Capítulo 12
— Bom, eu tenho um plano, mas preciso do comprometimento total de vocês. Vamos usar tudo o que temos para recuperar o que é nosso?
James assentiu.
Com os fones nos ouvidos e a música ligada, Mirenda não prestava atenção à conversa entre a mãe e o irmão.
— Mirenda! — gritou a Sra. Haward.
Mirenda deu um pulo no assento.
— Você está com a gente?
Ao perceber os dois pares de olhos fixos nela, Mirenda respondeu "sim" com a cabeça.
— Ótimo — declarou a Sra. Haward.
Na cidade de Southwest Ranches, no apartamento de Jason, Julia e Tilly conversavam sentadas na cama do quarto de Julia. Já passava das 21h.
— Ter alguma coisa para se distrair é uma boa ideia — concordou Tilly.
— Estou pensando em voltar a dirigir o ônibus escolar — disse Julia.
— Por que faria isso quando tem a oportunidade de conseguir o emprego dos seus sonhos? — Tilly apontou na direção do quarto de Jason.
Julia ergueu uma sobrancelha.
— Espere. Você está dizendo que eu deveria pedir um emprego a ele?
— Sim. Ele é rico e poderoso. Pode usar os contatos dele para colocar você em qualquer empresa que precise de uma arquiteta.
— Não sei... Ele parece tão hostil comigo. Pode me empurrar de novo ou simplesmente se recusar a ajudar. E a família dele... Acho que eles não gostam de mim — reclamou Julia.
— Notícia de última hora, amiga: a família dele não está aqui. Tente a sorte. Quem sabe não dá certo? Ele mandou o segurança me buscar para cuidar de você. Para mim, isso significa que ele se importa ou que há alguma coisa importante em você.
Tilly pegou um travesseiro, colocou-o no colo e apoiou o cotovelo nele.
— Sério? Foi ele que fez isso? — perguntou Julia, surpresa.
— Foi. Então, esta é a sua chance. Vamos dormir, e amanhã você fala com ele. Não precisa voltar para aquele trabalho sem futuro dirigindo um ônibus escolar. Afinal, quanto pagam para você fazer isso?
Tilly se levantou da cama.
— Vá dormir. E não se esqueça: diga que quer um emprego e pergunte se ele pode ajudar você a conseguir um.
Ela caminhou até a porta, mas parou quando já estava prestes a abri-la.
— Leve um travesseiro quando for conversar com ele sobre isso.
Julia fez uma careta, ainda sentada na cama.
— Por quê? Para quê?
— Caso ele empurre você de novo, pelo menos vai ter um travesseiro macio para amortecer a queda — provocou Tilly.
Julia atirou um travesseiro nela, mas Tilly escapou do quarto a tempo, e o objeto acertou a porta já fechada.
Julia ainda não havia se recuperado por completo da dor de perder a mãe, mas sabia que precisava se reerguer e deixá-la orgulhosa, mesmo que agora ela estivesse no céu. Sabia o que a mãe sempre quis para ela e faria isso acontecer. Além do mais, assim também poderia conquistar a própria liberdade daquele homem estranho.
Julia apoiou a cabeça no travesseiro e adormeceu.
Na manhã seguinte, saiu do quarto sem que ninguém precisasse obrigá-la. Era a primeira vez que realmente prestava atenção ao lugar ao redor. As paredes, o piso, as luzes... Tudo era lindo e muito caro. Em certo momento, chegou a se perguntar se os pés dela eram dignos de pisar em um chão daqueles. O apartamento inteiro reluzia de tão limpo.
— Ha-a-a-a-le-e-e-lu-u-u-ia! Ha-a-a-a-le-e-e-lu-u-u-ia! — cantou Tilly em A#, fazendo Julia se assustar.
No andar de baixo, um empregado levava algumas bandejas para a sala de jantar. Ao ouvir de repente a voz de Tilly, deixou duas caírem e as quebrou.
— O quê?! Você quase me matou do coração! — reclamou Julia.
— É aleluia mesmo, louvado seja Deus! Você saiu do quarto por vontade própria! — comemorou Tilly, sorrindo.
— É, muito engraçado — respondeu Julia, revirando os olhos.
— Imagino que hoje vai tomar café da manhã na sala de jantar, não é?
Julia apenas deu de ombros.
— Ótimo. Assim, você pode fazer o seu pedido.
Julia já havia tomado banho e estava vestida. Tilly a puxou em direção às escadas.
— Você acha mesmo uma boa ideia ter esse tipo de conversa à mesa do café da manhã? — questionou Julia.
Ela não tinha certeza de que aquilo daria certo. Tinha medo de Jason.
— Se você quer alguma coisa de um diabo como aquele, é melhor pedir quando ele estiver de bom humor. E, acredite, ninguém consegue comer quando está de mau humor. Portanto, o melhor momento é durante o café da manhã — incentivou Tilly.
As duas desceram até a sala de estar.
Julia abriu os olhos de repente ao observar o ambiente. A decoração impecável mesclava branco e cinza, com detalhes dourados. Parecia o tipo de sala em que era preciso pedir permissão até para se sentar no sofá.
Elas atravessaram o cômodo, seguiram para a sala de jantar e se acomodaram à mesa.
— Oi, tudo bem? — cumprimentou Tilly quando um empregado entrou carregando alguns sanduíches.
— Tudo bem. E com a senhora?
— Ótimo. O Sr. Haward vai tomar café da manhã conosco? — perguntou, enquanto Julia observava em silêncio.
— Não, senhora. Ele saiu cedo para trabalhar.
Como Tilly não fez mais nenhuma pergunta, o empregado deixou a sala de jantar.
— Tacos! — exclamou ela assim que viu o prato sobre a mesa.
Julia se serviu devagar de um pouco de cereal e permaneceu calada enquanto Tilly continuava falando.
Depois do café da manhã, elas foram para a varanda. Tilly não parava de conversar. Julia participava cada vez menos, mas nem isso foi suficiente para silenciar a amiga.
— Onde está Jason? — perguntou uma voz feminina dentro da casa.
Julia virou o rosto para a porta.
Logo depois, ouviu-se o som de saltos se aproximando.
— Ele trabalha até aos domingos? — continuou a mulher.
Tilly se levantou para descobrir quem era. Abriu a porta de correr da sala de jantar e entrou na sala de estar, onde deu de cara com uma senhora idosa e sofisticada.
— Desde quando Jason permite que os empregados se sentem na sala de jantar dele? — perguntou a Sra. Haward ao funcionário parado ao seu lado.
— Elas são convidadas do Sr. Haward, senhora — respondeu ele.
— Cale a boca. Não pedi que respondesse. Agora, saia — ordenou ela, furiosa.
Tilly acompanhou tudo em silêncio.
— Você! — A Sra. Haward lançou um olhar de desprezo para ela. — Quem é você?
— Sou Matilda Hayford, amiga de Julia — respondeu Tilly, sem se abalar.
— Ah, então você é amiga daquela pulga. E o que seria você? Uma mosca doméstica?
Sem esperar por uma resposta, a Sra. Haward desviou o olhar para a cozinha.
— Chamem os dedetizadores! Temos uma infestação de pragas nesta casa! — gritou.
— Vamos, Julia — disse Tilly, encarando-a com severidade.
Julia segurou a mão da amiga, e as duas caminharam em direção às escadas.
— Aonde pensam que vão? — questionou a Sra. Haward, fazendo-as parar.
— Para a porta.
A Sra. Haward ordenou ao segurança que viera com ela que empurrasse as duas para fora pela porta da frente.
Em seguida, mandou um dos empregados limpar o lugar depressa e se sentou para esperar por Jason, tomando uma taça de vinho enquanto assistia a uma série de TV.
Do lado de fora, Tilly e Julia ficaram diante do elevador, olhando para a porta de entrada. Nenhuma das duas era da Flórida, portanto não sabiam para onde ir. Acabaram se sentando na escada à esquerda da porta.
O elevador emitiu um sinal, e ambas se levantaram.
Jason franziu a testa ao encontrá-las ali fora, embora tenha ficado contente ao ver que Julia também havia saído do quarto.
— O que vocês estão fazendo aqui?
Tilly ia responder, mas Julia se adiantou:
— Ar fresco. Saímos para tomar um pouco de ar fresco.
Jason lançou um olhar desconfiado, e Julia recuou dois degraus.
— São 18h — observou ele.
— É, e nós estávamos conversando — acrescentou Julia.
Pela expressão de Tilly, Jason percebeu que havia alguma coisa errada.
— Está frio. Entrem — ordenou.
Tilly foi até a porta da frente, puxando Julia consigo. Assim que a abriu e entrou, deparou-se com o olhar da Sra. Haward.
— O que vocês querem? — perguntou a mulher ao vê-las entrar na sala de estar.
Ela estava prestes a dizer mais alguma coisa quando percebeu que Jason vinha logo atrás.
— Jason, você voltou — disse com um sorriso.
— Boa noite, mãe. Que visita inesperada. Quando liguei ontem, você não mencionou que viria.
"Mãe? Será que ela é a mãe dele?", pensou Tilly.
Julia, porém, a puxou em direção às escadas, e as duas deixaram mãe e filho sozinhos na sala.
— Mãe, você expulsou a minha convidada da minha casa? — perguntou Jason, enfatizando "minha casa" para deixar claro que ela não tinha o direito de fazer aquilo.
A Sra. Haward abriu e fechou a boca, mas nenhuma palavra saiu. Ficou apenas parada, encarando o rosto de Jason.
