Capítulo 3 Biscoitos

O sol da manhã veio carregando com ele as minhas lágrimas; eu me levantei em um golpe só e me arrumei o mais rápido que pude. Eu trazia comigo uma nova fornada de biscoitos que o meu pai me ajudou a fazer.

Nós passamos boa parte da madrugada compartilhando histórias sobre a minha mãe, mas eu sabia que ele, na verdade, queria apenas me convencer do que eu já havia sido convencida dentro do meu coração.

Eu não tinha a intenção de recuar.

Pisei no vigésimo quinto andar com passos tímidos, mas decidida a enfrentar o “Rei do gelo” com a única arma que eu tinha: minha persistência quase suicida.

Me aproximei da pesada porta da sala privativa, mas meus passos congelaram no carpete.

A porta estava apenas encostada, uma fresta separando o corredor silencioso da conversa que estava acontecendo lá dentro.

A voz de Benjamin ecoava abafada pelo corredor, e já que ele tinha me acusado de bisbilhotar, não faria mal eu escutar só um pouco dessa vez:

— Eu não pedi para você vir, Lucas.

A respiração travou na minha garganta. Eu reconheci a silhueta que aparecia pela fresta. Era o amigo de Benjamin, Lucas. Um amigo de longa data.

— E qual é a sua solução, Ben? Você vai se isolar de tudo e todos? — respondeu Lucas com uma gravidade bastante pesada em sua voz — Você sabe que esse tratamento exige suporte.

— Eu não quero suporte de ninguém! Quero deixar as coisas em ordem para eu poder morrer em paz. Será que nem esse direito eu tenho?

— Você está doente e vai vencer esse câncer! Só não vou deixar você mentir para mim. Se você não quer ninguém por perto, por que me ligou bêbado ontem para falar da garota dos biscoitos?

— Como você mesmo disse, eu estava bêbado!

— Então me conta, o que aconteceu? Porque ontem você parecia bem chateado. E nas suas próprias palavras você agiu como um monstro com ela. E eu nunca vi você arrependido de nada.

— Ela foi gentil comigo. Só isso. Leu o maldito papel com o diagnóstico e não conseguiu resistir ao ímpeto de ser uma salvadora da pátria.

— É a moça que você contratou por... — Benjamin deu um soco forte na mesa, consegui ouvir o estalo mesmo de longe. Não deixou o amigo terminar a maldita frase.

— Não repete essa história! Eu já pedi isso para você um milhão de vezes.

— A Liz diz que tudo é destino. E se o seu destino é ter ela por perto?

— Você acha que tudo funciona como em um conto de fadas, só porque você se casou com a Liz. E eu admiro vocês; vocês sabem disso, mas isso não é para mim.

Lucas deu uma risada exagerada e continuou — E quem foi que falou em casamento aqui? Foi você que pensou nisso!

— Não brinque com uma coisa dessas, Lucas.

— Por que você não faz amizade com ela? Sei lá, alguém diferente do nosso círculo social de sanguessugas pode ser bom para você.

— Você não entende, não é sobre mim. É sobre ela. Ela já sofreu demais. Perdeu a mãe para essa doença maldita e você sabe bem o que motivou isso! E agora, eu vou me aproximar dela para morrer também? Isso não parece justo para mim; parece para você, Lucas?

— Então dentro do homem de gelo existe um coração afinal! Eu vou confiar no que Liz me disse hoje mais cedo; tudo vai acontecer como deve acontecer. E eu tenho fé que você vai acabar tomando a decisão certa.

— Eu agradeço a sua fé e também a nossa jovem bruxa Liz, mas eu não posso fazer isso com a Chloe. Ela tem um bom coração... Me levou uma fornada de biscoitos; não estava esperando nada, nem glórias, nem cargos, muito menos dinheiro. Ela tem um coração puro e deve continuar assim. Se aproximar de mim é um erro, para ela e para mim.

— Como eu disse... Sei que você tomará a decisão certa.

E então ouvi os passos caminhando para a porta, eu tentei me esconder atrás do vaso de plantas gigantesco do corredor.

Foi inútil.

— Ei... você é a Chloe? — Disse Lucas em um sussurro.

— Sim, muito prazer.

Ele me olhou de cima a baixo, mas diferente da maioria, não com desdém, mas com um certo tipo de carinho.

Ele me ofereceu um sorriso e disse com a voz um pouco embargada: — Esses são os biscoitos mágicos?

— São só biscoitos — respondi sem jeito — Quer um?

— Não, esses foram feitos para o Ben. Por favor, não desista dele... Não...o deixe sozinho. Ele só é muito teimoso. — Colocou a mão no paletó e tirou de lá o que todos os ricos tinham aos montes, um cartão com nome, sobrenome e um número de telefone — Qualquer coisa, você pode me ligar. A qualquer horário.

— Tudo bem. Eu farei isso.

— Ah, sexta-feira à noite...Eu e minha esposa vamos oferecer um jantar; faço questão de que você vá. Eu passo as informações para você pelo e-mail, tudo bem?

— Farei o máximo para ir.

— Não, você irá. É importante.

Eu não respondi. Apenas o acompanhei com o olhar, até que ele sumisse da minha vista.

Eu respirei fundo; meu coração estava batendo muito forte.

Eu não conseguia decidir se cumpria o meu objetivo ou se eu simplesmente saía correndo daquele corredor.

Mas eu decidi entrar na sala. Benjamin me olhou com uma expressão de choque, largou a caneta em cima da mesa e se levantou em um rompante.

— Bennet, o que faz aqui? — Se aproximou um pouco de mim.

— Eu só vim trazer alguns biscoitos para você, sobrou muito, e como você disse que gostou...

Ele segurou o pote que estava em minhas mãos. Quando as mãos dele tocaram as minhas, senti uma eletricidade totalmente nova, diferente; parecia magia. Nós nos olhamos por alguns segundos antes de eu decidir largar o pote finalmente.

— Obrigada. Não só pelos biscoitos. Me perdoe por ontem. Eu não estava no meu melhor.

— Tudo bem. Eu consigo compreender.

— Mas nada mudou. Obrigada pelos biscoitos, mas eu preciso pedir que você fique longe de mim.  Eu entendo que você queira me ajudar, mas eu não quero e não preciso.

— Benjamin, eu só trouxe biscoitos! Não se preocupe, eu vou ficar longe de você.

Ele sorriu — Você não mente muito bem.

— Eu vou respeitar o seu espaço. Só quero que se lembre, que estar sozinho é uma escolha. Eu estou me aproximando de você por pena. Eu não tenho pena de você. Só acho que todo mundo merece uma chance de estar cercado de... — Quase que da minha boca sai a palavra amor, mas eu me segurei e tentei deixar a mensagem um pouco mais “fria” — amizade e companheirismo. E eu faço ótimos biscoitos. Sempre que eu fizer, vou te trazer alguns. Ou então, deixo em cima da sua mesa.

Eu me virei para sair. Escutei o meu nome sendo falado um pouco mais doce do que foi falado na noite passada:

— Chloe — Eu não me virei; corria o risco de chorar na frente dele. Então permaneci de costas, imóvel, implorando pelo que vinha depois.

— Não é algo com você. É sobre mim. Estou tentando diminuir os danos.

— Eu sou adulta. Eu decido com o que eu consigo lidar. Preciso voltar para o trabalho. Até mais Sr. Vance.

— BEN. Ou Benjamin. Nas raras vezes em que você topar comigo por aí, pode me chamar de Ben.

Virei apenas meio corpo para olhar em seus olhos, com os pés estáticos no chão:

— Até mais...Ben.

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