Capítulo 3
— Deixa o vovô comigo — disse Jason.
James saiu do hospital com a mãe, enquanto Jason ficou para cuidar da papelada.
James entrou no carro com a mãe no banco do passageiro. Ela chorava sem parar pela morte do marido e parecia inconsolável. James achou que precisava deixá-la pôr toda aquela dor para fora, por isso permaneceu em silêncio durante o trajeto, com os olhos fixos na estrada, até chegarem ao apartamento da família.
Depois de resolver a documentação no hospital, Jason também seguiu para lá. Chegou de carro dez minutos depois de James, entrou no elevador e subiu até o 12º andar.
O apartamento ocupava o andar inteiro. Era enorme, com seis quartos, duas salas de estar e uma varanda muito bem projetada, onde havia uma piscina. A decoração, em tons de cinza e branco, ganhava vida com os quadros nas paredes.
Assim que entrou na sala de visitas, Jason encontrou o avô. Os dois seguiram juntos até a sala de estar da família e se sentaram para conversar.
— Olá, vovô — cumprimentou Jason.
Procurou James e a mãe com os olhos, mas nenhum dos dois estava por perto.
O avô se sentou ao lado dele e passou um braço por seus ombros. Jason sorriu e retribuiu o abraço. Quando o avô endireitou o corpo no sofá, Jason colocou uma almofada atrás de suas costas para deixá-lo mais confortável.
— Como vai o trabalho? — perguntou o avô.
— Tudo bem. Só tenho alguns contratos de projetos para assinar na segunda-feira. — Jason hesitou. — Vovô...
— Sim?
— Aconteceu uma coisa hoje...
— Seu pai nos deixou — completou o avô.
— Sim.
— Eu sei. Sua mãe chegou em casa chorando.
O avô ergueu os olhos, encarando algum ponto à frente, enquanto Jason observava seu perfil.
— Seu pai era uma boa pessoa. Era quase como um filho para mim. Às vezes, eu desejava que ele realmente fosse meu filho. Trabalhador, inteligente e muito humilde. Você deveria seguir o exemplo dele.
O avô se virou para encará-lo, e Jason assentiu com uma expressão fria.
Sim, o pai era humilde. E no que isso tinha dado? As pessoas se aproveitavam dele o tempo todo e tentavam enganá-lo.
Jason já havia construído a própria reputação e não abriria mão dela para imitar a humildade do pai. Agora, todos o temiam. Ninguém conseguia ficar diante dele e falar sem tremer.
O pai era bondoso. Jason, implacável.
As únicas coisas que herdara dele eram a dedicação ao trabalho e a inteligência.
Os dois passaram mais algum tempo juntos, até o avô decidir tirar uma soneca.
Depois que ele se recolheu ao quarto, Jason encontrou o irmão mais velho e a irmã mais nova reunidos em torno da mãe. Ela ainda enxugava as lágrimas no próprio quarto.
O celular de Jason vibrou. Ele saiu para atender e retornou alguns minutos depois.
— Está tudo pronto. O funeral foi marcado para depois de amanhã — anunciou.
Em seguida, deixou os três e foi para o próprio quarto.
Sentou-se no sofá, apoiou a cabeça no encosto e mergulhou em seus pensamentos.
"Como ninguém sabia que o pai estava lutando contra um câncer de cólon? E o que aconteceu naquela noite, quando ele foi ao festival de música com o pai?"
Jason tentou se lembrar dos acontecimentos daquela noite. O evento tinha corrido bem, e as apresentações tinham sido ótimas. Quando pediu água a um dos seguranças, o pai lhe entregou uma garrafa.
Era tudo de que se lembrava. Depois de beber a água, sua memória ficava em branco.
Ele enfiou a mão no bolso e retirou a aliança de casamento. Examinou-a com atenção antes de guardá-la novamente.
Não queria que ninguém da família descobrisse aquilo antes que ele soubesse quem era a mulher e como ela havia ido parar em seu quarto.
O toque do celular interrompeu seus pensamentos. Jason olhou o nome na tela e atendeu.
— Sim, fale.
— Senhor, o nome dela é Julia Harrison. Ela mora com a mãe em Belle Glade, numa casa de dois quartos. Só as duas moram lá. Quanto ao pai, ela nunca o conheceu. Julia trabalha como motorista de ônibus escolar e é com isso que paga as despesas diárias. A mãe é costureira. Apesar das condições de vida delas, ela gosta de sair para festas e beber em uma boate com os seus dois melhores amigos: Matilda Hayford, a quem ela chama de Tilly, e Michael Hogan. Ela não tem tolerância ao álcool, mas adora beber — informou o homem. — Isso é tudo o que descobri sobre ela.
— Hmm.
Como o outro não tinha mais nada a acrescentar, Jason encerrou a ligação.
"Essa garota não é ninguém."
A única pessoa que provavelmente poderia lhe contar o que acontecera já estava morta: seu pai, com quem estivera naquela noite.
A família jantou reunida. Jason se surpreendeu ao ver sua mãe comer depois de ter passado quase o dia inteiro chorando. Ainda assim, ficou aliviado por ela ter conseguido se alimentar.
Permaneceu ali por algum tempo depois do jantar e então voltou para seu apartamento.
Assim que entrou acompanhado por dois seguranças, todos os empregados ficaram tensos. Os guardas permaneceram no térreo, enquanto Jason subiu para o andar onde ficava seu quarto.
Sentou-se no sofá e assistiu ao noticiário por algum tempo antes de decidir se deitar.
Já no quarto, abriu a gaveta ao lado da cama para pegar o carregador do celular. Em vez disso, encontrou duas certidões de casamento assinadas, ambas com o pai como testemunha.
"Espere. Então o pai sabia do casamento? Foi ele quem organizou tudo?"
Jason logo descartou essa possibilidade.
"Segundo meu irmão, o pai desmaiou assim que chegou em casa. Mas também não faz sentido alguém atacar meu pai e me obrigar a me casar com uma desconhecida."
Ele continuou encarando as duas certidões que segurava.
Guardou os documentos na gaveta e se sentou na beirada da cama, ainda com o carregador na mão.
"Por que alguém me faria casar desse jeito? A menos que pretenda usar a garota para chegar até mim."
Pediria o divórcio depois do funeral, decidiu. Colocou o celular para carregar e foi tomar banho.
O dia do funeral chegou.
O pai jazia no caixão, cercado por inúmeras flores. Muitas pessoas compareceram à cerimônia, pois ele era muito conhecido.
O caixão foi levado até a sepultura e baixado na cova. Jason pegou um punhado de terra e o jogou sobre o caixão. Todos os irmãos fizeram o mesmo, assim como a mãe. Depois disso, a sepultura foi coberta.
Ao deixarem o cemitério, todos voltaram para o apartamento da família e passaram a noite ali.
No dia seguinte, com o funeral encerrado, Jason retornou ao próprio apartamento. Precisava resolver alguns assuntos e também dar início ao processo de divórcio antes que alguém da família descobrisse o casamento.
Alguns dias depois, foi ao fórum para dar entrada no processo de divórcio. O que descobriu o deixou chocado.
Havia um contrato com uma cláusula determinando que o casamento só poderia ser dissolvido depois de um ano e meio.
— Que merda é essa? — gritou.
Jason perguntou se havia algo que pudesse ser feito, mas informaram que o divórcio só poderia prosseguir depois do prazo estipulado.
Furioso, deixou o local e foi trabalhar.
Entrou na empresa e seguiu direto para sua sala, dando ordens expressas para que ninguém o perturbasse.
Sozinho, tentou entender como o contrato, as certidões de casamento, as alianças e a mulher com quem dormira se encaixavam naquela história. Como tudo aquilo tinha acontecido? E por quê?
Decidiu confrontá-la. Talvez ela soubesse de alguma coisa.
Ela não estivera no festival de música. Então, como os dois haviam se conhecido?
Jason pegou o celular e discou um número.
— Quero aquela garota, Julia, no meu apartamento hoje, às 18h.
Encerrou a chamada sem esperar resposta.
O resto do dia foi tomado por reuniões, contratos e decisões urgentes. Quando o expediente terminou, deixou a empresa e seguiu para o apartamento.
O motorista conduziu o carro até a enorme garagem subterrânea e estacionou. Jason saiu acompanhado por quatro seguranças. Outro guarda se aproximou.
— Onde ela está? — perguntou.
— Senhor, ela está amarrada no porão.
Jason seguiu até lá.
Assim que entrou, mandou os guardas deixarem os dois a sós.
Julia parecia machucada. O cabelo estava desgrenhado, e o canto da boca sangrava. Era óbvio que os homens tinham sido brutais com ela.
Apesar do estado deplorável, ela era muito bonita. Tinha olhos lindos e cabelos castanhos, longos e volumosos. Mesmo com os hematomas causados pelos maus-tratos, ainda era possível perceber a delicadeza de sua pele.
Na manhã em que acordara ao lado dela, Jason estava irritado demais para observá-la. Agora, mesmo com o rosto contraído de dor, ela parecia adorável.
Ainda assim, ele manteve a expressão fria e hostil.
As mãos e as pernas de Julia estavam presas à cadeira, e um pedaço de pano amarrado em sua boca a impedia de falar.
Jason puxou outra cadeira e a posicionou a pouca distância. Ao retirar o pano da boca dela, Julia começou a gritar tão alto que ele sentiu como se os tímpanos fossem explodir.
— Cale a boca.
O tapa atingiu a lateral do rosto dela. A pele ficou vermelha e começou a inchar no mesmo instante.
O mundo girou ao redor dela. Ela achou que poderia desmaiar a qualquer momento. Apavorada, começou a tremer na cadeira.
— Certo. Me diga o que você estava fazendo antes de acordar na minha cama.
Lágrimas escorreram pelo rosto dela. Quando respondeu, sua voz tremia.
— Por favor, não me machuque. Eu não me lembro de nada.
Ela estava sendo sincera.
— Então você realmente não se lembra de nada? — Jason se irritou com o silêncio dela. — Responda!
O corpo de Julia estremeceu de medo.
— Eu saí com meus amigos. Acredite em mim, é só disso que me lembro — disse, quase chorando.
— Aonde você foi? — perguntou ele, sentando-se.
— A uma boate na minha região.
Ela ainda tremia.
— Certo. Me dê os nomes dos seus amigos e os contatos deles. — Jason a encarou. — Agora!
Ele gritou a última palavra, e Julia deu um pulo na cadeira.
— Matilda.
— Matilda o quê?
— Matilda Hayford e Michael Hogan.
Ela rapidamente recitou os números dos dois.
Jason a deixou sozinha no porão. Alguns minutos depois, uma mulher entrou, desamarrou Julia e cuidou de seus ferimentos. Em seguida, permitiu que ela andasse livremente pelo local.
Depois de entregar os nomes e os contatos aos seguranças, com ordens para que fossem buscar os dois no dia seguinte, Jason subiu para o andar onde ficava seu quarto.
