Capítulo 2 Queime depois de ler
Enquanto a noite caía sobre Manhattan, minhas mãos trabalharam em piloto automático, guiadas por uma memória afetiva que eu nunca deixei morrer em mim.
Misturei a farinha, o açúcar, o pó de café encorpado, um toque de canela e o extrato de baunilha. Era a mesma receita que eu usava para sobreviver às noites em que a eminência da perda da minha mãe parecia insuportável.
Horas depois, com uma caixinha nas mãos e um nó no estômago que não passava, eu estava de volta ao elevador.
Apertei o vigésimo quinto andar da Vance Corp. O relógio marcava quase nove horas.
O escritório estava silencioso, iluminado apenas pela luz fria da cidade lá fora. A porta da sala Benjamin estava encostada; eu o vi apenas pela fresta. E entrei sem aviso.
O Ceo que eu costumava ver, intocável, não estava ali.
Benjamin estava sentado no chão, encostado a uma velha estante de livros. A camisa estava amarrotada, a gravata jogada no chão de qualquer jeito e, sobre a mesa, duas garrafas vazias de uísque caro.
Ele estava visivelmente bêbado, com os olhos vermelhos e uma expressão de pura desolação, tão profunda que cortou o meu coração em pedaços.
Ele finalmente notou minha presença e ergueu o rosto para mim. Lentamente, dava para ver que ele estava se esforçando para focar o olhar em alguma coisa.
— O que você está fazendo aqui, Chloe? Já é tarde, não é? — A voz dele saiu arrastada e vazia — Vá para casa.
Em vez de recuar, dei um passo à frente e me agachei na altura dele. Tirei a tampa da caixinha que eu levava em minhas mãos e estendi os biscoitos em sua direção com um sorriso terno no rosto. O aroma dos biscoitos invadiu a sala toda; parecia expulsar a devastação do ar.
— Eu fiz... quer dizer... eu os trouxe... — falei baixinho, sentindo a minha voz falhar — Minha mãe costumava dizer que quando o mundo pesa demais, um biscoito quente com café e canela consegue dar forças para segurar por mais um tempo.
Benjamin olhou para a caixinha e depois diretamente nos meus olhos. Ele estendeu a mão trêmula e pegou um dos biscoitos, dando uma mordida lenta. O silêncio entre nós mudou de figura, tornou-se quase confortável, íntimo e frágil.
Pela primeira vez, não havia crachás nem relatórios de última hora. Apenas duas pessoas, sobrevivendo a um mundo que não parecia nada justo.
Sem pensar, movida por um impulso que vinha da minha alma, eu estendi a minha mão e toquei a mão dele levemente.
— Você gostou? — Eu disse com o sorriso aberto e os olhos cheios de lágrimas.
— Estão deliciosos. Você mesmo os fez?
— Sim.
— E resolveu trazer até aqui para mim? É uma tentativa de promoção? Se for, vai acabar dando certo! — Ele sorriu pela primeira vez em um ano para mim, não como nas vezes em que o sorriso parecia irônico, mas como um sorriso verdadeiro.
— Não... eu não quero uma promoção. Só achei que você precisava de um biscoito muito gostoso.
Eu me sentei na frente dele e o encarei pela primeira vez. Nunca vou me esquecer dessa sensação.
Benjamin colocou as mãos firmes em meu rosto e se aproximou um pouco mais.
— Você é linda. Eu já tinha notado isso, não me leve a mal, só que falar não é bom — E soluçou. A bebida nunca se esconde por muito tempo.
— Obrigada — falei sem jeito — Bom, eu acho que eu já vou indo. Só voltei para trazer os biscoitos.
— Você voltou até aqui; não vá agora; fique um pouco mais aqui comigo. — Ele parecia vulnerável demais.
— Certo, eu fico. Então me conta, o que você faz jogado aqui no chão?
— A vida não é tão bela quanto você é. Sabia? Eu desconfiava, mas aí eu tive certeza.
— O que houve? — Eu fingi surpresa.
— Nada demais. Hoje eu só quero ser o cara que recebeu biscoitos no escritório vindos de uma mulher bonita, enquanto vivia o pior dia da vida.
— Vai poder contar isso aos seus netos um dia.
— Não acho que chegue a tanto, Chloe.
Eu toquei o rosto dele devagar, como se fôssemos realmente íntimos.
— Vai ficar tudo bem, Benjamin… — sussurrei; a suavidade do meu tom carregava um peso tão grande que ficava visível em meus olhos e escorria pela minha boca.
Eu fechei os olhos e senti as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. Eu sou uma chorona assumida. E foi o pior erro que eu poderia ter cometido.
A reação foi instantânea. A vulnerabilidade nos olhos dele foi embora com a mesma velocidade com que começou. Ele jogou o biscoito longe, levantou-se em um tranco e cambaleou até a porta.
Eu me levantei na mesma velocidade e fiquei imóvel, sem saber o que fazer.
— O que você disse? — A voz dele parecia mais um rugido ecoando pelas paredes de vidro — O que você acha que sabe sobre mim? O que é esse olhar patético e cheio de pena?
— Eu... eu só quis... Benjamin...
— Não ouse, nem por um segundo, ter pena de mim, Bennet! — Ele gritou apontando o dedo com força para mim — Você acha que me viu desmoronar, então veio me oferecer um pouco de pena? Ficou escutando pela porta como um rato?
— Eu não escutei nada pela porta! Por engano, você misturou alguns papéis e eu li! Eu não vim aqui testemunhar sua desgraça nem fico feliz com ela. Eu só quis... te ajudar...
— Aí veio aqui bancar a minha salvadora? Saia daqui, Chloe Bennet! Saia da minha frente!
Eu olhei para ele em prantos e então corri para o elevador, esbarrei nele no meio do processo e então ele me segurou:
— Não ouse contar isso a ninguém! Você entendeu?
— Eu nunca tive essa intenção! Eu achei que poderia ajudar, que até monstros como você tinham um limite. Mas eu estava enganada. Agora me solte. Não se preocupe, ninguém saberá de nada por mim.
Ele soltou o meu braço e disse:
— Eu não sou um monstro.
— Então por que está se comportando como um? E com uma pessoa que só veio te ajudar? — A minha fala embolada pelo choro era também de raiva.
— Eu não posso cair. Eu não quis magoar você.
— Imagina se você quisesse. Eu não vim te ver cair ou te derrubar. Eu só vi um cara sozinho, com um problema horrível pelo qual eu já passei ao lado de alguém que eu amava. Mas eu estava errada... Você está sozinho por um motivo. E só agora eu pude ver o porquê.
Eu entrei no elevador e antes que a porta se fechasse ele gritou — CHLOE
Mas o que veio depois eu não ouvi. O deixei mergulhar em seu próprio abismo de caos e medo. Fui embora com o coração apertado e cheio de dor. Mas continuei caminhando, enquanto a primeira neve caía sobre os meus ombros.
O ar gelado da noite não me impediu; não incomodava tanto quanto ver alguém desabar com aquele diagnóstico.
“Problema dele”, eu pensei.
Me peguei indo para a casa do meu pai; apertei a campainha ainda desolada, preocupando-o e minha madrasta.
— O que houve, Chloe? — Disse Eunice, me puxando pelos braços.
— ELE VAI MORRER — eu disse desabando.
— Quem vai morrer? — disse o meu pai, assim que conseguiu me sentar no sofá.
Falei como uma metralhadora de palavras por uma hora, sem parar, contando todos os detalhes da minha aventura frustrada.
Meu pai olhou para Eunice e os dois trocaram olhares tristes. Eunice fez sinal com a cabeça para que o meu pai falasse e então ele começou:
— Filha, sua mãe... ela... não aceitou bem o diagnóstico na época. Teve reações muito parecidas com essa que você acabou de testemunhar. Só que eram comigo.
— A minha mãe sorriu o tempo todo.
— Para você, Chloe... é difícil saber que está morrendo. Talvez, só talvez, o seu amigo...
— Ele não é meu amigo! Ele é um monstro.
— Que seja o seu monstro, seu amigo, seu chefe... talvez ele só precise de uma luz.
— E quem foi a luz da minha mãe?
— O seu pai querida... O seu pai foi.
— Até o último suspiro da Amélia eu estive ao lado dela. Em dias de mau humor, em dias de quimioterapia, em dias bons, em dias que eram puro amor... eu estive lá.
— Você era casado com ela, pai. A amava
— Você cozinhou os biscoitos por qual motivo então? — disse meu pai.
Eunice me olhou com um sorriso nos olhos, os de sempre; ela era um anjo.
— Chloe, algumas coisas acontecem em nossa vida que não conseguimos explicar. Não desista dele… Você não pode salvá-lo. O destino está escrito, mas que tal ser um capítulo de encerramento incrível?
— Eu não sei por quê; eu não sei de onde vem esse sentimento. Eu só... não quero perdê-lo.
— Então o ache. E mantenha por perto — disse o meu pai com a sabedoria de um monge.
E no outro dia, depois de chorar muito, eu já sabia o que eu deveria fazer.
