Capítulo 4 Jantar Armadilha - P.O.V Benjamin

P.O.V – Benjamin

Eu não queria estar ali. Aceitei o convite de última hora do Lucas apenas para evitar o ataque… digo, visita surpresa da Liz no meu escritório ou no meu apartamento. Ela tinha uma capacidade quase sobrenatural de farejar o meu isolamento social e me obrigar a socializar. O pretexto máximo dela era sempre o mesmo: “Você está vivo, então viva”

Eu adorava a casa de Liz e Lucas; era tão viva e iluminada; os quadros pintados por Liz na parede davam a impressão certeira de que aquele era um lar feliz. As cores misturadas que mal se combinavam davam ao lugar uma casa de aconchego, impossível de obter quando se contrata uma empresa.

— E então, meu amigo, como vão as coisas? — Disse Lucas.

— Sério? Que pergunta é essa, Lucas? — Eu disse, dando mais um gole no meu uísque, antes que alguém percebesse que eu nem poderia estar bebendo.

A campainha tocou. E eu fiz cara feia para Lucas. Quem era o convidado misterioso? Mais um místico, chato, metido a curandeiro com pedras e cristais. Prometendo uma cura interior, quando o que me interessava mesmo era a cura do câncer.

— Ah, finalmente! Ela chegou! — murmurou Liz, saindo da cozinha com um sorriso vitorioso que eu deveria ter reconhecido como um péssimo presságio.

Eu não me virei de imediato. Continuei concentrado na luz âmbar no centro da sala, entediado, imaginando como seria o restante da noite e o quanto de papo furado de pseudociência eu teria que escutar antes de ser socialmente aceitável entrar no meu carro e voltar ao meu covil.

Até que a voz DELA ecoou na entrada.

— Desculpem o atraso, o trânsito na ponte estava impossível! Eu quase errei o...

O uísque queimou na minha garganta. Eu travei. A respiração sumiu dos meus pulmões por alguns segundos.

Lá estava ela,

Lá estava ela. Chloe.

Ela estava usando um vestido simples, amarelo com algumas margaridas, algo que poucas mulheres usariam em uma noite de sexta-feira. Estava mais para um piquenique sob a luz do sol. Mas ela parecia ter uma luz própria, como se toda a luz do mundo estivesse em sua pele. Os olhos castanhos, tão expressivos, pareciam engolir a minha alma. Arregalaram-se levemente ao encontrar os meus.

TRAIDORES.

Olhei de relance para Lucas e Liz. Ambos tinham estampados em suas faces um sorriso cínico e totalmente culpado.

Minha primeira inclinação foi colocar o copo na mesa, virar as costas e fugir dali o mais rápido que eu conseguisse. Era o que eu vinha fazendo todos os dias desde os biscoitos, era o que eu vinha fazendo, mesmo sendo assombrado pelo olhar dela todos os dias em meus pensamentos e em meus pesadelos noturnos com um vislumbre mentiroso de vida.

Mas eu não consegui mover nem sequer um centímetro dos meus sapatos.

Enquanto Liz a recebia com um abraço caloroso e a guiava para a mesa, meus olhos me traíam, passaram a segui-la a cada segundo.

Sentada à mesa, visivelmente sem graça, Chloe tentava manter a compostura; parecia tão surpresa quanto eu; tentava conversar educadamente com Liz, mas, de vez em quando, desviava o olhar para mim, parecendo incrédula com a situação.

Ela ofereceu um sorriso a Liz, que tentava a todo custo ser simpática. E quando ela sorriu, eu não consegui parar de olhar.

Ela me hipnotizava, o tom da voz dela parecia me dobrar por dentro, sempre polida, sempre falando baixo e com elegância. Levava a taça de vinho aos lábios com uma certa rigidez; não estava acostumada a beber. Mas não queria ser mal-educada.

Lucas tentava puxar assuntos leves, notei o quão inteligente ela era. Argumentava com firmeza sobre o que pensava da política e o quanto gostaria de ver os mais vulneráveis em uma situação melhor. Ela era doce, magnética. Não era uma socialite preocupada com a última bolsa lançada por algum estilista, era uma pessoa de verdade. Não estava tentando impressionar, ela só era ELA.

Ela existia e brilhava em meio a milhares e milhares de pessoas, apenas por abrir os olhos e respirar nesse mundo.

Eu estava aterrorizado e fascinado por ela.

Me intimidava o quanto ela era de verdade. Eu conseguia sentir o suor escorrendo pela minha testa, enquanto eu permanecia calado, não por não saber opinar, mas porque interrompê-la parecia um crime.

— Esse jantar está delicioso, obrigada pelo convite, Lucas.

— Ah, eu pulei de alegria quando ele me contou que havia te convidado, Chloe! Queria tanto conhecer a mestre dos biscoitos... — disse Liz já um pouco alta com todo o vinho.

Todos estavam. Cada um com seu álcool preferido. Chloe já parecia um pouco mais solta, mais animada, mais falante e mais perspicaz.

— Me conta, como é trabalhar com o Rei do gelo? — Disse Lucas rindo.

— Eu não trabalho diretamente com ele. Eu sou só uma estagiária... Eu faço café, arrumo umas planilhas para pessoas que ganham o dobro do meu salário e não sabem o que significam os relatórios.

— Me parece então que você merece mais do que está recebendo; seu chefe deve ser um idiota! — Disse Liz, olhando para mim. — E você, Ben, não vai dizer nada? Está tão calado.

Chloe me olhou com tanta voracidade que eu me senti obrigado a responder.

— Eu não sabia que o Lucas tinha convidado você, Chloe; se eu soubesse, não teria vindo, não por você, mas para te poupar da minha companhia. Conforme nós dois concordamos.

— Eu também não fazia ideia de que você estaria aqui. Se eu soubesse, teria trazido biscoitos.

O silêncio na mesa ficou sepulcral, mas só por alguns segundos, Liz quebrou o gelo dando pequenas risadas abafadas.

— Será que nós podemos conversar a sós um pouco, Chloe? — Eu disse olhando para os dois algozes sentados na mesa.

Mas demoraram uns três minutos em meio ao silêncio para entender que deveriam sair da mesa.

Assim que saíram, Chloe me fuzilou com o olhar, mas permaneceu calada. Estava esperando que eu falasse. Mas os olhos dela me intimidavam.

— Eu peço desculpas por essa armação ridícula, os meus amigos não reconhecem os limites.

— Eu gostei de ter vindo. Liz e Lucas parecem ser pessoas ótimas. Mas eu realmente não sabia que você estaria aqui, antes que você pensasse que eu armei para estar perto de você.

— Eu não pensei nisso. Eu sabia que isso era obra dos dois.

— Não se preocupe, não vou te incomodar mais.

Ela se levantou da mesa e jogou o guardanapo em cima do prato, pegou a bolsa pendurada e caminhou para a porta.

— Peça desculpas ao Lucas e à Liz; não vou conseguir me despedir deles.

Eu caminhei a passos largos até ela, com pressa. Minha cabeça me dizia que eu deveria deixá-la ir, mas todos os sentidos do meu corpo me fizeram apenas ficar desesperado para que ela ficasse.

— Por favor, não vá. Eu não quis... eu não quero que você vá embora.

A campainha tocou novamente. Ah, meu Deus, quem era agora?

— Desculpa interromper a conversa de vocês, nosso amigo, Matthew chegou.

— Amigo? — Eu falei indignado.

— Sim, ele avisou que chegaria bem atrasado… Algum problema, Benjamin? — disse Liz, me encarando.

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