Capítulo 4 Ela deve medir menos de 1,50 II
“It ain't no joke I'd like to buy the world a toke
Teach the world to sing in perfect harmony
And teach the world to snuff the fires and the liars
Hey I know it's just a song but it's spice for the recipe”
O inglês dela faria um professor morrer ali mesmo, infartado. Um tradutor passaria a vida tentando entender o que ela dizia, jamais conseguindo traduzir.
Me olhou e começou a balançar meus ombros, como se me conhecesse a vida inteira:
- Vamos lá, você não é um cabide.
Cabide? Como assim eu não era um “cabide”?
Fiquei sério, irredutível, com o corpo feito rocha para que ela não conseguisse me mover.
- Ah, vamos lá, Cabide! – Ela insistiu, tocando na minha barriga e tentando me fazer cócegas.
Clara! Aquele era o nome daquela doida, que ouvi a amiga dela chamando.
Pablo veio me salvar das mãos dela e se pôs na minha frente, pegando sua cintura e seguindo o ritmo de dança da louca que certamente havia fugido do sanatório.
- Eu nunca beijei um uruguaio. – Ela lhe disse, enquanto se jogava para trás, grudando o corpo ao do “paraguaio”.
- Entonces pruébalo. Es muy bueno.
Pablo não iria corrigi-la, deixando claro que não era uruguaio e sim paraguaio? Eu já tinha dito para ela, que fingiu não entender. E falei em Português. Ou será que ela também não entendia Português?
Me sentei, enquanto ela seguia dançando com Pablo e cantando tudo errado, me dando nos nervos. Eu fazia curso de Inglês, modo avançado, e ouvir uma pronúncia daquelas me deixavam completamente maluco.
Logo a música acabou e ela deu um jeito de dispensar Pablo, sentando ao meu lado e retirando a sandália, como se estivesse em casa.
Não sei que parte eu perdi e o que fiquei fazendo, mas quando vi Marcos tinha ficado com uma das amigas dela e o outro amigo nosso com a mais alta. Sobramos eu, ela, Pablo e a morena de cabelos escuros, que parecia não estar muito feliz ali.
- Estou morta de dor nos meus pés. – Ela me disse – Não fiquei com o seu amigo uruguaio porque meio que eu tenho um namorado.
- O que é “meio” que ter um namorado?
- Tipo, a gente fica junto sempre que se vê. – Levantou os ombros, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
- Então não são “meio” namorados. São “namorados”.
- Não, porque a gente não se vê sempre... Então também ficamos com outras pessoas.
Ok, agora estava comprovado: ela tinha sério distúrbios mentais e psicológicos.
- Ah, eu amo esta música também! – Mencionou quando começou a tocar “The Way, do Fastball”
Logo começou a cantarolar daquele jeito esquisito e errado, enquanto se recostava no sofá do camarote, fechando os olhos.
- Você sabe o que está cantando? – Tive que perguntar para entender o que se passava na cabeça dela.
- The Way? – Respondeu com o nome da música, virando o rosto na minha direção, abrindo os olhos preguiçosamente.
- A música que você cantou antes era uma apologia à cocaína. – Expliquei.
- Qual delas? Eu cantei tantas...
Ela pouco se importava.
- Por que me chamou de “cabide”?
- Seus ombros são muito largos. Parecem um cabide.
Toquei meus ombros, sentindo-os. Não, eles não pareciam cabides!
- Pega uma lagoa azul para mim. – Mandou, sem mexer a cabeça, parecendo cansada.
- Por que eu faria isto?
- Porque eu não posso pegar. – Me mostrou o carimbo no pulso, que mostrava que era menor de idade.
- Achei que você já tivesse 18.
- Sim, depois da meia noite. O filho da puta do segurança me carimbou e disse que eu só poderia beber depois da meia noite.
- Então você só pode beber depois da meia-noite. Simples assim. Teoricamente ainda tem 17.
- Pega para mim, vai! Pode ser seu presente de aniversário para mim.
Mostrei o carimbo no meu pulso, igual ao dela, escrito “menor de 18”.
- Entendi que era o seu aniversário, garoto! – Ela riu, levantando a cabeça.
- E é. Daqui há um mês.
- Então o camarote era para ser meu! – balançou a cabeça – Vou assoprar as velas do bolo e comer todo sozinha. – Gargalhou.
- Por mim... Tudo bem. É só um bolo.
- Estou brincando, Cabide – deu um soquinho no meu ombro – Deixo você assoprar as velinhas comigo. Desculpe eu estar sendo um pé no saco hoje, mas eu fico mais divertida depois que bebo, juro. E sem contar que estou um pouco chateada porque o Jason realmente não vai vir.
- Ainda nem é meia-noite. Talvez ele venha. – Até fiquei com pena dela.
- Se não vir, problema é dele. Vou beijar um uruguaio. – Olhou para Pablo, que desaparecia entre a multidão, entrando na pista.
Meu dó foi embora! Que Jason não viesse! Até porque, não perderia nada. Ela estava ali feito uma morta viva. E nem tinha bebido.
- Na verdade eu gosto de ficar com Jason. Mas eu não gosto “do Jason”.
Meu senhor, ficava cada vez pior.
E não é que Pablo estava ouvindo a conversa e trouxe a Lagoa azul para a doida? Álcool para uma pessoa que já não tinha uma cabeça 100% certamente era um erro.
- Meu Deus, Pablo! Arriba lá revolución! – Gritou, chamando a atenção de algumas pessoas que estavam próximas.
- Arriba lá revolución! – Pablo gritou, rindo, brindando com ela com sua garrafa de cerveja.
Os dois beberam. Ela sentou novamente, entre mim e Pablo.
- Isto é muito bom. – Falou, fechando os olhos e bebendo de canudo todo o conteúdo do copo, de uma só vez.
- Creo que es curaçao blue y Sprite. – Pablo sugestionou - ¿Cuál es tu nombre?
- My name is Clara. – Ela disse bem devagar, para caso ele não entendesse.
- “The books on the table”. – Não pude me conter, enquanto olhava para Pablo.
- Fuck you. – Ela me mostrou o dedo do meio.
Ela mandou eu me foder? Palavrão pelo visto a doida sabia bem em qualquer língua.
