Capítulo 1 O Homem Que Não Devia Existir
Helena sempre odiou festas corporativas.
Muito brilho. Muito sorriso falso. Muito perfume caro tentando esconder ambição barata.
Ela ajustou o vestido preto ao corpo — elegante, discreto, estratégico. Estava ali por trabalho. Apenas trabalho. O maior cliente do escritório estaria presente, e aquela era a chance de fechar o contrato que poderia mudar sua carreira.
Nada a desviaria do foco.
Ou pelo menos era o que ela pensava… até sentir aquele olhar.
Não foi imediato. Foi como uma corrente elétrica percorrendo sua pele. Um arrepio lento, consciente. Helena virou o rosto instintivamente — e o viu.
Encostado próximo à varanda, longe do centro das atenções, estava ele.
Terno escuro. Postura relaxada demais para alguém importante. Um copo de uísque na mão. E aqueles olhos.
Fixos nela.
Não era admiração. Não era curiosidade. Era reconhecimento.
Helena sustentou o olhar por alguns segundos — tempo suficiente para perceber que aquele homem não era comum. Havia algo nele que não combinava com o ambiente sofisticado. Algo bruto sob a superfície polida.
Ela desviou primeiro.
Ridículo, pensou. Você não é adolescente.
Mas quando voltou a conversar com o cliente, percebeu que não conseguia mais se concentrar. Seu corpo estava alerta, como se estivesse sendo observado por um predador paciente.
— Você está distraída, doutora Helena — comentou o cliente, rindo.
— Apenas cansada — ela respondeu, profissional.
Mentira.
Minutos depois, decidiu ir até a varanda para respirar. Precisava recuperar o controle.
O ar noturno estava fresco. A cidade brilhava abaixo como um tapete de estrelas artificiais. Helena fechou os olhos por um instante.
— Você não deveria estar aqui.
A voz veio atrás dela. Grave. Baixa. Perigosa.
Seu coração disparou.
Ela virou lentamente.
Era ele.
De perto, era ainda mais impressionante. Traços marcantes. A barba por fazer perfeitamente calculada. O perfume amadeirado que parecia envolver o ar ao redor.
— Perdão? — Helena ergueu o queixo, firme.
Ele deu um passo à frente. Não invadiu seu espaço… mas chegou perto o suficiente para que ela sentisse o calor do corpo dele.
— Essa festa — ele disse, olhando para dentro do salão — é cheia de pessoas que sorriem enquanto planejam destruir umas às outras. Você não parece pertencer a esse tipo de jogo.
— E você pertence? — ela retrucou.
Um leve sorriso surgiu nos lábios dele. Não era gentil. Era… interessado.
— Eu sou o jogo.
O silêncio que se seguiu foi denso.
Helena deveria rir. Deveria ir embora. Deveria ignorar aquele homem arrogante que falava como se comandasse o mundo.
Mas não conseguiu.
— E qual é o seu nome? — perguntou, contra toda lógica.
Ele a observou por um longo segundo antes de responder.
— Dante.
Só isso.
Sem sobrenome. Sem explicações.
— Só Dante? — ela provocou.
— É o suficiente.
Ela cruzou os braços, tentando esconder o efeito que ele causava.
— E por que exatamente eu não deveria estar aqui… Dante?
Os olhos dele escureceram levemente.
— Porque alguns homens lá dentro já perceberam que você é inteligente demais. E homens inseguros odeiam isso.
Helena sentiu o estômago apertar. Ele estava certo.
— Está me espionando?
— Estou protegendo você.
Ela soltou uma risada curta.
— Não preciso de proteção.
Ele inclinou o rosto, aproximando-se mais um centímetro.
— Todo mundo precisa. A diferença é que nem todos sobrevivem para admitir.
A tensão entre os dois era quase palpável. O ar parecia pesado. Carregado.
Helena percebeu que estava prendendo a respiração.
— Você fala como se soubesse de algo que eu não sei.
— Eu sei muitas coisas.
Antes que ela pudesse responder, vozes se aproximaram da varanda. Dois homens surgiram na porta, encarando Dante com desconforto evidente.
— Precisamos conversar — disse um deles, sério.
Dante não tirou os olhos de Helena.
— Outra hora.
— É urgente.
Por um breve instante, algo mudou na expressão dele. Frieza. Cálculo.
Ele finalmente se afastou.
— Vá para casa — disse a ela, quase como uma ordem. — E não aceite carona de ninguém.
— Isso é algum tipo de ameaça?
— É um conselho.
Dante caminhou de volta ao salão, deixando atrás de si o cheiro do perfume e uma sensação inquietante.
Helena ficou ali, parada.
Ela deveria ignorá-lo.
Mas, no fundo, sabia que aquele não tinha sido um encontro casual.
Era o início de algo.
Algo perigoso.
E pela primeira vez em muito tempo…
Ela estava com medo.
E fascinada.
