Capítulo 2
"Que homem grosseiro", pensou enquanto seguia pela rua para casa.
Julia caminhou pela calçada até chegar a varanda da casa de madeira pintada de branco. Espiou pela janela, na esperança de entrar sem ser vista.
— Julia, entre — chamou a mãe. — Eu sei que você está aí parada.
Julia estreitou os olhos e cerrou os lábios. Abriu a porta da frente, que estava destrancada, e entrou.
— Bom dia, mãe. — Ela escondeu as mãos atrás das costas.
A mãe estava sentada no sofá, de óculos, lendo um livro. Nem sequer levantou a cabeça quando Julia se aproximou por trás.
— De onde você está vindo? — perguntou, ainda com os olhos fixos no livro.
— É... mãe, eu... eu... — Julia gaguejou, coçando a nuca.
A mãe fechou o livro, tirou os óculos e se virou para encará-la. Franziu a testa, levantou-se e examinou de perto o vestido que a filha usava. Só então notou que Julia estava descalça.
Depois de conferir a etiqueta, soltou uma exclamação de surpresa e voltou a encará-la com a testa franzida.
Julia não entendia por que a mãe examinava tanto seu vestido.
— De onde você tirou dinheiro para comprar isso?
— Eu... eu não comprei. Foi presente de um amigo — respondeu depressa.
— Presente de um amigo? Qual dos seus amigos ganha dinheiro suficiente para dar uma coisa dessas a você? Tilly, seu amigo desempregado, ou Michael, o padeiro? — A mãe apoiou as mãos na cintura.
Julia permaneceu calada. Não podia contar o que havia acontecido naquela manhã.
— Onde estão as roupas que você estava usando ontem? E por que está descalça?
— Eu não sei — respondeu com sinceridade.
— Você está se envolvendo com homens por dinheiro? Esse vestido é da Louis Vuitton.
— Não! — negou de imediato. — Não estou fazendo isso e nunca vou fazer. É só que ontem à noite foi uma confusão e... e... por favor, mãe, não vamos falar sobre isso.
Julia correu para o quarto.
"O que ela está escondendo?", a mãe se perguntou, sem tirar os olhos do caminho por onde a filha havia desaparecido.
Depois de deixá-la, Jason seguiu para o hospital. Sentado em silêncio no banco traseiro, tentava se lembrar da última coisa que conseguia recordar. Havia sido convidado de honra para um festival de música e comparecera acompanhado do pai.
Lembrava-se da imprensa fotografando os dois quando chegaram. Depois, fora conduzido por um corredor privado até o salão onde acontecia o festival de música.
E era só.
— Senhor, chegamos — anunciou o motorista, interrompendo seus pensamentos.
Jason baixou o vidro e olhou para fora.
"Hospital HCA Florida Westside", dizia a placa.
Sim, era o hospital cujo nome o irmão havia enviado. Jason desceu do carro e seguiu em direção à entrada, acompanhado por quatro homens imponentes.
— Aquele é Jason Haward? — perguntou uma mulher à amiga que caminhava com ela.
— Sim, é ele. Será que veio fazer uma doação para o hospital? — A mulher mal continha a animação ao vê-lo.
— Rápido, tire uma foto minha com ele ao fundo. Depressa!
— Amiga, a menos que você consiga fazer ele parar de andar, não sei como isso vai ser possível. Aqueles seguranças vão tomar seu celular se tirar foto sem autorização.
As duas se afastaram, mas continuaram admirando-o de longe.
A notícia da presença de Jason se espalhou pelos arredores, e algumas pessoas começaram a se aglomerar do lado de fora do complexo hospitalar só para vê-lo de relance.
Com sua postura fria e distante, ele entrou no hospital e foi recebido pelo irmão. Até os funcionários, apesar de ocupados, encontraram tempo para lançar olhares discretos em sua direção.
— O que aconteceu com papai? — perguntou Jason, observando o rosto dele com preocupação.
— Nada ainda. A mãe está com ele agora.
James o conduziu até o quarto. O pai estava deitado na cama, vestindo um avental hospitalar, com os olhos fechados e ligado a várias máquinas.
Jason queria perguntar o que havia acontecido. Estivera com o pai na noite anterior, mas nenhum de seus próprios seguranças estava por perto, apenas os do pai. Sabia que aqueles homens não lhe diriam nada.
Assim que ouviu a porta se abrir, a mãe se virou para Jason com os olhos cheios de lágrimas. Ele parou atrás dela e pousou uma das mãos em seu ombro, tentando confortá-la.
— Ele chegou em casa perto da meia-noite e desmaiou antes mesmo de conseguir subir as escadas para o quarto. Está assim desde que o trouxemos para cá — contou entre soluços.
Jason massageou os ombros dela com delicadeza, e a mãe segurou sua mão.
O médico entrou e, ao encontrar toda a família reunida, foi direto ao assunto:
— Preciso falar com um de vocês.
Como James era o mais velho, acompanhou o médico e deixou Jason com a mãe.
Ela segurava a mão do marido entre as suas, cobrindo o dorso de beijos enquanto chorava. Quando o celular de Jason vibrou, ele saiu do quarto.
Assim que ficou a sós com o marido, ela largou a mão dele sobre a cama e se inclinou até seu ouvido.
— Você se acha muito esperto. Queria expulsar a mim e ao meu filho de casa e nos deixar sem nada. Agora, sou eu que vou administrar todos os seus bens. É impressionante tudo o que você fez para impedir que eu recebesse qualquer coisa, mas agora vou ficar com tudo.
Ela sorriu e passou os dedos pelos cabelos dele.
— Sabe de uma coisa? Eu amo as regras da sua família. A menos que aquele seu filho grosseiro encontre uma mulher disposta a se casar com ele neste exato minuto, não vejo como você pode vencer.
Ainda sorria quando ouviu a porta se abrir. No mesmo instante, mudou de postura e deu um beijo na bochecha do marido.
— Mãe, você não pode continuar chorando assim. Precisa ser forte por ele — disse James ao entrar.
— O que o médico disse? — perguntou ela, com os olhos vermelhos de tanto chorar.
James a encarou, sem saber se deveria contar tudo.
— Ele vai ficar bem — conseguiu dizer. — Só precisamos cuidar bem dele.
Os dois se viraram ao ouvir o pai murmurar debilmente o nome de Jason. No instante seguinte, o corpo dele começou a se sacudir com violência, e os alarmes das máquinas dispararam.
James apertou o botão para chamar o médico e correu para buscar ajuda. Na entrada, encontrou três membros da equipe médica, que entraram rapidamente para atendê-lo e mandaram os dois sair do quarto.
A equipe fez tudo o que pôde. No fim, porém, não conseguiu salvá-lo.
A enfermeira desligou os aparelhos e começou a retirar os equipamentos do corpo dele. Quando os dois médicos saíram, encontraram Jason, James e a mãe no corredor.
— Sinto muito — disse um deles.
A mãe ficou paralisada. Estava prestes a desabar no chão quando James a segurou.
— O que ele tinha? — Jason perguntou ao irmão.
— Ele tinha câncer de cólon em estágio terminal. Não havia muito que os médicos pudessem fazer por ele — explicou James.
— Câncer de cólon? Como? — Jason não conseguia acreditar que ninguém soubesse.
— Vou levar a mãe para casa e avisar o resto da família — disse James.
— Suponho que Mirenda já tenha voltado.
— Sim, ela chegou esta manhã. Vai ser um choque. Ela não sabe de nada. Vou esperar para contar ao vovô.
— Deixa o vovô comigo.
James deixou o hospital com a mãe, enquanto Jason ficou para cuidar da papelada.
