Capítulo 7
Com aqueles pensamentos na cabeça, Julia não conseguiu mais conter as lágrimas. Elas escorreram pelo rosto sem parar.
— Mamãe... — chamou entre soluços.
O choro despertou a empregada, que dormia profundamente.
— Senhora, está tudo bem? — perguntou em tom sereno.
Julia não respondeu. Continuou soluçando.
A mulher se levantou do sofá e se sentou ao lado dela na cama. Julia estava deitada de lado, com a cabeça apoiada na mão. A empregada começou a acariciar suas costas com delicadeza.
— Quer conversar sobre isso?
Julia negou com a cabeça e fungou, tentando conter as lágrimas.
A empregada não parou de acariciá-la. Aos poucos, Julia conseguiu parar de chorar, mas permaneceu de olhos abertos, encarando o vazio até o amanhecer.
Quando percebeu que já era de manhã, a mulher se levantou.
— Volto já.
Ela bocejou e se espreguiçou enquanto seguia pelo corredor até a escada que levava à sala de estar. Passara a noite sentada na cama, vigiando Julia, que não dormira nem por um instante.
— Por que seus olhos estão tão vermelhos? — perguntou uma das empregadas assim que ela entrou na cozinha.
— Não consegui dormir, só isso. Não foi nada. Acho que eu estava exausta demais e, por isso, não consegui pegar no sono.
Ela sabia que as outras só estavam perguntando para terem assunto para fofocar.
Seguindo suas instruções, as empregadas prepararam o café da manhã e o serviram na sala de jantar. Ela mesma levou uma bandeja de comida para o quarto de Julia.
Ao entrar, colocou a bandeja sobre a mesa. Julia continuava na mesma posição, deitada na cama e com os olhos perdidos. A empregada suspirou, foi ao banheiro, encheu a banheira e voltou.
— Senhora, por favor, a senhora precisa tomar banho.
Julia não respondeu nem se mexeu.
A empregada se aproximou e segurou a mão dela. Só então Julia desviou o olhar em sua direção. A mulher sorriu, ajudou-a a se levantar e Julia obedeceu sem resistência.
No banheiro, ajudou-a a tirar a roupa e a entrar na banheira. Julia se sentou na água e abraçou as próprias pernas.
Apesar de não fazer ideia do que havia provocado aquele comportamento, a empregada teve muita paciência. Pegou uma esponja e deu banho nela. Depois, levou-a de volta ao quarto e a fez se sentar na cama. Escolheu um vestido no armário, secou o cabelo dela e o prendeu em um rabo de cavalo.
Ao terminar, sorriu diante da beleza da mulher à sua frente. Ainda assim, a tristeza estampada no rosto de Julia era impossível de ignorar.
— Senhora, trouxe algo para a senhora comer — disse com um sorriso.
Julia permaneceu em silêncio.
A empregada pegou a tigela de cereal e tentou alimentá-la, mas Julia não abria a boca. Continuava alheia a tudo, encarando o vazio.
Depois de várias tentativas frustradas, a mulher retirou do quarto a bandeja com a comida já fria. Deixou apenas um copo de suco fresco sobre a mesa.
— Como ela está? — perguntou Jason, que acabara de descer a escada até o corredor que ligava os cômodos.
A empregada parou com a bandeja nas mãos, a certa distância da porta de Julia.
— Senhor, ela não dormiu a noite inteira e ainda se recusa a comer.
Jason não disse nada. Seguiu até a escada que levava à sala de estar, enquanto a empregada foi atrás dele. Ele entrou na sala de jantar, e ela continuou até a cozinha.
Enquanto se servia de café, Jason pensou:
"Já faz 48 horas que ela não dorme nem come nada."
Ele ligou para Peter e colocou o celular no viva-voz enquanto tomava o café da manhã.
— Alô, chefe — atendeu Peter.
— Como está a busca pelo assassino?
— Chefe, foram ladrões armados que tentaram assaltá-la.
— Roubaram alguma coisa da casa?
— Não, chefe.
— Então sua investigação ainda não terminou. Me ligue quando tiver as respostas. Quero que encontrem o assassino.
Jason encerrou a ligação. Depois do café da manhã, atravessou a sala de estar, saiu pela porta da frente e foi trabalhar.
Mais tarde, já à tarde, Peter voltou a ligar.
— Senhor, a casa dela não era o alvo do assalto. Os ladrões passaram por lá enquanto tentavam fugir. Ela entrou no caminho deles e acabou sendo baleada.
— Onde estão os ladrões?
— Foram entregues à polícia, chefe.
— Ótimo. Certifique-se de que recebam prisão perpétua.
Jason desligou.
Peter estava em Belle Glade com outro guarda-costas, que não escondia a surpresa com a atitude do chefe. Jason não se aproximava de mulheres e tampouco se envolvia em assuntos relacionados a elas.
— Quem é essa mulher? — perguntou o outro guarda.
— Nosso chefe é um homem íntegro. O fato de manter distância das mulheres não significa que ficaria de braços cruzados ao ver algo ruim acontecer com uma delas.
Os dois entraram na delegacia onde os ladrões estavam detidos e fizeram o que Jason havia ordenado.
Jason terminou o trabalho pouco depois e deixou o escritório para voltar para casa. No caminho, ligou para Peter e pediu que cuidasse dos preparativos para o enterro da mãe de Julia.
— Como ela está? Comeu alguma coisa? — perguntou assim que entrou no apartamento.
— Não, senhor. Ela ainda não quer comer. Só fica deitada na cama, olhando para o nada — respondeu a empregada.
— Hum.
Jason seguiu para a escada que levava ao quarto. O empregado que abrira a porta para ele voltou para junto dos demais funcionários.
Ao chegar ao fim da escada, porém, Jason não virou à direita para subir o lance que levava ao próprio quarto. Em vez disso, decidiu ver como Julia estava.
Bateu à porta, mas não recebeu resposta. Ao abri-la, encontrou Julia deitada de lado na cama, com as mãos unidas sob a cabeça como um travesseiro.
Jason permaneceu parado, observando-a por alguns instantes.
— As pessoas que fizeram isso com sua mãe foram presas hoje. Elas vão pagar pelo crime.
Julia desviou os olhos para ele.
Jason mantinha a expressão fria e séria. Sem dizer mais nada, virou-se, saiu do quarto e seguiu direto para o seu.
Julia voltou a encarar o vazio. As lembranças da mãe invadiram sua mente outra vez, e as lágrimas tornaram a escorrer.
Poucos minutos depois da saída de Jason, a empregada entrou no quarto. O rosto de Julia estava vermelho e os olhos, marejados. Ao se aproximar, percebeu que ela chorava novamente.
Não sabia o que poderia levá-la a chorar daquela forma e a recusar comida, mas suspeitava que ela tivesse perdido alguém muito importante.
— Sabe, quando eu tinha 16 anos, perdi meu pai em um acidente de carro. Pouco antes de conseguirmos sepultá-lo, também perdi minha mãe. Ela não conseguia aceitar que meu pai tinha partido, e a saúde dela piorou até levá-la à morte. Durante o meu luto, meu tio me disse: "Minha criança, é uma pena o que aconteceu com seus pais, mas lembre-se de que eles não abandonaram você. Mesmo agora, estão cuidando de você lá do céu e ficarão tristes ao vê-la desmoronar. O seu sorriso e a sua decisão de seguir em frente, realizando os sonhos que eles tinham para você, vão deixá-los mais felizes."
A empregada fez uma breve pausa antes de continuar:
— Não sei o que aconteceu com a senhora, mas ficar deitada na cama sem comer só significa que foi derrotada. Onde quer que estejam, as pessoas que a senhora ama gostariam de vê-la forte e alcançando seus objetivos. Então, por favor, faça com que se sintam felizes. Deixe que vejam a senhora conquistar tudo o que gostariam que conquistasse na vida.
Julia finalmente olhou para ela e se sentou na cama.
A empregada se acomodou ao seu lado e a abraçou.
