Capítulo 2 Sombras Reveladas

Helena não dormiu naquela noite.

A imagem de Dante permanecia viva demais em sua mente. A forma como ele falava. A segurança na voz. O aviso.

Não aceite carona de ninguém.

Era absurdo o quanto aquilo ecoava.

Às sete da manhã, ela já estava no escritório, tentando se concentrar nos processos acumulados. Mas sua atenção foi interrompida quando seu celular vibrou com uma notificação de notícia.

Empresário investigado por envolvimento em lavagem de dinheiro é encontrado morto.

Helena franziu a testa.

O nome do empresário era um dos convidados da festa da noite anterior.

Seu estômago gelou.

Ela abriu a matéria rapidamente. Poucas informações. Corpo encontrado em um estacionamento privado. Polícia investigando. Nenhum suspeito.

Mas o que realmente a incomodava era outra coisa.

Dante conversara com aquele homem na varanda… antes de falar com ela.

Coincidência?

Ou aviso?

Antes que pudesse organizar os pensamentos, alguém bateu na porta de sua sala.

— Dra. Helena, tem alguém pedindo para vê-la — disse a secretária, visivelmente nervosa.

— Quem?

— Ele não quis se identificar.

O coração dela acelerou.

— Pode mandar entrar.

A porta se abriu lentamente.

E lá estava ele.

Dante parecia ainda mais imponente à luz do dia. Camisa social preta, mangas levemente dobradas, olhar atento como se analisasse cada detalhe da sala.

— Você tem o péssimo hábito de aparecer sem avisar? — Helena perguntou, tentando manter a compostura.

Ele fechou a porta atrás de si.

— Você leu a notícia.

Não era uma pergunta.

Ela cruzou os braços.

— Está me seguindo?

— Estou garantindo que você esteja segura.

Helena se levantou.

— Um homem aparece na minha frente dizendo que eu estou em perigo. Horas depois, alguém com quem ele discutiu aparece morto. E você quer que eu acredite que isso é coincidência?

Dante deu dois passos à frente. Não agressivo. Mas firme.

— Eu não matei ninguém.

— Mas sabia que algo aconteceria.

O silêncio dele confirmou mais do que qualquer palavra.

Helena sentiu a raiva misturada ao medo.

— Quem é você de verdade?

Dante a observou por alguns segundos antes de responder.

— Meu sobrenome é Moretti.

O nome atingiu Helena como um choque.

Ela conhecia aquele sobrenome. Todos conheciam. Império empresarial. Investigações abafadas. Rumores de conexões com o submundo financeiro.

— A família Moretti está envolvida em escândalos há anos — ela disse, a voz baixa.

— Minha família está envolvida em poder — ele corrigiu.

Ela engoliu seco.

— E mortes fazem parte desse poder?

Os olhos dele escureceram.

— Às vezes, para sobreviver, você precisa jogar sujo.

Helena se aproximou, encarando-o de frente.

— Eu não faço parte desse mundo.

— Ainda não.

O ar entre eles ficou pesado.

— Por que eu? — ela perguntou.

Pela primeira vez, Dante pareceu vulnerável.

— Porque você é a única coisa naquela sala que não estava à venda.

O coração dela falhou uma batida.

Mas antes que pudesse responder, seu celular tocou novamente.

Número desconhecido.

Ela atendeu.

— Dra. Helena… — a voz masculina do outro lado era fria. — Aconselho que se afaste de Dante Moretti. Ele destrói tudo o que toca.

A ligação caiu.

O silêncio tomou conta da sala.

Dante já estava tenso, os punhos fechados.

— Quem era? — perguntou, controlado demais.

— Alguém que parece concordar com você.

Ele passou a mão pelos cabelos, claramente irritado.

— Eles já sabem.

— Eles quem?

— Pessoas que não querem que você esteja perto de mim.

Helena sentiu o medo se infiltrar de verdade agora.

— Então é verdade. Eu estou em perigo.

Dante se aproximou lentamente.

— Sim.

Ele segurou o rosto dela com cuidado inesperado.

— E a única maneira de eu proteger você… é mantendo você perto de mim.

Helena deveria afastá-lo.

Deveria expulsá-lo da sala.

Mas seu corpo reagia de forma diferente da razão. A proximidade. O calor. A tensão elétrica entre eles.

— Isso não é proteção — ela sussurrou. — Isso é prisão.

Ele inclinou o rosto, os lábios a milímetros dos dela.

— Confie em mim.

— Por quê?

— Porque, se eu quisesse machucar você… já teria feito.

O coração dela disparou.

E então, contra toda lógica, contra todo instinto racional…

Ela o beijou.

Não foi suave.

Foi intenso. Urgente. Como se ambos soubessem que estavam cruzando uma linha sem volta.

Mas naquele exato momento, do outro lado da rua, dentro de um carro preto estacionado…

Alguém observava.

E sorria.

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