Capítulo 1 Elevadores

Existem duas certezas na minha vida: A primeira é o aroma de café, canela e baunilha que exala como uma cura interior para mim quando eu asso os meus biscoitos pela manhã; A segunda é que os elevadores da Vance Corp conspiram fortemente contra a minha sanidade mental.

Eu estava segurando em minhas mãos as pastas do marketing com o braço esquerdo, enquanto minha mão direita tentava manter uma xícara térmica e fumegante de chocolate quente com marshmallows ao mesmo tempo que os meus dedos tentavam tocar o botão do oitavo andar.

Consegui finalmente. Esperei ainda bocejando, me preparando para enfrentar a loucura que me esperava naquele dia. A porta se abriu com um ding suave e foi aí que o caos decidiu se vestir com um terno cinza-chumbo perfeitamente alinhado bem na minha frente.

— Ah, meu Deus —Eu gastei o pouco fôlego que me restava ao colidir com a parede de músculos e tecidos caros.

O líquido marrom denso não teve nenhuma piedade sequer. Explodiu diretamente na camisa social branca de Benjamin Vance.

O CEO.

O homem que nunca piscava, que respondia a e-mails friamente com apenas um “Ok” e cuja reputação de rei do gelo fazia os estagiários tremerem de puro terror.

Eu fechei os olhos com força, pronta para ouvir o meu aviso de demissão ecoar da boca dele, talvez com alguns berros.

Naqueles segundos, pensei em todos os meus boletos, no meu crédito estudantil que nem havia começado a pagar e em todas as coisas que eu deixaria de ter.

— Me desculpa, por favor, Sr. Vance... Me perdoe! Eu juro que não foi proposital; o elevador deu um tranco e eu acabei tropeçando… — Comecei a tagarelar como uma maluca, tateando desajeitada os bolsos do meu casaco, procurando um guardanapo que, se eu estivesse em meu juízo perfeito, eu saberia que nunca havia existido.

Abri os meus olhos com cautela, esperando ver fumaça saindo pelas orelhas dele. Mas Benjamin não estava gritando; ele olhou para a mancha escura de chocolate que escorria em sua camisa branca e depois ergueu o olhar para mim.

Os cantos da boca dele pareceram se curvar levemente.

— Chloe... não é? — A voz dele saiu grave e me enviou um arrepio totalmente inesperado na espinha — Essa foi a coisa mais emocionante que aconteceu nesse maldito prédio em seis meses! Pare de se desculpar, isso é pedante!

O resto daquela manhã passou com uma névoa de puro pânico e caos para mim. Eu passei horas e horas digitando planilhas com as mãos trêmulas, esperando que a qualquer momento um segurança aparecesse para me escoltar até a saída com um cheque que não cobriria nem metade das minhas contas e uma caixa de papelão nos braços.

O e-mail que chegou às dezesseis horas não continha um aviso de demissão. Era uma mensagem direta, assinada com as iniciais B.V.

“Traga os relatórios trimestrais atualizados diretamente à minha cobertura. Hoje, às 20h”

Minhas pernas fraquejaram ali mesmo. Na minha cabeça, a equação era matemática e implacável: Ele não tinha me demitido porque planejava me humilhar antes. Sem RH para intervir.

Eu não estava na posição de dizer não.

Então quando o elevador privativo me deixou no vigésimo quinto andar, o silêncio do apartamento de Benjamin Vance era quase sufocante. A decoração era toda em tons de cinza e preto, com vidros espalhados pela casa. A iluminação era fria, quase escura; combinava perfeitamente com a alma do dono.

Benjamin estava de pé diante da parede de vidro que exibia a vista panorâmica da cidade, com um copo de uísque na mão. Nem se deu ao trabalho de virar quando os meus passos ecoaram pelo piso de mármore frio.

— Atrasada três minutos — A voz dele cortou o ar, baixa e completamente desprovida de qualquer calor humano.

— Me desculpa, Sr. Vance. Os elevadores... Bom, o senhor já sabe que não sou boa com eles.

Benjamin finalmente virou-se para mim. Ele vestia uma blusa de gola alta, preta que acentuava ainda mais sua expressão fechada. Não havia nenhuma pista de um sorriso, mesmo que irônico, pelo acidente no corredor. Existia apenas indiferença no ar.

— Deixa os documentos sobre a bancada e pode ir — ele disse friamente, dando um gole na bebida sem sequer olhar para o meu rosto. Eu não passava, para ele, de parte da maldita mobília.

Engoli em seco, senti o meu peito apertar. Ao menos era isso; ele não me humilhou como eu pensei. Eu deixei a pasta sobre a mesa e me virei para escapar o mais rápido possível.

E então enquanto eu sentia as minhas pernas tremendo, enquanto esperava o elevador ele disse:

— Você acha que a vida acaba por aqui, Chloe?

Eu me virei em completo choque:

— Como assim? No trabalho, você diz?

— Não, quando morremos... A vida acaba aqui?

— Eu não tenho ideia formada sobre isso, mas espero que não.

— E por que pensar que não?

— Eu gosto de pensar que a minha mãe está em um lugar melhor.

Ele me olhou pela primeira vez nos olhos, me ofereceu um sorriso, ainda gelado e disse:

— Isso é tudo. Seu elevador chegou.

E se virou novamente, como se aquela conversa nunca tivesse existido.

As portas de metal do elevador se fecharam diante de mim.

Meus pensamentos já estavam distantes; era como se dentro de mim algo estivesse errado. Como um eco distante no escuro. Eu encostei minhas costas na parede do elevador, sentindo o meu coração bater muito rápido.

Eu não fazia ideia do porquê; era apenas um sentimento incontrolável.

A pergunta — “A vida acaba aqui, Chloe?” — queimava na minha mente. Por que um homem como Benjamin Vance, jovem, lindo, bilionário e provavelmente dono de um mundo onde eu não poderia nem passar pela porta, faria uma pergunta tão profunda e desolada?

Assim que eu pus os meus pés na calçada fria da noite, o vento cortante de Manhattan batia contra o meu casaco. Enquanto eu esperava o ônibus, com os dedos trêmulos, tateei o pequeno relicário de prata que eu sempre levava comigo.

Abri a tampa com cuidado, revelando uma fotografia antiga em preto e branco. O rosto doce da minha mãe sempre me acalmava em situações difíceis.

Mesmo que eu não entendesse naquele momento qual era a dificuldade. Eu sempre fui intuitiva, e a minha intuição estava gritando comigo, como no dia em que dei adeus à minha mãe em um leito de hospital.

— O que ele quis dizer com aquilo, mãe? — sussurrei para o metal frio, sentindo uma lágrima solitária escapar pelos meus olhos — Por que um homem que tem tudo pareceu tão perdido?

O sol da manhã seguinte trouxe o aroma de mais um dia, que começava com biscoitos. Me agarrei àquele cheiro tão familiar para mim, para me livrar da pergunta da noite anterior. Não entendo, nenhuma quantidade de biscoitos caseiros foi capaz de me salvar da sensação de devastação que eu senti ao chegar à minha mesa no trabalho.

Às dez horas em ponto, o ramal da minha mesa tocou; era a voz impecável da secretária executiva: — Chloe. O Sr. Vance precisa de você na sala dele, com os novos contratos de locação. Agora.

Engoli em seco, tive mais interações com Benjamin Vance em dois dias do que tive em um ano.

Quando entrei na cobertura, Benjamin não estava na parede de vidro como imaginei; estava sentado em frente à sua mesa gigante de mogno escuro, cercado de pilhas e pilhas de papéis.

Eu nem entendia o motivo: por que ele simplesmente não usava o computador? Mas resolvi não questionar.

Ele estava glorioso como sempre, mas dessa vez parecia estranho; estava com camisa social dobrada até o cotovelo, o cabelo estava despenteado e havia olheiras profundas.

— Os contratos estão aqui, Sr. Vance — falei com a voz mais firme possível e coloquei as pastas sobre a mesa.

Ele apenas puxou a pasta, abriu e começou a folhear as páginas em silêncio.

— Certo. Chloe, eu preciso que você passe no setor de compras e corrija algumas informações. Eu anotei tudo aqui para você.

Me entregou uma pilha de papéis e continuou:

— Preciso disso até o meio-dia.

— Certo, eu passarei agora mesmo no setor, mais alguma coisa? Um café talvez? — Eu falei sorrindo para ele, tentando arrancar que fosse um grito.

— Preciso que passe no setor de compras para corrigir as informações destacadas. Isso é tudo por enquanto.

— Ok.

Me virei para sair e o elevador demorou uma década para se abrir; entrei quase que correndo para escapar daquele ambiente escuro.

Eu folheei os papéis rapidamente e perto da última folha lá estava um papel timbrado. O logotipo conhecido por mim fez meus olhos ficarem arregalados.

Centro oncológico Metropolitan brilhava em letras sóbrias.

Paciente: Benjamin Louis Vance, a data do dia anterior.

Meus olhos se cravaram na folha antes mesmo de eu poder desviar o olhar. E lá estava, impresso em negrito friamente clínico: Diagnóstico: Carcinoma pulmonar de estágio avançado.

Abaixo, o plano que me causava arrepios: tratamento paliativo. E a assinatura do oncologista responsável.

O ar sumiu dos meus pulmões e então em minha cabeça ecoou: “De novo não”

O nome da doença, que eu nem ousava repetir, piscava em minha mente com um letreiro neon por mais que eu tentasse esquecer. Fiz o que Benjamin me pediu, porém não tive coragem de entregar os documentos; deixei com a secretária e mandei um e-mail avisando que já havia resolvido o problema.

A lembrança do cheiro de hospital, da morfina e da respiração fraca da minha mãe em seu leito de morte voltou com força total. Rasgou uma cicatriz que eu achei que estava fechada.

Quando o expediente finalmente terminou e os outros funcionários começaram a esvaziar os andares, eu não fui para casa. Fiquei paralisada; eu não conseguia me mover.

Eu me levantei em um rompante; precisava dar tempo a tudo. Eu precisava ser rápida.

Próximo Capítulo