Capítulo 6

Julia permanecia na varanda, inquieta, sem saber o que fazer. Teria de deixar a própria casa e a mãe para viver sob o mesmo teto que um homem cuja família a humilhava.

Já havia sido levada à força duas vezes, em plena cidade, e nenhum dos transeuntes tentou ajudá-la. Era como se todos tivessem ficado cegos diante do sequestro. Nem mesmo seus gritos atraíram socorro.

Ela se lembrou do que aquele homem e os guardas haviam dito:

"Grite. Alguém virá."

Era óbvio que as pessoas tinham medo dele e de seus homens. Por isso, jamais interfeririam em nada que os envolvesse.

Julia suspirou. Como a mãe se sentiria se ela desaparecesse por vários dias? Se decidisse ignorá-lo, ele poderia mandar seus homens sequestrá-la outra vez.

Depois de respirar fundo, finalmente tomou uma decisão.

"Por enquanto, vou obedecer. Depois encontro um jeito de voltar para casa. Direi à mamãe que vou passar alguns dias fora porque consegui um novo emprego em outra cidade."

Com isso em mente, entrou em casa.

Ao chegar à sala de estar, esperava encontrar a mãe no sofá, lendo um livro como de costume. Mas ela não estava lá.

Julia voltou os olhos imediatamente para o quarto.

— Mãe, onde você está? — chamou, caminhando até lá.

— Mãe? — repetiu, batendo de leve na porta.

Continuou chamando e batendo, mas não obteve resposta. Quando girou a maçaneta, descobriu que a porta estava destrancada.

Entrou.

E paralisou diante da cena à sua frente.

Sua mente se esvaziou. O chão pareceu desaparecer sob os pés.

Julia ainda conseguiu dar mais dois passos antes que a escuridão a envolvesse. Por alguns instantes, tudo ao seu redor ficou nebuloso. Depois, ela não sentiu mais nada.

Jason estava de volta ao apartamento onde morava, na cidade de Southwest Ranches. Assim que o elevador anunciou sua chegada, um empregado abriu a porta para ele.

Absorto em pensamentos, Jason entrou e seguiu direto para o quarto, ignorando o cumprimento do homem.

O empregado simplesmente retomou suas tarefas. Todos naquela casa já estavam acostumados àquele tipo de tratamento e sabiam reconhecer quando o patrão estava irritado.

Jason morava sozinho. Não recebia visitas nem dava festas. Na verdade, quase nada acontecia naquele apartamento.

Havia apenas um homem que aparecia de vez em quando. Os dois passavam horas a fio no escritório e, às vezes, no quarto de Jason, sempre com a porta fechada. Os funcionários começavam a acreditar que ele fosse seu parceiro.

Até o dia em que uma mulher desconhecida saiu do quarto de Jason.

Foi a primeira vez que viram uma mulher no apartamento.

No quarto, Jason se sentou em uma cadeira, ainda perdido em pensamentos.

Seu pai, Sr. Johan Haward, nunca fazia nada sem motivo. Sempre havia uma razão por trás de cada atitude.

Jason acreditava que o pai escolheria James, o filho mais velho, como herdeiro. Por isso, ficara surpreso ao ser obrigado a se casar e descobrir que o casamento era um pré-requisito para assumir a posição.

"Por que ele faria isso?"

Levantou-se, caminhou até a escrivaninha e abriu uma das gavetas. De lá, retirou as duas certidões de casamento que traziam seu nome e o de Julia, além das assinaturas de ambos e da assinatura de seu pai como testemunha.

Depois de examiná-las, guardou os documentos novamente e foi ao banheiro.

Tornar-se herdeiro da família Haward também tinha suas vantagens. Ele passaria a fazer parte do círculo dos ricos e poderosos, o que seria ótimo para os negócios. Além disso, teria os meios necessários para descobrir por que o pai tomara aquela decisão.

Mais tarde, desceu para jantar e assistiu ao noticiário por algum tempo. Antes de se recolher, mandou um dos empregados preparar um quarto de hóspedes para Julia, que chegaria no dia seguinte.

Na manhã seguinte, Jason saiu para o trabalho às 6 da manhã. Antes de partir, deixou instruções claras sobre o que os empregados deveriam fazer assim que Julia chegasse.

Todos ficaram surpresos ao saber que outra mulher iria ao apartamento — e, daquela vez, para ficar. Ainda assim, guardaram as próprias opiniões.

Quando Jason voltou para casa, por volta das 6 da tarde, descobriu que Julia ainda não havia chegado.

A informação o desagradou. O prazo que dera a ela já havia expirado.

— Essa garota quer me testar.

Ele chamou um de seus guardas e ordenou que encontrasse Julia e a levasse até ele.

— Vou ensiná-la a cumprir a palavra depois de dada — avisou antes de subir para o quarto.

O guarda partiu imediatamente para cumprir a ordem.

Jason tomou banho e se sentou atrás da escrivaninha para analisar alguns arquivos que trouxera do trabalho. O toque do celular interrompeu sua concentração.

— Fale — ordenou assim que atendeu.

— Senhor, temos uma situação — informou o guarda.

— Que situação?

— A mulher foi presa, senhor.

— Por quê? — perguntou Jason, mantendo a voz perfeitamente calma.

— Assassinato, senhor.

— Entendo. Quem foi assassinado?

— A mãe dela — respondeu o guarda. — A polícia ainda está na casa. O que o senhor quer que eu faça?

— Descubra em qual delegacia ela está detida e traga-a até mim.

Jason deu a ordem como se não tivesse ouvido que Julia fora presa sob suspeita de assassinato.

— Sim, chefe.

Ele encerrou a ligação.

O guarda fez o retorno com o carro e seguiu uma viatura que deixava o local do crime, acompanhando-a até a delegacia onde Julia estava detida.

Julia passara a noite inteira em uma cela, esperando para descobrir o que fariam com ela.

Quando recuperou a consciência, estava cercada de policiais. Desde então, não dissera uma única palavra.

A última imagem gravada em sua mente era a da mãe caída de bruços no chão, em uma poça de sangue.

Seus olhos estavam vermelhos, e as lágrimas não paravam de escorrer. Desde que fora levada para a delegacia, não comera nem fechara os olhos por um segundo.

Júlia parecia apenas uma sombra do que fora. Continuava sentada no mesmo lugar onde os policiais a haviam deixado.

— Quem está no comando aqui? — perguntou o guarda assim que entrou na delegacia.

Os dois policiais na recepção ergueram os olhos.

Diante deles estava um homem bem-vestido, usando um terno caríssimo e trazendo no peito esquerdo o brasão da família Haward.

— O que você quer? — perguntou um dos policiais, examinando-o de cima a baixo sem dar importância ao brasão.

O homem tirou o distintivo e o exibiu.

— Essa mulher não pode ficar aqui. Meu chefe exige que ela seja liberada.

O outro policial reconheceu o brasão e se apressou em alertar o colega:

— Ele é um guarda da família Haward. O que vamos fazer? Não quero problemas — sussurrou para o homem ao seu lado.

— Por que vocês prenderam a filha da mulher assassinada? — perguntou o guarda.

Nenhum dos dois respondeu.

— Vocês são cegos, burros ou apenas preguiçosos?

Mais uma vez, só recebeu silêncio.

— Quem é o chefe de vocês?

— Quem está me procurando? — perguntou uma voz vinda do interior da delegacia.

Logo depois, surgiu um homem de estatura mediana e barriga saliente.

— Você é o responsável por este lugar? — perguntou o guarda.

— Sou. O que você quer? — O homem apoiou as mãos no balcão da recepção e o encarou.

— Você sabia que seus homens prenderam e trouxeram para esta delegacia uma mulher cuja mãe foi assassinada? Encontrá-la inconsciente no local não significou nada para eles? Preferiram prendê-la, mesmo sem qualquer evidência de que ela tenha participado da morte da própria mãe.

— Houve um assassinato na casa dela, e ela é a principal suspeita. Quer que a gente algeme você no lugar dela?

Só então o homem percebeu que nem sequer havia perguntado quem era aquele sujeito que ousava falar com ele daquela maneira.

— Afinal, quem é você?

— Essa é a pergunta que deveria ter feito antes de me dar aquela resposta.

O guarda pegou o celular e enviou uma mensagem.

Menos de 5 minutos depois, o policial recebeu uma ligação.

— Sim, senhor — disse ao atender e levar o celular ao ouvido.

Fez uma pausa.

— Não, senhor.

Outra pausa.

— Por favor, senhor...

A ligação terminou.

Os dois policiais da recepção o observavam. A expressão carrancuda do chefe havia desaparecido aos poucos, dando lugar a uma seriedade sombria.

Ele baixou a cabeça.

— Soltem a mulher.

Em seguida, retirou o distintivo e a arma, entregou ambos a um dos policiais no balcão e deixou a delegacia.

Assim, sem qualquer outra explicação, havia acabado de ser demitido.

Os dois subordinados ficaram atônitos.

Um deles correu até a cela, buscou Julia e a entregou ao guarda.

— Ele acabou de fazer nosso chefe ser demitido? — perguntou o outro policial em um sussurro.

— Sim. Ele trabalha para a família Haward. Até uma empregada deles conseguiria fazer você perder o emprego — respondeu o colega, também em voz baixa.

O guarda deixou a delegacia segurando Julia pelo braço. Ela caminhava como um zumbi.

— Isso é que é ser rico, influente e poderoso — comentou um policial.

— É. Eles escapam de tudo — acrescentou outro.

— Mas eu conheço aquela garota. Como ela foi se envolver com eles? — perguntou um terceiro.

— Ela é bonita. Aposto que é amante do chefe — respondeu outro.

Do lado de fora, o guarda acomodou Julia no banco traseiro e prendeu o cinto de segurança ao redor dela.

Dirigiu por quase uma hora até chegar à cidade de Southwest Ranches. Na curva seguinte, seguiu em direção ao apartamento.

Ao chegar, tirou Julia do carro e, segurando-a pelos braços, conduziu-a até o apartamento no 6º andar. Entrou com ela na sala de estar.

Ao saber que o guarda chegara com Julia, Jason desceu a escadaria.

Encontrou os dois na sala. Julia parecia completamente alheia ao mundo. Mantinha os olhos fixos no vazio, sem qualquer expressão no rosto.

Jason a examinou com atenção e ordenou que uma das empregadas a levasse ao quarto de hóspedes que havia sido preparado para ela.

O guarda se virou para sair.

— Descubra quem assassinou a mãe dela — ordenou Jason antes de voltar para o quarto.

A empregada conduziu Julia até seus aposentos e a ajudou a se sentar na cama antes de sair.

Julia permaneceu imóvel, encarando a parede.

Mandaram comida para ela, mas não tocou no prato nem falou com ninguém.

Jason estava no próprio quarto quando ouviu uma batida à porta.

— Entre.

A empregada entrou, mas permaneceu perto da porta, mantendo uma distância respeitosa de Jason, que continuava sentado.

— Senhor... — Ela se curvou antes de prosseguir. — Ela não quer comer.

— Faz apenas um dia. Deixe-a em paz. Amanhã ela vai comer.

Com um gesto, dispensou a empregada.

Assim que terminou o que estava fazendo, Jason deixou o quarto e foi até o de Julia.

Ela continuava sentada na cama, com os olhos perdidos no vazio.

"Uma reação assim é compreensível. Ela acabou de perder a mãe de uma forma bárbara."

Apoiado no batente da porta, ele a observou por alguns instantes.

Depois, caminhou até ela e parou ao seu lado. Colocou um dedo sob o queixo de Julia e ergueu o rosto dela.

Ao encarar aqueles olhos deslumbrantes, tudo o que encontrou foi dor.

Ela sofria profundamente, mas não conseguia reagir.

Jason apertou a campainha do quarto. Uma empregada entrou às pressas.

— Faça-a se deitar e fique com ela.

Ele saiu do quarto, ciente de que, naquele estado, Julia poderia permanecer sentada até o amanhecer.

A empregada ajudou Julia a trocar de roupa e vestir algo mais confortável. Depois, conforme as instruções recebidas, fez com que se deitasse e se preparou para passar a noite no sofá do quarto.

Deitada na cama, Julia foi inundada pelas lembranças dos momentos que vivera com a mãe.

Nunca conhecera o pai e nem sequer sabia quem ele era. Sua mãe jamais falava sobre o assunto.

Sempre foram apenas as duas.

Agora, ela havia partido.

Julia estava sozinha.

Com esses pensamentos, as lágrimas voltaram a escorrer sem controle por suas bochechas.

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