Capítulo 2 Capítulo 2

Violet

Eu queria agradecer a ele, mas minha garganta secou. Ainda bem que as sirenes começaram a tocar lá fora e os paramédicos invadiram o lugar.

Vi quando ele parou uma das enfermeiras, apontou na minha direção, fez um aceno breve e saiu dali com o rogue.

— Senhorita, você está sangrando. — Ouvi a enfermeira dizer enquanto me ajudava delicadamente a sair do meu esconderijo.

— Graças a Deus você está bem — ouvi Nate soltar um suspiro de alívio enquanto vinha correndo na minha direção, com Nicole logo atrás dele.

— Você está machucada. Vamos te levar pro hospital — Nate acrescentou, a voz cheia de preocupação, os olhos indo direto pro meu ombro esquerdo.

Três horas depois, sentada no hospital da matilha, depois que o médico enfaixou meu braço, Nate perguntou:

— Está se sentindo melhor agora?

Eu quase comemorei aquelas palavras simples.

Era o jeito mais suave que ele tinha falado comigo em meses, e o olhar dele nunca tinha demorado tanto tempo em mim.

— Eu nem estaria machucada se você não tivesse escolhido a sua amiga de infância em vez de mim. — Não consegui me impedir de dizer o óbvio.

Mas ele só deu de ombros.

— Você foi treinada pra lutar desde criança, lembra? Já a Nicole… ela não consegue machucar nem uma mosca.

Senti um calorzinho bom por ele ter me elogiado e ainda dar uma cutucada na Nicole na mesma frase.

— E se o rogue tivesse me atacado? — pensei em voz alta, na esperança de ouvir mais alguma palavra de conforto dele.

Ele ia me responder quando o celular vibrou, e eu vi o nome de quem estava ligando.

Nicole.

Ah, deusa, por que ela de novo?

Ele atendeu na mesma hora, e eu forcei o ouvido pra tentar escutar a conversa.

— Quero conversar sobre uma coisa, Nate. Você pode, por favor, vir me encontrar?

Achei que Nate fosse recusar com educação, mas ele já tinha saído do hospital.

— Dói, né? — Rain, minha loba, perguntou quando ouvimos o som inconfundível do motor do carro dele dando a partida.

— Foi só um arranhão, Rain — respondi, mas nós duas sabíamos que não era desse tipo de dor que ela estava falando.

A manhã chegou rápido demais.

A luz do sol filtrava pelas persianas enquanto eu tentava sentir uma presença familiar ao meu lado.

— Ele não voltou a noite inteira — Rain respondeu a pergunta que eu nem tinha feito em voz alta. Aquelas palavras doeram mais do que a faixa apertada em volta do meu braço.

Mesmo assim, forcei minhas pálpebras pesadas a se abrirem e olhei pro lado. A cadeira estava vazia, e o lado da cama, gelado.

O silêncio apertava meu peito, me sufocando. Eu não era estranha à solidão nem ao silêncio, mas agora parecia uma arma me cutucando, me machucando exatamente onde doía mais.

A porta do quarto do hospital se abriu, e o médico entrou, sorrindo pra mim.

— Que bom ver que você está acordada. Seus sinais vitais estão bons. Só evita fazer esforço por alguns dias, tá?

Assenti e fui me empurrando devagar até ficar sentada, enquanto ele rabiscava no bloco de notas.

— O alfa Nate passou aqui? — perguntei, hesitante.

— Pelo que eu sei, ele está em reuniões seguidas o dia todo.

Claro que ele estava trabalhando. Ele estava sempre trabalhando.

— Obrigada, doutor — murmurei, num fio de voz, enquanto ele trocava o meu curativo.

Tentei não deixar que a velha pontada de dor voltasse a aparecer no meu rosto. Também não tive coragem de perguntar se ele tinha conferido com o médico como eu estava.

Ele se afastou pouco depois, me deixando sozinha com meus próprios pensamentos.

— O trabalho é mais importante que você, pelo visto — a Rain falou, afiada.

— Você sabe que ele tem uma alcateia pra comandar, Rain. A nossa alcateia — insisti.

Ela só bufou.

— É. Ele tem tempo pra tudo, menos pra você. E você é cega demais pra enxergar isso, o que me dá enjoo. Então, a partir de hoje, o Nate tem, no máximo, três chances. Se ele estragar as três — e eu sei que vai —, a gente vai largar esse trouxa.

— A gente já viveu momentos maravilhosos juntos, Rain. O nosso amor merece mais do que três chances — respondi, desesperada.

— Ele já gastou uma. — A Rain não se deixou convencer, mas eu me agarrei àquela esperança como se fosse minha última saída.

Sem vontade de discutir mais com ela, resolvi pegar um ar e saí assim que recebi alta.

Mal tinha aproveitado um segundo da brisa fresca quando meu celular vibrou de novo. Ainda bem que era minha mãe ligando.

— Fiquei sabendo do ataque hoje no café e lembrei como você tava toda empolgada com o encontro. Como foi? Espero que você esteja bem — ela perguntou, a voz carregada de preocupação.

Eu menti.

— Eu… tô bem, mãe. Só uns arranhões.

Mas ela percebeu que eu tinha evitado responder a pergunta dela por completo.

— Estar bem não é o mesmo que estar feliz, Violet. Eu realmente me pergunto como a minha menina inteligente se apaixonou por alguém tão idiota.

— Mãe! — gemi, percebendo que ela ia me dar sermão de novo.

— O Nate não vale o seu tempo nem o seu amor. Várias pessoas viram ele com uma garota qualquer e me contaram, mas eu queria ouvir de você. O seu silêncio provou que eu tava certa o tempo todo.

— Mãe, o Nate não é assim… — comecei, mas ela me cortou, dura.

— Até hoje ouço o seu pai no meu ouvido porque apoiei a sua decisão de namorar aquele perdedor. Mas eu não consigo ver minha filha desperdiçar a vida assim. Além do mais, tem uma guerra batendo na nossa porta.

— Como assim? O que está acontecendo? — franzi a testa, sentindo uma pontada de culpa por estar tão mergulhada na minha própria vida a ponto de ficar completamente alheia ao que estava acontecendo em casa.

— É mais uma crise política, querida. A gente precisa garantir uma aliança logo e, embora eu não goste de dizer isso, casamento é uma boa forma de conseguir isso.

— Você vai abandonar o pai bem no meio da crise? — brinquei, mesmo sabendo muito bem que ela estava falando de um casamento político entre mim e algum herdeiro alfa com quem eles quisessem firmar aliança.

— Vou te mandar uma foto e os detalhes. Dá uma olhada… — ela começou, mas eu desliguei depressa quando vi alguém se aproximando.

— Oi, Violet, eu soube do incidente no café e pensei em vir te visitar. — Linda, uma das fêmeas de alta patente do círculo íntimo do Nate, sorriu pra mim.

— É, eu tô bem. Obrigada pela preocupação — respondi, e já ia me virar para ir embora, mas a pergunta seguinte dela me fez parar.

— Vocês dois, pombinhos, não se cansam um do outro, né?

— Não sei se entendi — respondi.

O que estava acontecendo?

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