história de que você é o Stanley. Só faz ele dormir, e a gente tá feito com o aluguel.
— Você bateu a cabeça mesmo? Jesus, eu sou uma garota!
— A gente literalmente tem a mesma cara! Você vai estar enterrada sob cobertores, no escuro — quem é que vai perceber?
— Além disso, o Jensen é o cara mais gostoso do campus.
Stanley teve a audácia de parecer satisfeito. — As meninas matariam pra ir pra cama com ele. Se ele der uma apalpada, você tá fazendo o melhor negócio da sua vida!
Eu queria sufocar ele com uma almofada do sofá.
Mas a pior parte? Eu não conseguia argumentar.
A personalidade do Jensen era um lixo completo — arrogante, tipo um rei do gelo controlador. Mas a aparência? Sexo ambulante.
Eu não conseguia evitar de imaginar ele saindo do campo—
Arrancando o capacete, a expressão vazia, o suor escorrendo por aquela linha da mandíbula afiada como lâmina.
Descendo por aqueles abdominais definidos, sumindo no V cavado por aquela calça esportiva indecentemente baixa.
Assistir ele treinar sem camisa, honestamente, devia ser ilegal.
Metade das meninas da escola congelaria a bunda nas arquibancadas só pra ver ele tirando a camisa.
Mas isso definitivamente não significava que o meu próprio irmão podia me cafetinar como garantia de aluguel.
Peguei uma almofada e arremessei na cara dele. — Vai se foder! Para de tentar me vender pra cobrir as suas contas!
Stanley nem tentou desviar, e a almofada acertou o lábio machucado dele. Ele fez uma careta de dor e imediatamente mudou de tática, apelando pra culpa.
— Stella, você sabe que toda a minha ajuda financeira foi pro acampamento de treinamento. Se eu pagar esse aluguel, vou viver de miojo e grama do quad por meses. Você vai mesmo ficar olhando seu único irmão passar fome?
— Com prazer.
—Se eu morrer, quem é que vai te levar americano gelado na semana de provas? Quem vai barrar os tarados nas festas das fraternidades? Quando você estiver morrendo de cólica, quem vai fazer aquela corrida de madrugada até a CVS pra comprar ibuprofeno e bolsa térmica?
Ele era um desastre ambulante noventa por cento do tempo, mas, quando importava, até que mandava bem nessa coisa de ser irmão.
E metade daquele dinheiro do aluguel resolveria meu pesadelo financeiro atual.
Hesitei por uma fração de segundo.
Stanley percebeu na hora.
—Fechado! Hoje à noite, às oito, eu fico de vigia lá embaixo. Você entra de fininho. E lembra — espirra aquela porra daquele body mist de pêssego!
Antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa, a porta bateu na minha cara e eu fiquei segurando uma chave reserva.
Às oito daquela noite, parada do lado de fora do prédio do apartamento do Stanley, fora do campus, com o vento congelante na cara, eu tinha absoluta certeza de que tinha perdido o juízo.
Pra pagar uma dívida idiota de conserto do carro, eu tinha mesmo topado esse plano insano.
Mas, sendo sincera... eu estava meio curiosa.
Alguém como o Jensen — com aquela vibe de “não respira o meu ar”, o quarterback estrela que agia como se todo mundo fosse inferior — como ele era de verdade quando não tinha ninguém olhando?
Entrei no apartamento e abri a porta do quarto devagar.
Luzes apagadas, só a claridade do poste entrando pela janela. O ar tinha um cheiro leve de menta e cedro — o cheiro do Jensen.
Eu normalmente não era fã de colônia ou pós-barba, mas aquele aroma limpo, quase frio, amadeirado era surpreendentemente... bom. Clínico, mas no melhor sentido.
O plano era simples: deitar ali e bancar a morta. Só que bastou olhar pro beliche de baixo do Stanley — basicamente um local de risco biológico — que eu não consegui.
Com um suspiro, voltei a subir na cama do Jensen como uma ladra.
O colchão era perfeitamente firme, os lençóis obsessivamente arrumados, com um cheiro de recém-saído da secadora com um daqueles sachês chiques de cedro.
Me enfiei no cobertor como num casulo e puxei o celular pra mandar um Snap pro Stanley: [Onde você tá?]
Resposta instantânea: [Lá embaixo. Peguei Doritos no 7-Eleven. Fica de boa e não estraga tudo. O nosso aluguel do semestre tá dependendo disso!]
Eu mal tinha apagado a tela e enfiado o celular debaixo do travesseiro quando ouvi a porta da frente.
Clique.
O ferrolho girando.
Passos pesados no carpete. Um, dois, vindo direto pro quarto.
Meu fôlego travou. O coração martelando. As mãos suando por baixo do cobertor.
Uma sombra alta encheu o batente, então se aproximou da cama.
O colchão afundou de repente quando ele jogou todo o peso ao meu lado.
Antes que eu pudesse reagir, uma mão grande e calejada desceu com força por cima do cobertor, os dedos cravando na minha cintura com uma pressão que ia deixar marca roxa.
Então a voz dele — baixa, perigosa — bem no meu ouvido, o bafo quente no meu pescoço:
—Stanley, quantas vezes você ainda vai fazer essa palhaçada de fingir que tá dormindo?
