Capítulo 10
Sem dizer nada a ninguém, Jason desceu de elevador até a garagem e deixou o condomínio de carro. Um dos seguranças o viu sair, entrou depressa no veículo ao lado e foi atrás dele.
Jason nunca dirigia para lugar nenhum. Por isso, assim que o viu assumir o volante, o segurança soube que algo estava errado. A suspeita aumentou quando o chefe passou por todos sem dizer uma única palavra, algo muito incomum para ele.
Ao volante do Maybach preto, Jason dirigia sem destino, perdido nos próprios pensamentos. Tão distraído que não viu a senhora idosa atravessando a rua.
Por pouco não a atropelou.
O carro passou a poucos centímetros dela. A idosa levou a mão ao peito e desabou no chão.
Jason permaneceu dentro do carro, sem saber o que fazer. O segurança que o seguira, porém, chegou a tempo. Saiu depressa do veículo, correu até a senhora e a carregou para o carro. Depois se aproximou de Jason, que abaixou o vidro.
— Senhor, vou levá-la ao hospital mais próximo. O senhor gostaria de ir também?
Jason assentiu e tornou a fechar o vidro.
O segurança voltou ao carro e levou a idosa ao hospital mais próximo. Ela não parecia ter sofrido nenhum ferimento físico, mas foi examinada assim que chegaram.
Jason parou no estacionamento do hospital, porém não desceu. Não tinha nenhum disfarce e queria evitar ao máximo a atenção da mídia.
O segurança cuidou de todos os procedimentos necessários e pagou as despesas com o cartão de crédito de Jason. Depois de passar por vários exames, a senhora recebeu alta. Não havia sofrido nenhum ferimento, e todos os resultados estavam normais. Ela só tinha desmaiado por causa do susto.
— Senhora, onde a senhora mora? Posso levá-la para casa — ofereceu o segurança, conforme as instruções de Jason.
— Obrigada. Você é muito bondoso por ajudar uma senhora idosa. Pegou o malandro que tentou me matar?
— Bem... na verdade, ele é meu chefe. Foi ele quem pagou suas despesas e me pediu para levar a senhora aonde quiser.
— Ah! Então está bem. Pelo menos assumiu a responsabilidade pelo que fez... Mas por que ele não estava prestando atenção na estrada? O sinal mandava que ele parasse.
— Posso garantir que meu chefe é uma boa pessoa. Ele só anda com muita coisa na cabeça ultimamente — defendeu o segurança.
— Então onde ele está? Não deveria vir aqui me dar uma explicação? — questionou a idosa, irritada.
O segurança não soube o que responder. Aquela senhora certamente fazia muitas perguntas. Depois de quase morrer, não deveria estar poupando as energias?
— Enfim, eu estava indo comprar uma coisa numa loja. Pode me levar até lá? Minha neta estará me esperando.
Ela pegou a bengala e saiu da cama.
O segurança assentiu e a ajudou a deixar a enfermaria. Os dois seguiram até o estacionamento, onde ele deixara o carro.
Jason havia estacionado bem ao lado do veículo do segurança. Assim que chegaram, a idosa reconheceu o carro.
— Aquele é o chefe de quem você falou?
O segurança se surpreendeu por ela ter identificado o veículo.
— Sim, senhora.
A idosa caminhou até o lado do motorista e bateu na porta com a bengala.
Jason abaixou o vidro e a encarou com uma expressão séria.
— Primeiro, obrigada por não me abandonar na rua e também por pagar as despesas. Já não importa de quem foi a culpa. Só temos uma vida e, se ela for interrompida, não há como recuperá-la. A melhor maneira de enfrentar os problemas não é sair dirigindo, e sim caminhar por algum lugar tranquilo. Acredite em mim, a natureza sabe acalmar as pessoas. Mas, se dirigir é o que acalma você, é melhor ter alguém ao volante em vez de dirigir sozinho.
Ela manteve os olhos fixos em Jason, que abriu a porta do carro para que pudesse vê-lo melhor, mas não desceu.
— Você é um jovem bonito e tem um futuro brilhante pela frente. Percebo que não é arrogante nem mimado como alguns filhos de ricos que conheço. Continue sendo humilde, e as pessoas vão amar e respeitar você.
Jason tentou sorrir enquanto ela observava seu rosto, mas o sorriso forçado só o deixou sem jeito.
— E não seja tão frio e assustador. Assim, você vai acabar afastando as pessoas boas — acrescentou a senhora antes de se virar para o segurança. — Por favor, me leve ao mercadinho da rua onde você me encontrou.
O segurança assentiu. Sabia exatamente de qual estabelecimento ela estava falando.
Jason apenas concordou com os conselhos e fechou o vidro. Em seguida, saiu do estacionamento do hospital e dirigiu até o escritório. Precisava de uma boa distração, e sabia que não a encontraria se voltasse para casa.
Depois de estacionar, subiu até o escritório no terceiro andar do prédio. Mandou uma mensagem para Peter, pedindo que passasse ali às 17h para levá-lo para casa.
Jason se acomodou atrás da mesa e tentou adiantar um pouco do trabalho. No entanto, imagens dele ao lado de uma mulher invadiam sua mente sem parar.
Por fim, levantou-se e fez uma ligação.
— Olá. Por favor, venha ao meu escritório. É uma emergência.
Assim que a pessoa confirmou, ele desligou.
Jason preparou uma xícara de chá e bebeu alguns goles enquanto assistia ao noticiário, na esperança de afastar aquelas imagens da cabeça.
Uma batida suave na porta chamou sua atenção.
— Entre, por favor. A porta está destrancada.
Ele manteve os olhos fixos na entrada.
A porta se abriu, e um jovem mais ou menos da mesma idade de Jason entrou.
— Olá, Sr. Haward.
— Olá, Henry.
Os dois trocaram um aperto de mão, e Henry se sentou no sofá diante de Jason.
— Então, como você está? — perguntou com um sorriso.
— Não muito bem.
Jason se levantou e foi até a mesa buscar mais chá.
— Quer uma xícara?
— Não, obrigado — recusou Henry educadamente, tirando uma pequena caderneta e uma caneta da bolsa.
Jason voltou a se sentar, ainda sério.
— Então, o que aconteceu? — perguntou Henry.
— Algumas imagens surgem de repente na minha memória. Isso está me deixando estressado.
— Que tipo de imagens?
— Eu me vejo com uma mulher.
— Humm... É alguém que você conhece?
— Eu... ela... Não.
Jason não queria contar exatamente o que tinha visto.
Henry percebeu que ele escondia alguma coisa, mas já estava acostumado àquele comportamento. Jason considerava certos assuntos particulares demais e não se abriria de jeito nenhum.
— Tudo bem. Aconteceu alguma coisa antes de essas imagens aparecerem? — perguntou Henry, observando-o com atenção.
Jason ficou um pouco constrangido, e Henry notou.
— Nada importante. Não quero falar sobre isso.
Ele ainda não estava pronto para revelar nada sobre si mesmo e Julia.
— Tudo bem. Só responda sim ou não à próxima pergunta.
Jason assentiu.
— Você acha que já conheceu essa mulher antes?
— Não, acho que não.
— Você quer conhecê-la?
— Não — respondeu Jason na mesma hora.
A rapidez da resposta surpreendeu Henry.
— Certo. Essas imagens afetam a maneira como você se sente?
Jason assentiu, confirmando que sim.
— Então, o que é isso? — perguntou.
— Bem, não tenho informações suficientes para chegar a uma conclusão. Mas a melhor maneira de descrever o que você está sentindo seria um fragmento de memória. Provavelmente é algo que você já viveu, mas do qual não se lembra.
— E como eu lido com isso?
— Se espera que eu receite algum medicamento, essa não será a solução. Você tem duas opções: recuperar a memória por completo ou evitar os gatilhos.
Henry observou a reação dele.
Jason ficou em silêncio por alguns instantes, refletindo sobre o que acabara de ouvir. Estava quase convencido de que a mulher em suas lembranças era Julia e de que aquelas imagens pertenciam à noite anterior ao momento em que acordara e a encontrara dormindo em sua cama.
Por mais forte que fosse essa convicção, não queria admitir nem discutir o assunto com ninguém.
Uma batida na porta rompeu o silêncio do escritório. Logo depois, Peter entrou.
— Boa noite.
Os dois pares de olhos se voltaram para ele.
— Você chegou — constatou Jason.
Então se virou para Henry enquanto ambos se levantavam.
— Obrigado.
Henry assentiu e se preparou para ir embora.
Jason desligou o notebook, pegou-o e olhou ao redor para verificar se não havia esquecido nada. Peter tomou o aparelho das mãos dele, e os dois deixaram o prédio, seguindo de carro para a cidade de Southwest Ranches.
