Capítulo 7 Presença inoportuna
Ficou por alguns instantes observando as luzes da cidade pela janela. Em seguida, pegou o celular e ligou para Eveline.
Ela havia acabado de sair do banho quando viu a tela do aparelho acender sobre a pequena mesa do quarto. Aproximou-se e leu o nome que aparecia na tela.
"Chefe."
Ficou alguns segundos com o celular nas mãos, indecisa se atendia ou não. Por fim, voltou a colocá-lo sobre a mesa ao se lembrar da voz melosa da mulher que aparecera no apartamento.
O telefone ainda tocou mais algumas vezes, mas ela simplesmente o deixou ali e foi para a cama. Estava cansada demais.
Eveline acordou bem na manhã seguinte. Não sabia se era efeito do vinho, mas logo que se deitou adormeceu. Tomou banho, trocou de roupa e seguiu para o hospital.
Lá encontrou o Dr. Júlio, que estava terminando o plantão.
— Doutor! — chamou, apressando o passo para alcançá-lo.
— Bom dia, Eveline. — respondeu ele com um sorriso.
— Eu pensei bastante... Vamos fazer como o senhor sugeriu.
Apesar de falar com firmeza, a tristeza era evidente em sua voz.
— É o melhor a fazer. Vou conversar com a equipe e providenciar a transferência dele assim que for possível.
Ao notar os olhos dela cheios de lágrimas, sorriu com carinho.
— Não chore. Você é uma mãe maravilhosa e está tomando a melhor decisão para o seu filho. Vá vê-lo. Ele está acordado.
— Obrigada, doutor.
Ela entrou no quarto. Nicolas estava desperto. Em poucos dias completaria três meses de vida e, desde o nascimento, nunca saíra do hospital. Seu estado de saúde ainda era crítico, mas Eveline jamais cogitou desistir.
Visitava o filho várias vezes ao dia e, sempre que podia, passava as noites ao lado dele. Lia histórias, cantava canções e havia gravado pequenas músicas com a própria voz para que as enfermeiras colocassem durante o dia. Assim, mesmo quando precisava trabalhar, Nicolas podia ouvir sua mãe e se acalmar.
Ela aproveitou cada minuto ao lado dele. Quando olhou o relógio, percebeu que já estava na hora de ir para o escritório. Precisava trabalhar, precisava de dinheiro e não podia se dar ao luxo de perder aquele emprego.
Durante o trajeto, pensava em como conseguir mais recursos para manter o tratamento do filho. Seu salário era bom, mas as despesas eram muito maiores. Os duzentos mil reais cobririam apenas alguns meses. Antes que aquele dinheiro acabasse, ela precisaria encontrar outra forma de aumentar sua renda.
Quando chegou ao escritório, percebeu que Vladimir já estava lá e claramente não estava de bom humor. Sentou-se em sua sala e continuou organizando alguns documentos, enquanto o observava caminhar de um lado para o outro pelo corredor.
Estava tão distraída pensando em Nicolas e nas contas que precisaria pagar que se assustou quando o telefone tocou.
— Sim?
— Venha até minha sala.
A voz de Vladimir foi direta.
Ela desligou imediatamente e seguiu até lá. Não queria deixá-lo esperando, principalmente naquele humor.
Bateu à porta.
— Entre.
Ela entrou e permaneceu em pé, mantendo certa distância da mesa.
Vladimir a observou de cima a baixo com evidente desaprovação.
— Então? O que era tão importante para sair escondida da minha casa?
"Era por isso que ele estava bravo?", pensou.
— Eu não saí escondida. Você estava acompanhado, e minha presença era desnecessária. Além disso, seria inconveniente permanecer ali enquanto sua namorada estava presente.
Assim que ouviu aquelas palavras, Vladimir levantou-se e caminhou até ela. Com delicadeza, segurou seu queixo, obrigando-a a erguer o rosto.
— Ciúmes?
Eveline afastou-se imediatamente, desviando o olhar.
— Não tem nada a ver com isso.
— Não mesmo? Ela não é minha namorada.
— Não me interessa quem ela é. Você não me deve explicações.
— É verdade. Mas eu lhe dei uma ordem e você não cumpriu. Além disso, chegou atrasada hoje. Se saiu mais cedo do nosso compromisso, para onde foi? O que fez você perder a hora esta manhã?
— Eu... eu não fui a lugar algum. Tinha um compromisso. Desculpe-me pelo atraso.
— Se esse compromisso era tão importante, eu poderia ter dispensado você do trabalho hoje.
Havia um leve amargor em sua voz.
— Não havia necessidade. — respondeu educadamente.
Vladimir permaneceu alguns segundos olhando para ela. Depois voltou para a mesa.
— Pode sair.
Fingiu concentrar-se novamente no projeto que estava analisando, mas continuava chateado. Ela o deixara esperando depois de despertar nele um desejo que ainda não conseguia esquecer e, para piorar, sequer parecia arrependida.
Eveline trabalhou durante todo o dia. Estava envolvida em um grande projeto para um escritório de advocacia.
Na hora do almoço, passou rapidamente em uma lanchonete, comprou um sanduíche e seguiu para o hospital. Comeu no caminho mesmo, pois não tinha tempo para almoçar com calma. Ficou ao lado de Nicolas até o momento de voltar ao trabalho.
No fim da tarde, passou novamente pelo hospital antes de ir para casa. Tomou um banho rápido, trocou de roupa e seguiu para a faculdade.
Enquanto aguardava o início da aula, teve uma ideia. Abriu o grupo dos alunos e publicou uma mensagem oferecendo serviços de elaboração de trabalhos acadêmicos, formatação de textos e revisão de atividades. Se desse certo, passaria muitas noites sem dormir, mas precisava daquele dinheiro.
As noites no hospital haviam se tornado sua rotina. Enquanto Nicolas estava acordado, permanecia ao lado dele. Depois que o menino adormecia, estudava. Revisava projetos do escritório, fazia as atividades da faculdade de Direito e aproveitava cada minuto livre para estudar idiomas.
Muitas vezes acordava sobre um livro ou um projeto, ainda com os fones de ouvido reproduzindo aulas de inglês e mandarim.
Havia dias em que o cansaço parecia maior do que suas forças.
"Será que todo esse esforço vai valer a pena?", perguntava a si mesma.
Mas bastava olhar para o filho para recuperar a coragem. Ela acreditava que, mais cedo ou mais tarde, as coisas melhorariam.
Depois da faculdade, voltou ao hospital. Nicolas estava acordado e sorriu assim que viu a mãe. Eveline acariciou seus cabelos e começou a cantar baixinho. Uma lágrima escorreu por seu rosto. Era doloroso demais ver o filho naquela situação.
Joshua nunca quis ouvir o que ela tinha para dizer. Todas as vezes em que tentou procurá-lo, ele sequer lhe deu a oportunidade de contar que tinha um filho.
"Não me procure nem que esteja morrendo."
Aquelas palavras ainda ecoavam em sua memória.
Ela observou Nicolas adormecer tranquilamente. Parecia um anjo. Passou delicadamente a mão sobre seu rostinho.
Faria qualquer coisa por ele.
Quanto a Joshua, apenas esperava que, um dia, a vida fosse justa.
