Capítulo 4 Capítulo 4
Quando chegaram na rua da casa dela, Kaori pediu para que ele parasse um pouco afastado, porque alguém poderia ver e ela não estava a fim disso.
Ele perguntou com quem ela morava.
Ela disse que morava com os pais e com o irmão. O insuportável. Que parecia mais um inimigo do que um amigo.
Daniel sorriu e perguntou se ela brigava muito com o irmão e se ela era rebelde.
Kaori respondeu, exultante:
— Bom… sim pras duas perguntas. Só que ele é muito perfeitinho, certinho, melhores notas, nunca dá trabalho. Sabe o que eu acho? Que ele é uma florzinha dentro do armário. Mas isso não vem ao caso. E daí ele se esforça pra ser o filhinho perfeito, que não tá fazendo nada errado, que quer entrar pro Exército, pra Polícia Federal… e eu acabo sendo a ovelha negra da família.
Ela respirou fundo e continuou:
— Meus pais estão se divorciando e eu tô super chateada com isso, porque, olha… é complicado. Por mais que a gente seja adulto, digamos assim, não sou mais criança, eu sei.
— Ninguém quer ver os pais se separando, a família se afastando. E eu sei que quando isso acontecer, muita coisa vai mudar, porque meu pai com certeza tá apaixonado por outra.
Ela passou a mão no rosto, incomodada.
— E é ele que meio que banca a casa, sabe? Minha mãe trabalha pra caramba, mas vai ser difícil. Vai ser foda. Vai mudar muita coisa. E eu amo a minha casa, o meu quarto, a minha vida. E com certeza a gente vai ter que se mudar, porque separados eles não vão conseguir manter essa casa. É difícil.
Ela ficou com os olhos marejados e suspirou.
Daniel estacionou o carro no fim da rua e ficou olhando pra ela, pensando em um jeito de se conectar mais. Fora a parte de ir inserindo as intenções, ele queria conhecer mais sobre ela. Ele realmente ouvia tudo o que ela falava, com atenção, e gostou de conversar com alguém que não ficasse julgando, que não tivesse aquela vibe perfeita igual à noiva dele, que só sabia criticar e não ouvia o que ele falava de fato.
Então ele respondeu:
— É… eu entendo. Meus pais são casados há muitos anos, mais de trinta, e eu gosto disso. Eu admiro isso neles. Só que, tipo assim… a gente tem que entender que a vida muda.
Ele respirou e continuou:
— Do mesmo jeito que eu tenho um compromisso com uma pessoa que um dia eu amei intensamente, genuinamente, com o tempo as coisas podem mudar. As pessoas mudam, né? O mundo tá sempre mudando o tempo todo. Então é muito difícil a gente estar num relacionamento longo e ter certeza que vai amar e estar apaixonado por essa pessoa do começo ao fim.
Ele olhou pra ela com cuidado e concluiu:
— Eu sei que pode ser chato ter pais divorciados, mas tenta entender que talvez vá ser melhor assim pros dois. Você não quer continuar com pais casados que se traem, que brigam o tempo todo… ou você quer?
Kaori o olhou intrigada, sem nem prestar atenção no que ele falava sobre os pais. Tudo o que ela conseguiu prestar atenção foi no que ele dizia sobre o relacionamento dele mesmo. Ela foi tirando o cinto e respondeu:
— É… realmente, eu não quero. Se você não ama a sua noiva, por que vai se casar? Você não disse que está noivo? Desculpa, mas eu não entendo isso. Pra mim, não faz sentido nenhum. Olha, eu sou muito intensa. Quando eu gosto de alguém, eu gosto muito. E quando eu desgosto, eu desgosto na mesma intensidade. Eu jamais ficaria com alguém que eu não gosto, seja lá por qual motivo for. Você tem filhos?
Ele sorriu e respondeu, um pouco constrangido:
— Não, eu não tenho filhos. É complicado… quando você firma um relacionamento, um compromisso com alguém, isso envolve duas famílias. Isso envolve, pelo menos na minha situação, que faço parte de uma igreja, assim, uma comunidade. Isso envolve todo mundo ali. E é difícil a gente chegar e falar: “ah, eu não gosto mais, eu não quero mais”, sendo que a gente já namora, já teve certas liberdades, ainda que não totalmente.
Ela cerrou os olhos e perguntou, curiosa:
— Como assim não totalmente? Que tipo de liberdade? Quantos anos a sua noiva tem?
Ele respondeu sem jeito, batendo a ponta dos dedos no volante, desconcertado:
— Ela tem quase a minha idade, mas… — ele hesitou, buscando palavras.
— Ela foi criada dentro da igreja e sempre seguiu as doutrinas, então…
Ele ficou um pouco hesitante e completou:
— A gente ainda não teve relação.
Kaori começou a rir muito, ficou com os olhos marejados de tanto rir, e perguntou, curiosa:
— Ah, sim… entendi. Você acredita nisso? Até parece. Essas que vão pra igreja e se fazem de santinhas são as piores. E você? É claro que você já teve relações, não teve?
Ele riu, sem jeito, e respondeu:
— Você é muito curiosa. Não, é sério. Ela é do tipo certinha. Eu acredito que ela realmente seja vir.gem, até porque a gente se conhece desde a infância. E se tem uma coisa que homem faz, é fofoca. Se tivesse acontecido alguma coisa, eu saberia.
Ele respirou fundo e continuou:
— É muito difícil eu terminar agora, porque a gente já tá com a casa… montando a nossa vida juntos. Meus pais construíram pra gente, os pais dela ajudaram, e a gente já tá pagando casamento, festa, bufê. São muitas coisas. É complicado.
Ele fez uma pausa e concluiu:
— Mas não é que eu não goste dela. É claro que eu gosto. Se eu não gostasse, eu não teria namorado com ela e tudo mais. Só que agora, no momento em que a gente se encontra, eu percebo que eu mudei muito. A minha cabeça mudou, e ela não quer mudar. Ela quer permanecer ali, do mesmo jeitinho de quando a gente era anos atrás, na adolescência.
— E isso é muito complicado, porque eu era novo, era um adolescente… aí fui virando um homem. E eu tenho meus gostos, minhas preferências. Eu não posso nem ouvir uma música que eu gosto, como eu tô fazendo agora aqui no carro por sua causa, porque ela só quer que eu ouça hino.
— E eu não acho isso certo, porque Deus conhece o meu coração. Não é a música que eu escuto que vai fazer de mim uma pessoa melhor ou pior do que alguém que tá dentro da igreja feito um cordeirinho. É o que eu acho.
Ele balançou a cabeça, cansado:
— Mas na prática… é difícil.
