Capítulo 2 1
Capítulo 1 — A Dívida
Marcela narrando
Cinco anos antes...
Acordei assustada com o barulho de alguma coisa caindo na cozinha. Por alguns segundos, permaneci deitada, olhando para o teto do meu pequeno quarto, tentando entender de onde vinha o som.
Então ouvi a voz do meu pai.
— Marcela!
Fechei os olhos por um instante.
— Marcela, meu café!
Olhei para o relógio sobre o criado-mudo. Eram cinco da manhã.
Soltei um suspiro e me levantei. Peguei meu roupão e saí do quarto, caminhando pela casa ainda escura.
Assim que entrei na cozinha, o cheiro de bebida e cigarro me atingiu.
Meu pai estava sentado à mesa, com os olhos vermelhos e uma expressão fechada.
— Bom dia.
Ele sequer respondeu.
— Anda logo com esse café. Estou esperando.
Engoli a resposta que queria dar e comecei a preparar tudo.
Desde que minha mãe morreu, aquela casa havia perdido completamente a alegria.
Ela tinha sido minha melhor amiga, a pessoa que fazia aquela pequena casa do interior parecer um lugar especial. Quando ela morreu de câncer, eu achei que meu pai e eu conseguiríamos seguir juntos.
Mas não foi o que aconteceu.
Meu pai se perdeu.
Começou a beber cada vez mais, depois vieram as drogas e, pouco a pouco, ele deixou de ser o homem que eu conhecia.
Como havia sido policial durante muitos anos, recebia uma aposentadoria todos os meses. Porém, boa parte daquele dinheiro desaparecia em bebida e drogas.
Eu tentava fazer o possível para manter a casa funcionando.
Cuidava da limpeza, preparava as refeições e tinha uma pequena horta no terreno. Vendia verduras e alguns legumes para os vizinhos. Não era muito dinheiro, mas era o suficiente para comprar minhas coisas e ajudar nas despesas.
Eu também havia abandonado a escola.
A escola ficava muito longe e, depois que minha mãe morreu, não havia quem pudesse cuidar da casa além de mim. Eu estava no segundo ano do ensino médio quando precisei parar.
Aquilo ainda doía.
Minha mãe sonhava em me ver formada.
Eu também sonhava.
Mas alguns sonhos precisam esperar quando a vida decide ser cruel.
Terminei de preparar o café e coloquei a xícara diante do meu pai.
— Está aqui.
Ele começou a comer sem sequer olhar para mim.
Voltei para o quarto, troquei de roupa e coloquei minhas botas. Quando passei novamente pela sala, percebi que meu pai havia adormecido.
Peguei a vassoura e comecei a limpar a área da frente da casa.
O sol começava a nascer quando ouvi o barulho de um carro se aproximando.
Parei de varrer.
Um carro preto, bonito demais para aquela região, parou diante do nosso portão.
Meu coração bateu mais forte.
A porta se abriu e um homem alto saiu.
Ele usava uma camisa social, calça escura e óculos de sol. Caminhou até o portão e tirou os óculos quando chegou perto de mim.
— Bom dia.
— Bom dia — respondi, segurando a vassoura. — Posso ajudar?
Ele me analisou por alguns segundos.
— Estou procurando Mateus. Ele mora aqui, não é?
— É meu pai. Quem é o senhor?
— Roberto Antunes. Trabalhei com ele na delegacia.
Meu corpo ficou tenso.
Eu conhecia aquele nome.
Meu pai já havia mencionado Roberto algumas vezes, sempre quando falava sobre dinheiro e dívidas.
— Meu pai está dormindo — falei. — Ele chegou muito tarde. Talvez seja melhor o senhor voltar outra hora.
Roberto sorriu de lado.
— Eu posso esperar.
Ele abriu o portão.
Foi então que percebi a arma presa à sua cintura.
Meu coração disparou.
— Eu já disse que ele está dormindo.
— E eu disse que posso esperar.
Ele entrou.
— Onde fica a sala?
Apontei para dentro da casa.
— Primeiro cômodo à esquerda.
— Obrigado.
Ele entrou como se aquela casa fosse dele.
Eu fiquei parada por alguns segundos, sem saber o que fazer.
Havia algo naquele homem que me assustava.
Não era apenas a arma.
Era a tranquilidade.
Ele parecia ter certeza de que ninguém naquela casa poderia impedi-lo.
Entrei atrás dele.
Roberto se sentou no sofá.
— Sente-se.
— Eu prefiro ficar em pé.
Ele me encarou.
— Como é seu nome?
— Marcela.
A expressão dele mudou ligeiramente.
— Marcela...
Ele parecia tentar lembrar de alguma coisa.
— Você é filha do Mateus, não é?
— Sou.
— Eu conheci sua mãe.
Meu peito apertou.
— Conheceu?
— Sim. Lembro de quando você era pequena. Eu ainda trabalhava na delegacia naquela época.
Não respondi.
Eu só queria que ele fosse embora.
Então ouvi carros parando do lado de fora.
Meu coração afundou.
Corri até a janela.
Dois veículos haviam estacionado em frente à casa.
Homens desceram deles.
Todos estavam armados.
— Meu Deus...
Roberto se levantou tranquilamente.
— Parece que chegou a hora de conversar com seu pai.
— Por favor, não façam nada.
— Eu só quero receber o que ele me deve.
— Nós não temos dinheiro.
Ele me olhou.
— Seu pai recebe aposentadoria todos os meses.
— Ele não tem mais.
Roberto soltou uma risada sem humor.
— Bebida e drogas?
Baixei os olhos.
— Ele ficou destruído depois que minha mãe morreu.
— Isso não é problema meu.
Roberto fez um sinal.
Os homens entraram na casa.
— Não!
Tentei impedir, mas um deles bloqueou meu caminho.
Poucos segundos depois, ouvi meu pai gritar do quarto.
— Quem são vocês?
Os homens o trouxeram até a sala e o jogaram no sofá.
Meu pai levantou os olhos e, quando viu Roberto, ficou pálido.
— Você...
Roberto se aproximou.
— Quanto tempo, Mateus.
— Eu não tenho como pagar.
— Você fala isso há anos.
— Eu não tenho dinheiro!
Roberto apontou para a casa.
— Então venda tudo.
— Essa casa não vale o suficiente.
— Não me interessa.
Meu pai passou as mãos pelo rosto.
— Me dê mais tempo.
Roberto balançou a cabeça.
— O tempo acabou.
Eu estava atrás do sofá, tremendo.
— Pai...
Meu pai olhou para mim.
Por um instante, pensei que ele iria me proteger.
Mas então ele disse:
— A única coisa que eu tenho é essa casa... e minha filha.
Meu coração parou.
— Pai...
Roberto me encarou.
Depois voltou a olhar para ele.
— Sua filha?
— Não! — falei imediatamente. — Pai, não fala isso!
Meu pai desviou o olhar.
— Eu não quis dizer...
— Você acabou de dizer — Roberto respondeu.
Ele fez um sinal para os homens.
— Levem ela.
Meu sangue gelou.
— Não!
Tentei correr, mas dois homens me seguraram.
— Me solta!
Debati-me com todas as minhas forças.
— Pai! Pai, por favor!
Meu pai permaneceu parado.
— Não deixa eles me levarem!
As lágrimas começaram a cair.
— Pai!
Ninguém respondeu.
Fui arrastada para fora da casa.
— Me solta!
Cheguei ao carro ainda tentando escapar, mas não consegui.
Um dos homens abriu a porta e me colocou no banco traseiro.
— Não! Por favor!
Olhei desesperadamente para a casa.
Meu pai apareceu na porta.
Nossos olhos se encontraram.
— Pai!
Ele não veio até mim.
Não tentou impedir.
Não fez absolutamente nada.
O carro começou a andar.
— Pai!
Minha voz desapareceu enquanto o veículo se afastava.
Continuei olhando pela janela até a casa desaparecer completamente da minha vista.
Naquele momento, entendi que minha vida havia mudado para sempre.
Eu não estava indo embora por vontade própria.
Eu não havia cometido crime algum.
Não devia dinheiro a ninguém.
Mesmo assim, estava sendo levada para pagar uma dívida que não era minha.
E, enquanto o carro seguia por uma estrada que eu não conhecia, uma única pergunta martelava em minha cabeça:
Para onde estavam me levando?
