Capítulo 10

Prendo meu cabelo num coque apertado e começo a recolher os pratos usados das mesas. Volto pro balcão e coloco tudo na lava-louças, que é trabalho pros que vêm depois. Quando tô me virando de novo, dou de cara com uma cena que me faz travar. O que ele tá fazendo aqui? Vickie tá ali do ladinho dele, sorrindo feito boba enquanto trocam ideia. Nem notei a garota morena sentada do outro lado da cabine.

"Ah, beleza, vou vomitar", murmuro baixinho.

Ele levanta a cabeça da mesa e nossos olhares se cruzam. Engulo seco e viro o rosto. O que esse cara quer aqui? Vickie volta e solta um suspiro do meu lado.

"Ainda tô tentando recuperar o fôlego", ela fala baixinho.

"Você tá bem?"

"Nem um pouco. Olha em volta, não notou ninguém... diferente?" Dou uma olhada e vejo umas meninas lançando olhares furtivos pro Gray Carter. Sério, quase nem parece que ele é famoso em Nova York.

"Apenas o Gray sentado com uma garota."

"Apenas? O Gray é tipo o mais gato de Nova York e ainda por cima vem de uma das famílias mais ricas do país. Muita mulher largaria o marido por ele."

"Você tá exagerando."

"Nem sei explicar direito quem é o Gray Carter pra você." Pra mim, ele só é um stalker irritante que só complicou minha vida.

"Não tô nem aí."

"70% dos nova-iorquinos tão, querida. Ele é o crush da cidade e assunto de todas as rodas de fofoca." Ou seja, eu sou doida, né?

"Meu Deus, ele tá vindo pro balcão", Vickie sussurra. Cacete, odeio ela.

"Você quer alguma coisa?" Vickie pergunta pro Gray, que já tá se apoiando no balcão.

Ele nem responde, só me encara fixo. Os olhos cinzentos colados em mim.

"Café, por favor", ele diz, sem desviar o olhar.

"Claro", Vickie responde.

"Não você. Quero que ela prepare", Gray fala, olhando pra Vickie antes de lançar um meio sorriso pra mim.

"Tá bom..." Ele tem uma presença tão intensa. Juro por tudo que fiquei muda só pela proximidade.

Ele faz um aceno educado e volta pra mesa. Que raio ele tá tramando agora? Faço duas xícaras bem feitas, caprichando como se fosse pra um chefe. A garota morena com quem ele tá lancha me encara como se eu tivesse invadindo o território dela. Coloco os cafés numa bandeja e caminho devagar até a mesa, super cuidadosa pra não derramar.

"Valeu", ele fala, mas nem disfarça um sorrisinho.

Faço um aceno de cabeça e saio rapidinho. O resto do dia foi uma tortura porque ele ficou o tempo inteiro me encarando. Quando anoiteceu, terminei o expediente, corri pro banho no vestiário e me troquei. Quando saí do restaurante, quase tropecei quando vi quem tava me esperando. Ele. Com as mãos nos bolsos e os olhos me analisando de cima a baixo. Tento dizer algo, mas a voz não sai.

"O que você tá fazendo aqui?" Consegui perguntar por fim.

"Entra no carro", ele diz, abrindo a porta pra mim.

"Eu... não posso", balbucio, tentando passar por ele, mas ele me puxa de volta. Minhas mãos encostam no peito dele enquanto ele me estuda.

"Entra", ele insiste. Engulo seco de novo e só balanço a cabeça, sem coragem de contrariar. Entro, e ele fecha a porta logo em seguida. Dá a volta e assume o volante. O carro é chiquérrimo, vidros escuros e tudo.

"Pra onde a gente tá indo?", pergunto. Ele liga o rádio e pega a estrada. Nem me olha, só dirige.

Fico mexendo nos dedos e olho pro meu colo.

"O que seus pais disseram? Levaram bronca?"

"Mais ou menos."

"Mas quebraram seu celular, né?" ele me pergunta, dessa vez encarando.

"Sim", confirmo com um aceno. Ele solta um riso de desprezo e continua dirigindo.

"Você já se defendeu alguma vez?"

"Não tem como. São meus pais."

"Dane-se isso. A última vez que eu olhei, pai e mãe não têm direito nenhum de bater num filho. Isso devia dar cadeia."

Dou um suspiro e olho pela janela. Nova York passando rápido pelos vidros escuros. Quem é esse cara? Sempre aparecendo do nada na minha vida. Meio estranho isso.

"Como você sabe meu nome?", pergunto virando pra ele. O cabelo dele tá bagunçado como sempre, ao natural. Dirigindo com uma mão só. Me encara com um meio sorriso antes de voltar os olhos pra frente.

"Tenho meus truques, Sininho." Sininho, Branca de Neve, agora Ariel. Qual vai ser a próxima?

"É, só que é esquisito demais. No dia que eu arrumo um emprego, você aparece com a namoradinha justo aqui pra almoçar?" Dou uma risada sarcástica e olho pra fora. Sinto o olhar dele me queimando. Juro que dava pra ver um sorrisinho de canto. Irritante.

"Namoradinha, é? Olha só, não me diga que ficou com ciúmes?"

Dou uma risadinha seca e me viro pra ele. Nem percebi que ele tinha tirado o casaco, só tava com uma camiseta cinza. Olho as tatuagens no braço e o detalhe do desenho no pescoço, em árabe. Bem discreta, quase não dá pra identificar.

"Já terminou de me comer com os olhos?" Ele levanta a sobrancelha e ri de leve.

Reviro os olhos e viro de costas. Por que sempre acaba desse jeito, com ele invadindo meu espaço?

O resto do caminho foi puro nervoso. Tava até esquecendo de respirar. Quando levanto os olhos, vejo que ele desvia o olhar logo. Ele para o carro numa rua antes da minha casa. Abaixa o volume do rádio e tira o cinto.

"Valeu." Ele levanta a sobrancelha, me observando firme. Engulo fundo e abro a porta pra sair.

Fecho a porta só pra dar de cara com ele parado na minha frente.

"Toma isso." Ele estende um iPhone novinho.

"Eu não... não posso", gaguejo.

"Fica", ele insiste, com um olhar firme.

"Não posso. Isso só vai me meter em encrenca."

"Você tem quantos anos, quinze?" Óbvio que não. Coço a nuca e suspiro.

"Ariel, pega logo", ele diz. Mordo o lábio tentando conter o rosto que já tá todo quente. Ouvir ele falando meu nome é surreal.

"Mas eu..."

Ele dá um passo pra frente e deixa o celular no teto do carro. Fico paralisada. Agora ele tá ali, bem diante de mim. E o cheiro dele... Meu Deus. Os olhos cinzentos presos nos meus. Ele passa os dedos na minha bochecha e ajeita uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha.

Tô sem ar. Ele faz meu estômago dar voltas. Nem percebi quando as mãos dele passaram pela minha cintura, me dando até um arrepio.

"Preciso ir", murmurava, sem conseguir desviar o olhar dele.

"Leva o celular. Me liga."

"Não adianta... vão quebrar."

Ele dá uma risada. "Não vão. Diz que foi o Gray que te deu e me liga. Porque se você não me ligar, eu apareço na sua casa e conto pra eles que sou seu namorado." Ele chega pertinho do meu ouvido, o sopro quente da fala arrepiando minha pele.

"Se atreve a não me ligar…" Ele sorri, coloca o celular na minha mão e entra no carro antes de sair acelerando.

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