Capítulo 4 Sangue Não É Lealdade
O nome Bastiani ainda ecoava na mente de Helena quando Dante a levou para fora do escritório.
— Você não pode ficar aqui hoje — ele disse, abrindo a porta do carro para ela.
— Eu não vou fugir — ela respondeu, firme.
— Não é fuga. É estratégia.
Helena entrou no carro, mas o silêncio entre eles estava diferente agora. Mais pesado. Mais real.
— Quem são os Bastiani? — ela perguntou.
Dante demorou a responder.
— Antigos aliados da minha família. Viraram inimigos quando meu pai se recusou a dividir certos… negócios.
— Negócios ilegais?
Ele segurou o volante com força.
— Negócios perigosos.
Helena percebeu que aquela era a forma mais próxima que ele chegaria de uma confissão.
O carro seguiu até uma cobertura luxuosa no centro da cidade. Discreta por fora. Impecável por dentro.
— Você mora aqui sozinho? — ela perguntou, observando o ambiente sofisticado.
— Não exatamente.
Antes que ele explicasse, a porta da sala se abriu.
Uma mulher entrou.
Alta. Elegante. Olhar frio como vidro.
Os traços eram semelhantes aos de Dante.
— Você não me avisou que traria visita — ela disse, analisando Helena de cima a baixo.
— Helena, essa é minha irmã… Valentina.
Helena sentiu um arrepio imediato.
Valentina Moretti não sorria.
— Então você é a advogada — ela disse, aproximando-se. — A distração.
Dante endureceu.
— Cuidado, Valentina.
— Eu só estou sendo honesta.
Helena sustentou o olhar.
— Prazer em conhecê-la também.
Valentina deu um leve sorriso — daqueles que não alcançam os olhos.
— Espero que saiba onde está se metendo.
O clima ficou tenso o suficiente para cortar.
Dante colocou a mão na base das costas de Helena, num gesto quase possessivo.
— Ela está sob minha proteção.
Valentina riu baixo.
— Você ainda acha que pode proteger alguém?
A frase foi como uma faca invisível.
Dante ficou em silêncio.
Helena percebeu que ali havia algo mais profundo.
Feridas antigas.
Culpa.
Quando Dante se afastou para atender uma ligação no escritório ao lado, Valentina aproveitou.
Ela se aproximou de Helena, baixando a voz.
— Você acha que é especial?
Helena não recuou.
— Não.
— Ótimo. Porque não é.
O olhar de Valentina era calculado.
— Tudo o que se aproxima de Dante vira alvo. E, às vezes… vira sacrifício.
Helena sentiu o coração acelerar.
— Está me ameaçando?
— Estou tentando decidir se você vale o problema que vai causar.
O ar ficou pesado.
— Você trabalha com os Bastiani? — Helena disparou.
Por um milésimo de segundo…
Valentina hesitou.
Mas foi o suficiente.
— Cuidado com as acusações, advogada — ela respondeu, fria novamente.
Dante voltou para a sala.
— O que está acontecendo?
— Nada — Valentina respondeu suavemente. — Estávamos nos conhecendo.
Mas Helena viu.
Viu o brilho diferente nos olhos dela.
Viu a tensão mal escondida.
Horas depois, já no quarto de hóspedes, Helena não conseguia dormir.
Seu celular vibrou.
Número desconhecido.
Outra vez.
Ela atendeu em silêncio.
Uma mensagem de voz foi enviada automaticamente.
Era Valentina.
— Se você ama sua vida… vá embora enquanto ainda pode. Porque, quando a verdade sobre aquela noite vier à tona… Dante não vai escolher você.
A mensagem terminava com um clique seco.
Helena sentiu o estômago revirar.
Que noite?
No dia seguinte, enquanto Dante tomava banho, Helena decidiu fazer algo que jamais imaginou fazer.
Ela entrou discretamente no escritório dele.
Abriu a primeira gaveta.
Nada.
A segunda.
Documentos.
Na terceira…
Uma pasta preta.
Dentro, fotos antigas.
Dante. Mais jovem.
Valentina.
E uma terceira pessoa.
Uma mulher.
Linda. Sorridente.
Com o nome escrito no verso da foto:
Isabella Bastiani.
O ar fugiu dos pulmões de Helena.
Isabella.
Bastiani.
No canto da foto, uma data.
Três anos atrás.
A mesma data que coincidia com uma notícia arquivada que Helena lembrava vagamente:
Jovem empresária morre em acidente de carro misterioso.
Passos se aproximando no corredor.
Helena fechou a pasta rapidamente.
Mas uma pergunta já estava queimando dentro dela:
Valentina traiu Dante?
Ou Dante estava escondendo algo muito pior?
E, pela primeira vez…
Helena começou a se perguntar se o homem que ela estava aprendendo a amar…
Era realmente a vítima dessa guerra.
Ou o responsável por ela.
