Capítulo 11

Jason fechou o notebook, pegou-o e conferiu ao redor para ter certeza de que não havia esquecido nada. Peter também recolheu o dele, e os dois deixaram o prédio e seguiram de carro para a cidade de Southwest Ranches.

Enquanto isso, no grande apartamento da família em Aventura, James acabara de voltar de Chicago. Conforme a vontade do pai, ele havia visitado as duas empresas das quais agora era CEO. Estava radiante e ansioso para compartilhar a alegria com a família.

Mulherengo como sempre, porém, James não voltou sozinho. Uma bela jovem o acompanhava.

— Ah, James, essa é sua nova assistente pessoal? — perguntou Mirenda, embora soubesse muito bem que o irmão só estava sendo ele mesmo.

— Pode-se dizer que sim. — Sorrindo, ele indicou à jovem um lugar para se sentar. — Ela é a assistente pessoal do meu coração.

James se inclinou e beijou a bochecha dela, deixando-a corada.

Mirenda revirou os olhos. Ao ouvir a filha conversando com alguém, a Sra. Haward entrou na sala de estar.

— Quem é ela? — perguntou, franzindo a testa para James.

— A assistente pessoal do coração dele — respondeu Mirenda.

Sentada no sofá em frente à jovem, com as pernas cruzadas, ela continuou digitando no celular.

A expressão da Sra. Haward se fechou ainda mais. Já estava até perdendo a conta de quantas mulheres James havia levado para dentro de casa. Talvez fosse por isso que o pai nunca confiara a ele os negócios da família e acabara entregando tudo a um completo estranho.

— James, preciso falar com você em particular.

O filho estava sentado ao lado da jovem. Quando ela sorriu para a Sra. Haward, Matilda forçou um sorriso de volta.

— Claro, mãe.

Antes de se levantar, James deu outro beijo na bochecha da jovem.

— Já volto.

Ele seguiu a mãe até a sala de estar privativa. Assim que entraram, a porta foi fechada e a cortina, puxada.

— James, quantas vezes preciso dizer para você não trazer suas inúmeras garotas para a nossa casa? O que aconteceu com aquela história de levá-las para um hotel?

— Mãe, eu estava justamente levando ela para um hotel quando você ligou e mandou que eu voltasse para casa porque era importante.

Ao ouvir a explicação, a Sra. Haward levou a mão ao rosto.

— Peça a um motorista que a deixe em qualquer hotel. Temos um assunto de família para discutir. Depois, você pode ir terminar o que tem para fazer com ela.

Sem esperar resposta, deixou-o sozinho na sala privativa.

James saiu logo depois e fez o que a mãe havia pedido. Afinal, era o filho favorito da Sra. Haward. Ela o mimava tanto que ele sempre conseguia escapar de tudo.

Matilda Haward era o nome da mãe deles. Ela havia se casado com o Sr. Johan Haward 26 anos antes, e James fora seu primeiro filho. Recém-chegada aos 50 anos, agora era viúva e tinha três filhos: James Haward, o primogênito, de 25 anos; Jason Haward, o adotado de 24 anos que não sabia ser filho adotivo; e Mirenda Haward, a caçula, de 20 anos.

Os Haward tinham uma maneira peculiar de escolher seus parceiros e dar nome aos filhos. O primeiro nome de todas as mulheres precisava começar com M, para que suas iniciais fossem sempre M.H., e um número indicava sua posição. A Sra. Haward usaria as iniciais M.H. 7ª caso tivesse conseguido se tornar a guardiã da fortuna dos Haward até que um dos filhos se casasse. Para os homens, as iniciais eram J.H., seguindo a mesma regra.

Os três se acomodaram no quarto da mãe, e ela iniciou a conversa.

— Vocês estão felizes com o que o pai deixou para vocês?

Mirenda abaixou a cabeça. Já sabia aonde aquela conversa levaria.

— Sim. Você devia ter visto a empresa que o pai deixou para mim em Chicago. É enorme, e eu praticamente não preciso fazer nada além de assinar documentos e coisas do tipo. A equipe é preparada e experiente o bastante para cuidar de tudo sozinha. Vou ter mais tempo para mim e ainda ganhar dinheiro — respondeu James, animado.

A Sra. Haward suspirou.

— Filho, você não percebe nada de errado nisso? Você é apenas uma figura decorativa e está feliz com isso?

James levantou uma sobrancelha, mas não respondeu.

— Olhe para Jason. Ele só precisa estalar os dedos para fazer as coisas acontecerem. Está na TV, nos canais de notícias, e, se sair do carro, em cinco minutos as pessoas se aglomeram ao redor dele como formigas no mel. É convidado de honra em conferências internacionais. Quando visita uma empresa, parece que o próprio Jesus desceu à Terra. Ele consegue o que quer a qualquer hora. As pessoas estão sempre dispostas a fazer coisas por ele. E você, filho? Além de ter um rosto capaz de atrair qualquer mulher que desejar, o que mais tem?

— Mãe, esse é o Jason. Eu não preciso de nada disso. — James cruzou as pernas. — Além do mais, dá muito trabalho, e eu não estou disposto a fazer esse esforço. Olhe para a vida dele. Aposto mil dólares que Jason não sabe nada sobre mulheres. A única forma de ele conseguir transar seria se alguém o drogasse ou se uma mulher o estuprasse.

Ele caiu na risada.

— Então você acha que a vida se resume a sexo? — questionou a mãe.

Naquele instante, Mirenda colocou os fones de ouvido para não precisar escutar a discussão.

— Talvez não se resuma a isso, mas também não acho que a vida se resuma a viver sob os olhos do público. Não vejo graça nenhuma em deixar um grupo de pessoas que não sabe nada sobre mim dizer como devo me vestir, comer e falar, ou com quem posso ou não me relacionar. Essa é praticamente a vida do Jason, e eu não tenho o menor interesse nela.

James arqueou uma sobrancelha.

— Olhe para mim. Sou um cidadão livre. Tenho dinheiro, mulheres e tudo mais. Só aproveito a vida. Não há graça nenhuma no estilo de vida do Jason.

A mãe ficou furiosa. As sobrancelhas quase se uniram sobre o nariz.

— Filho, este mundo é uma selva. A única forma de sobreviver é tendo dinheiro e poder.

— Então você quer que eu viva como o Jason? Mãe, sério, de que lado você está? Eu achava que era seu filho favorito.

— E você é. É justamente por isso que não quero que um completo estranho tome aquilo que pertence por direito a você e à sua irmã.

James a encarou, desconfiado.

— Espere, o quê? Do que você está falando?

— Estou dizendo que Jason não é seu irmão. Se você não acordar, amanhã todos nós podemos acabar na rua. Desde que entrou nesta família, ele vem abrindo caminho até a nossa fortuna. Eu não podia dizer muita coisa porque seu pai o adorava.

James continuou em silêncio.

— Você se lembra de quando tinha 12 anos e tentou construir aquele carrinho de brinquedo com as ferramentas do seu pai, mas não conseguiu? Lembra o que Jason fez?

— Ele me ajudou a terminar e me incentivou a mostrar o carrinho ao pai — respondeu James.

Não via nada de errado naquilo. Ainda se lembrava daquele dia como se tivesse acontecido na véspera.

— E recebeu o prêmio de honra do seu pai — ressaltou a Sra. Haward.

— Jason recebeu, mas entregou o prêmio para mim. Disse que a ideia era minha e que só tinha me ajudado a descobrir o que estava faltando.

— Sim. Depois de receber publicamente os elogios de todos. Só então ele entregou o prêmio a você, em segredo.

James abriu a boca para retrucar, mas parou. As palavras da mãe o fizeram congelar.

— Aí está. Agora entende como ele conquistou o coração do seu pai e enganou todos vocês? Só entregou o prêmio depois de receber todas as honrarias. Fez questão de deixar vocês sempre à sombra. E hoje o plano dele deu resultado. Jason é o herdeiro da família. E você é o quê? Nada.

James franziu a testa.

Pensou na infância dos dois e em muitos outros episódios parecidos com aquele. Aos poucos, começou a acreditar que a mãe tinha razão.

Jason havia enganado todos eles.

— E veja só o que aconteceu quando o casamento se tornou pré-requisito para ser o herdeiro da família. De repente, ele apareceu com uma mulher que nenhum de nós jamais tinha visto e a apresentou como esposa. Todos sabemos como Jason é quando se trata de mulheres. Jason já namorou alguém na vida? Imagina pensar em casamento. E qual é a posição dele agora? Herdeiro da família Haward. Esse era o plano desde o início: conseguir a herança a qualquer custo.

Ela fixou os olhos no filho.

— Agora entende por que precisa acordar? Ele está aqui para destruir todos vocês.

O semblante de James se fechou por completo.

— Então, o que vamos fazer?

— Ótimo. Eu tenho um plano, mas preciso do seu comprometimento total. Vamos usar todos os recursos possíveis para recuperar o que nos pertence.

James assentiu.

Com os fones nos ouvidos e a música tocando, Mirenda não ouviu a conversa entre a mãe e o irmão.

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