Capítulo 2 Durma comigo.
Vladimir era um homem um pouco mais velho que Eveline. Ela tinha quase vinte e quatro anos; ele, trinta e dois. Tinha cabelos pretos, já com alguns fios brancos, olhos claros, postura alta e elegante, maxilar forte e uma covinha no queixo.
— Diga, Eveline. — disse, analisando um croqui.
— Eu sei que entrei há pouco na empresa, mas preciso de um adiantamento. Pagarei assim que puder. — Ela falou, nervosa e envergonhada.
Ainda prestando atenção ao projeto, ele perguntou:
— Hum... quanto você precisa?
— Preciso de duzentos mil. — A resposta saiu quase inaudível.
Vladimir parou o lápis com o qual fazia as anotações no projeto e levantou os olhos para ela, arqueando uma sobrancelha, surpreso.
— Duzentos mil?
— Sim. Posso pagar parcelado, se o senhor me der um prazo. — Ela respondeu, apertando as próprias mãos.
Ele a observou com curiosidade. Eveline mantinha os olhos fixos nas mãos, visivelmente tensas. Ficou olhando para ela por alguns instantes, até que ela levantou o rosto e seus olhares se encontraram.
— Se dormir comigo, eu lhe dou o dinheiro. — disse seriamente, sem desviar os olhos.
— Não estou brincando, senhor. — Ela corou.
— Eu também não. — Continuou observando-a atentamente. — Você pode pensar.
Por fim, voltou às anotações como se nada tivesse acontecido.
Envergonhada, Eveline levantou-se para sair. O caminho da cadeira até a porta pareceu uma légua. Seus pensamentos eram confusos, e o desespero era ainda maior.
Quando chegou à porta, virou-se para ele. Não havia mais ninguém a quem recorrer. Precisava daquele dinheiro. Seria a entrada do apartamento e a compra dos aparelhos de que seu filho precisava.
— Uma noite? — perguntou, sentindo um nó se formar na garganta.
— Sim. Apenas uma condição: ninguém poderá saber. — respondeu, encarando-a.
— Está bem... eu aceito. — disse, trêmula, sentindo o rosto queimar.
— Ótimo. Hoje, às dezenove horas, encontre-me no Hotel Sumatra. Mais alguma coisa? — perguntou, voltando ao trabalho, como se estivessem negociando um contrato qualquer.
— Não, senhor. — Ela respondeu antes de sair.
A primeira vez que Vladimir viu Eveline, seus olhos se encheram de curiosidade. Ela era linda. Vestia uma calça jeans e uma camiseta branca, simples, mas extremamente elegante, mesmo usando roupas tão básicas.
Haviam ligado para ele de uma obra. Os trabalhadores haviam derrubado uma das colunas mestras do apartamento, e agora toda a estrutura podia estar comprometida.
— Como vocês conseguiram fazer isso? Coloquem escoras imediatamente! Estou a caminho, chego aí em poucos minutos!
Ele dirigia o mais rápido que podia.
Seguia por uma avenida quando, ao chegar a um cruzamento, decidiu virar de última hora em uma rua vicinal, já que por ali não havia semáforos. Ao fazer a conversão, fechou o carro que vinha logo atrás. O outro motorista havia dado seta indicando que também entraria na rua, mas Vladimir não percebeu.
Por sorte, o carro era pequeno, e o motorista conseguiu evitar a colisão.
Ainda assim, o veículo parou logo à sua frente.
Vladimir sabia que estava errado e desceu disposto a pedir desculpas.
Deu alguns passos e viu uma jovem sair do outro carro.
Ela parecia muito nervosa.
Caminhou até ele gesticulando, claramente irritada. Falava sem parar, mas ele não ouviu uma única palavra.
A única coisa que enxergava eram seus olhos verdes e os lábios vermelhos.
Os olhos da garota o atraíram como uma mariposa é atraída pela luz.
Sem entender o próprio impulso, aproximou-se, segurou delicadamente seu rosto entre as mãos e a beijou.
Seu coração disparou.
Só a soltou quando sentiu as mãos dela tentando afastá-lo.
Naquele dia, Eveline também estava extremamente nervosa.
Tentava vender o carro, a única coisa que conseguira manter depois do divórcio. Arrependia-se profundamente de não ter lutado por tudo o que havia conquistado durante o casamento.
Então um estranho a fechou no trânsito...
...e a beijou no meio da rua.
No primeiro instante, foi tomada de surpresa.
Uma avalanche de emoções invadiu sua mente, e ela simplesmente perdeu a reação.
Quando voltou a si, tentou com todas as forças se livrar daquele desconhecido.
Assim que ele a soltou, ela ficou sem ar.
Queria esbofeteá-lo.
Mas, quando ergueu a mão, sentiu que algo não estava bem.
Virou-se para voltar ao carro, porém, antes mesmo de conseguir abrir a porta, tudo escureceu.
Vladimir esperava que ela voltasse a gritar com ele, e com toda razão.
Não conseguia explicar o que havia passado por sua cabeça.
Apenas a viu caminhar alguns passos.
Ela parecia muito pálida.
Ele a seguiu.
No instante em que Eveline abriu a porta do carro, desmaiou em seus braços.
Algumas pessoas assistiam à cena, já que os dois haviam parado parte do trânsito próximo a um posto de combustível.
Ainda segurando Eveline, Vladimir olhou para um funcionário do posto.
— Guarde o carro dela, por favor.
O homem concordou.
Vladimir colocou a jovem em seu carro e a levou para um hospital particular que ficava próximo dali.
Durante todo o trajeto, seu telefone tocou diversas vezes.
Ele não atendeu.
Estava irritado, mas, acima de tudo, preocupado.
Enquanto dirigia, lançava olhares para a garota inconsciente ao seu lado.
Ela era realmente muito bonita.
No hospital, dirigiu-se apressado à recepcionista.
— Rápido! Chame um médico.
Alguns minutos depois, o médico que havia examinado Eveline foi até o corredor, onde Vladimir aguardava.
— O senhor tem algum documento dela? — perguntou.
— Não. Devem ter ficado no carro. Foi um acidente, mas nem chegamos a bater. Acho que ela ficou muito nervosa. Ela tem algum problema grave?
— Não posso afirmar, mas acredito que não. A taxa de glicemia dela está baixa. Provavelmente está há horas sem comer. Não é nada grave. Colhemos sangue para outros exames e ela permanecerá em observação.
— Está bem. É um alívio. Não se preocupe com as despesas, eu arcarei com todos os custos. Tenho um assunto urgente para resolver e voltarei assim que terminar. Não a deixe ir embora antes que eu volte.
