Capítulo 1
(Ponto de vista da Harper)
— Pronto, terminou — declarou Katie, minha melhor amiga, e me virou para eu me ver no espelho de corpo inteiro. Eu soltei um suspiro ao me enxergar. Eu estava incrível, tipo, incrível mesmo. Meu cabelo castanho liso, normalmente sem graça, caía em cachos, emoldurando meu rosto e roçando meus ombros nus. Minha maquiagem era toda em tons de prata e branco, destacando meus traços, e combinava perfeitamente com meu vestido branco de renda.
— Ah, Katie, eu amei! — eu gritei, toda animada, e a abracei.
— Qualquer coisa pela aniversariante. — Ela piscou, admirando a si mesma no espelho.
— Você nunca sabe. A alcateia inteira vai estar lá hoje à noite. Seu companheiro pode ser um deles — e eu gritei de novo.
A ideia de que meu companheiro destinado poderia estar vivendo aqui na cidade, bem debaixo do meu nariz, foi o bastante para fazer arrepios correrem pela minha pele. E hoje à noite era o baile do solstício de verão. Era um grande evento, e o Alfa e a Luna da alcateia Midnight Moon faziam tudo em grande estilo. E, por coincidência, caía bem no dia do meu aniversário de dezoito anos. Quando um lobisomem completava dezoito, passava a ter a capacidade de detectar o companheiro que a deusa da lua, Diana, decidira ser seu par perfeito.
— Ah, eu espero que meu companheiro goste de mim. — De repente, fiquei preocupada. Quer dizer, eu não era ninguém especial. Minha família não tinha nenhum tipo de posição importante na alcateia, e eu não era bonita como Katie. Nem inteligente como minha outra melhor amiga, Louise, que naquele momento estava estirada na minha cama, se recusando a se arrumar para o baile.
— Por que ele não te amaria? — exclamou Katie. — Você é deslumbrante e leal. Ele teria sorte de ter você.
Louise bufou na cama, mas permaneceu em silêncio.
Katie foi até ela a passos firmes.
— E você, mocinha, precisa levantar essa sua bundinha e se arrumar. A gente sai em uma hora.
Louise lançou um olhar de lado para ela.
— Eu já disse que não vou — afirmou. — Não vejo por que eu tenho que me enfeitar para os cachorros tarados desta cidade ficarem me apalpando na esperança de enfiar a mão na minha calcinha.
Louise acreditava firmemente em igualdade e achava que os postos da alcateia favoreciam o patriarcado, e que o conceito de companheiros destinados era controle mental sobrenatural; ela vivia declarando que planejava rejeitar o companheiro dela se e quando o conhecesse. Ela deixava suas opiniões bem claras, alto e com frequência. Eu suspeitava que ela já teria sido expulsa da alcateia se o pai dela não fosse o Gamma.
— Louise, é meu aniversário — eu fiz minha melhor voz manhosa. — Por favor, vem e passa comigo.
Louise olhou para mim e fez uma careta.
— Tá bom — cedeu. — Mas não espere que eu me divirta.
— Ah, a gente nem sonharia com isso — disse Katie, sarcástica. — Agora levanta e se arruma, madame.
Quarenta e cinco minutos depois, nós três estávamos lá embaixo, na minha salinha, com a minha mãe tirando fotos nossas e meu pai me dizendo como eu estava bonita. Todo mundo estava pronto, menos uma outra pessoa. Olhei em volta.
— Cadê o Tommy? — Minha mãe revirou os olhos, e meu pai franziu a testa.
— Provavelmente arrumando confusão — ele resmungou.
— Ah, querido irmão, você me fere com suas palavras. — Meu tio Tommy entrou usando um smoking preto e camisa branca. Ele era o irmão bem mais novo do meu pai. Na verdade, ele era só um ano mais velho do que minha irmã Susie, que já não morava mais com a gente. Ela tinha encontrado o companheiro dela na alcateia Star Dawn e se mudado para lá quase um ano atrás.
Tommy olhou para nós e assobiou. “Caramba, meninas, vocês estão lindas hoje à noite.” Revirei os olhos. Tommy tinha aquela vibe de bad boy à la James Dean, e as garotas da nossa matilha enlouqueciam com isso. Uma das mais loucas é minha amiga Katie. Aquela diferença de idade era simplesmente assustadora. Mas Katie tinha declarado que ela e Tommy eram companheiros destinados, e aguardava com ansiedade o aniversário de dezoito anos para confirmar.
“Tá, vamos colocar esse show pra andar”, ele anunciou. Tommy era o nosso motorista da vez, enquanto meus pais iriam no próprio carro até a casa da matilha. O trajeto era de uns cinco minutos e, pouco depois, entramos no grande salão da casa da matilha. Estava deslumbrante, decorado com tecidos prateados e pretos caindo do teto, e velas de chá brancas e lanternas conduzindo até os jardins dos fundos, onde a pista de dança tinha sido montada.
Tommy abriu os braços. “Damas, posso escoltá-las até o baile?”, disse, num tom falsamente cavalheiresco. Katie deu uma risadinha e se agarrou a um dos braços dele, e ele olhou com expectativa para Louise, que apenas o fulminou com o olhar e saiu pisando duro na frente. Notei o breve lampejo de mágoa atravessar o rosto de Tommy antes de o charme suave voltar a ocupar o lugar.
“Vamos, minha linda sobrinha, vamos ver se conseguimos encontrar o seu príncipe encantado.” Sorri, enlacei meu braço ao dele e entramos na festa.
Conseguimos dançar algumas vezes antes de o Alfa Daniel Chambers fazer um discurso sobre aquela época do ano. Ele falou sobre o equilíbrio da dualidade, o que rendeu um comentário alto e sarcástico de Louise, que foi prontamente puxada para fora do salão pelo Gama. Todo mundo, inclusive o Alfa, riu. Já estavam acostumados com Louise.
Quando o Alfa estava chegando ao fim do discurso, ouvi um barulho atrás de mim e vi Damien, o filho do Alfa, entrando com seu grupo de sempre, andando com aquela calma insolente. Claro que estavam atrasados, porque podiam se dar ao luxo de estar atrasados. Revirei os olhos e voltei minha atenção para o palco quando alguma coisa me parou.
Ali estava: o cheiro mais bonito que eu já tinha sentido. Aspirei de novo, e meus sentidos foram atingidos por aquele aroma intenso de folhas de pinheiro e fogo rústico, e eu soube, naquele instante, que meu companheiro destinado estava em algum lugar ali. E minha loba estava surtando na minha cabeça, implorando para eu ir encontrar meu companheiro. Mas eu não podia sair enquanto o Alfa falava. Era desrespeitoso e motivo para punição.
O cheiro era tão forte que eu mal conseguia me concentrar nas palavras do Alfa, e eu estava com a sensação de que ia desmaiar. Então senti pessoas se espremendo por trás. Virei e quase rosnei quando empurraram, entrando bem entre mim e Katie. Quando vi que era Damien, o herdeiro do Alfa, abaixei a cabeça em submissão e torci para ele não notar meu olhar quase selvagem.
Tentei respirar apesar do cheiro. Eu não tinha certeza se ia conseguir aguentar aquilo quando senti a mão de alguém no meu braço, e o toque fez uma eletricidade correr por mim, forte o bastante para me arrancar um suspiro, e alguma coisa despertou dentro de mim. Fechei os olhos ao sentir a mão deslizar pelo meu braço e, fosse quem fosse, ele enfiou a mão na minha, entrelaçando nossos dedos e apertando de leve.
“Respira, Moranguinhos…”, uma voz rouca sussurrou no meu ouvido, e eu puxei o ar fundo. Eu sentia o hálito dele na minha orelha quando ele murmurou: “Abre os olhos, deixa eu te ver, companheira.”
Tremendo, abri os olhos e encarei o dono daquela mão. Um rosto inacreditável surgiu diante de mim. Ó minha deusa… como pode ser ele?
